quinta-feira, 12 fev. 2026

Miroslaw Chojecki. O ‘ministro do contrabando’ polaco

1949-2025. Chojecki construiu uma sofisticada rede de contrabando de literatura subversiva.
Miroslaw Chojecki. O ‘ministro do contrabando’ polaco

Mas, realmente, o que se pode fazer? Que os tempos vão de mal a pior, já se sabe... «e que pomos duas colheres de açúcar no chá/ isso já sabemos// e que somos contra a repressão/ e que os cigarros vão encarecer/ isso já sabemos// e que pressentimos sempre o que aí vem/ e que de cada vez teremos razão/ e que daí não se segue nada/ isso já sabemos (...) e que aguentar não é tudo pelo contrário é nada/ isso já sabemos»... Assim, dizem uns versos do poeta alemão Hans Magnus Enzensberger, e vêm estes a propósito agora que temos a cargo dar a notícia de um dos que soube dar a volta a este guião: Miroslaw Chojecki, um homem que foi apodado de ‘Ministro do Contrabando’ do histórico movimento sindical e social Solidariedade da Polónia, o qual teve um papel decisivo na transição do regime comunista para a democracia. Primeiro em Varsóvia e depois a partir do exílio, em Paris, Chojecki construiu uma sofisticada rede de contrabando, enviando tinta, papel, equipamento e literatura subversiva, tudo disfarçado como manuais técnicos, fornecendo assim aos ativistas anticomunistas um fluxo constante com vista a suplementar o fôlego da resistência ao regime. Se a maioria dos dissidentes no estrangeiro procuram influir nas lutas políticas e sociais apoiando financeiramente os grupos e fações investidos em provocar levantamentos, e se não faltam também as redes que facilitam o contrabando de armas, no início de 1989, Chojecki andava atarefado para meter à socapa 50 máquinas de fax na Polónia. Este golpe de contrabando preparou o contexto para que, em junho desse ano, se realizassem as primeiras eleições livres e justas desde a tomada do poder pelos comunistas após a II Guerra. O sermão da democracia é sempre muito doce, mas esquece amiúde que se falta à oposição os meios de intervir na esfera pública, se tantas vezes o alinhamento noticioso está subordinado às conveniências de um intrincada teia de poderes e interesses, toda essa fábula moral converte-se numa mera história de embalar. Ora, foi graças em boa parte às máquinas de fax de que Chojecki dotou aquele sindicato independente que lhe foi possível difundir rapidamente os seus planos e comunicados, conquistando praticamente todos os lugares em disputa, o que determinou uma sentença de morte para o regime de partido único na Polónia. Aquele engenhoso golpe marcou o culminar de década e meia em que Chojecki prestou os seus serviços ficando conhecido como o editor da resistência polaca.

Em vez das habituais precipitações, traçando com pólvora um rastro que depois não inspira e ninguém segue, nos primeiros anos na Polónia, e depois já radicado na capital francesa, Chojecki capitaneou uma vasta rede de tipografias que produziam panfletos, boletins informativos e livros que tiveram uma decisiva ação corrosiva da autoridade do regime, esboçando o horizonte que se abriria para uma sociedade livre. Assim, o movimento fundado em 1980 nos estaleiros de Gdansk, sob a liderança do eletricista Lech Wałęsa conseguiu levar à formação do primeiro governo não-comunista no Bloco Soviético.

Chojecki morreu no passado dia 10 de Outubro, em Varsóvia. Tinha 76 anos. A causa da morte não foi anunciada, tendo a notícia partido da Associação Liberdade de Expressão, uma organização polaca de defesa das liberdades civis da qual ele era presidente honorário.

Químico de formação, Chojecki envolveu-se nos meios dissidentes em meados da década de 1970, e em 1977 fundou a Casa de Edições Independentes, conhecida pela sigla polaca NOWa. Servindo-se dos seus conhecimentos de química, fabricava a sua própria tinta, e montou com outros membros da resistência várias oficinas de impressão em aldeias e armazéns nos arredores de Varsóvia. Aos poucos, o que começou como um único mimeógrafo, acabou por servir como a espinha dorsal do movimento dissidente. Com frequência, e para evitar a deteção, Chojecki tinha de deslocar estas oficinas, sendo o único que sabia onde todas elas se encontravam. Mas talvez o aspeto decisivo da sua lógica editorial tenha sido o princípio de recorrer a um conselho que o ajudava a escolher o que imprimia, procurando ouvir sempre quem fazia o trabalho de impressão, reconhecendo que eram os elementos mais expostos ao risco de serem apanhados.

Ao longo daquela década e meia, a NOWa fez sair e distribuiu todo o tipo de edições, incluindo livros proibidos como O Triunfo dos Porcos (Animal Farm) de George Orwell. Foi essa rede de informação clandestina que levou a que o Solidariedade representasse, em 1981, um terço da população polaca em idade de trabalhar. Ao instalar esta rede que levou as ideias e as notícias da frente dissidente a milhões de polacos, Chojecki teve de pagar um preço. Segundo as suas próprias contas, foi detido 44 vezes e o seu apartamento foi por 17 vezes alvo de buscas. Em 1980, numa dessas ocasiões em que estava há meses detido à espera de julgamento, fez uma greve de fome de trinta dias. Conseguiu acelerar o processo e recebeu uma pena suspensa de 18 meses. Regressou imediatamente ao trabalho de impressão. No ano seguinte, após a proibição do Solidariedade e a imposição da lei marcial, as autoridades voltaram a procurá-lo para acertar contas. Na altura, por sorte, encontrava-se em Nova Iorque a angariar apoios e fundos. Tendo seguido dali para Paris onde passou o resto da década a orientar a operação por ele montada, contando agora com o apoio da CIA.