segunda-feira, 09 fev. 2026

"Eu votei AD. É um pensamento bastante insuportável". Ribeiro e Castro recorda com embaraço últimas eleições

Antigo líder do CDS aproveitou discurso oficial no 1.º de Dezembro para desabafar sobre o voto na Aliança Democrática e criticar duramente Luís Montenegro pela ausência de apoios e falta de diálogo. "O Governo responde à indiferença com indiferença", atirou.
"Eu votei AD. É um pensamento bastante insuportável". Ribeiro e Castro recorda com embaraço últimas eleições

A celebração oficial do 1.º de Dezembro ficou marcada por um incidente político inesperado. José Ribeiro e Castro usou o seu discurso para fazer uma confissão pública surpreendente: lamenta ter dado o voto à Aliança Democrática nas últimas legislativas.

Desabafo público azeda cerimónia no Terreiro do Paço

O antigo presidente do CDS, que discursou enquanto responsável pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal, aproveitou a tribuna para expressar o seu descontentamento com o atual Executivo. A ausência do primeiro-ministro, Luís Montenegro, da cerimónia, substituído pelo ministro da Defesa, Nuno Melo, serviu de mote para as críticas.

A intervenção de Ribeiro e Castro centrou-se nas dificuldades da organização que lidera, nomeadamente a ausência de financiamento público e a impossibilidade de dialogar com o chefe do Governo.

"O panorama de declínio dos apoios governamentais vem de governos de há 25 anos. Tínhamos esperança de que agora fosse definido um quadro novo", afirmou. A seguir, apontou diretamente ao Executivo: "O Governo responde à indiferença com indiferença".

"Eu tenho culpa, eu votei AD"

A frase do momento chegou quando Ribeiro e Castro assumiu arrependimento eleitoral: "Antes podia refugiar-me na ideia de que não tenho culpa, não votei PS, mas agora embaraço-me ao dizer aos meus botões: eu tenho culpa, eu votei AD. É um pensamento bastante insuportável."

O antigo líder do CDS não poupou críticas a Luís Montenegro: "Sem prejuízo dos ministros setoriais, isto constitui matéria do primeiro-ministro. Não conseguimos ser recebidos nem que participe em cerimónias que organizamos. Seguimos à espera."

Bandeira dos 900 anos ficou sem destinatário

O discurso incluiu ainda uma anedota reveladora. Ribeiro e Castro relatou o caso de uma cidadã que pretendia entregar pessoalmente a Montenegro uma bandeira comemorativa dos 900 anos de Portugal, mas viu-se frustrada pela ausência do governante.

O democrata-cristão traçou um contraste com o anterior executivo socialista, sublinhando que António Costa comparecia regularmente nestas ocasiões. Citou as palavras da mulher, com as quais concordou: "Um primeiro-ministro não deve faltar onde faz falta. Não vejo coisa mais importante para fazer no dia das comemorações da independência."

Ministro da Defesa desvaloriza polémica

Confrontado pelos jornalistas após a cerimónia, Nuno Melo minimizou a situação. Garantiu que na data nacional não existem "melindres" e rematou: "Deus me livre".

O titular da pasta da Defesa dedicou a sua própria intervenção a enaltecer as Forças Armadas, classificando-as como "hoje legatárias do espírito do 1.º de dezembro, porque são a manifestação viva da essência da nação portuguesa". Destacou também investimentos no setor, incluindo a adesão portuguesa ao programa europeu SAFE de financiamento para a Defesa.

A cerimónia contou com a presença do Presidente da República, Maarcelo Rebelo de Sousa, e do autarca lisboeta Carlos Moedas.