Um teste de Leão

O percurso de Francisco dá um contexto a Leão XIV na ida à Turquia e ao Líbano

O Papa Francisco cultivava a cumplicidade com o Patriarca ecuménico ortodoxo Bartolomeu, em diversas causas e ocasiões, como a ecologia e a Terra Santa. Os dois juntaram-se em junho de 2014, nos jardins do Vaticano, para uma oração pela paz, com o presidente de Israel, Shimon Peres, e o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas. 

A viagem à Turquia, em novembro do mesmo ano, com ida à igreja de S. Jorge, sede do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, seria um marco e iluminaria o caminho do diálogo. Francisco reafirmou a ‘grande responsabilidade’ dos cristãos e pediu ‘um favor’ ao ‘irmão’ Bartolomeu: «Que me abençoeis a mim e à Igreja de Roma». Ouviram-se críticas da linha dura católica, ampliadas quando, na mesma viagem, Francisco esteve em oração com o grande mufti de Istambul na mesquita Sultanahmet. Numa declaração conjunta, os dois líderes cristãos pediram também a «promoção de um diálogo construtivo com o Islão», uma «maior intensidade no diálogo inter-religioso», com «todo o esforço possível para se construir uma cultura de paz e solidariedade». 

Constatei, em Istambul, que a visita de Francisco não alterou a rotina da cidade que partilha dois continentes. Nas margens do Bósforo e do Corno de Ouro, são aos milhares, todos os dias, os pescadores de cana. Disse-me um, enquanto punha o isco no anzol, que «Alá é para todos, mas os homens não entendem». 

A intuição de Francisco teve reflexo ao longo do pontificado, nos encontros com líderes de outras Igrejas e de outras religiões, pontuada pelo Documento sobre a Fraternidade Humana, em 2019, assinado pelo Papa e pelo Imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, uma das mais importantes figuras do Islão sunita, ou pela visita a al-Sistani. líder do Islão xiita no Iraque. 

O percurso de Francisco dá um contexto a Leão XIV na ida à Turquia e ao Líbano. A pretexto dos 1700 anos do Concílio de Niceia – atual Iznik, Turquia –, que fixou as bases teológicas da Igreja e a elaboração do Credo, o Papa Prevost terá nova oportunidade para realçar a responsabilidade das lideranças cristãs no diálogo ecuménico e com o Islão. Antes compreendidas, as tensões internas na Igreja católica, as divisões nas Igrejas ortodoxas, que têm na guerra da Ucrânia um dos mais paradoxais exemplos, os difíceis debates teológicos com as Igrejas protestantes e evangélicas sobre o papel da mulher, questões de género ou legitimidade institucional, apresentam-se hoje como sinais de incoerência. Nos parâmetros de uma ética comum, a unidade na diversidade eclesial pode reforçar o papel social e político da fé cristã nos conflitos com a dimensão religiosa em pano de fundo.

Na posterior passagem por Beirute, Leão XIV estará a cerca de 350 kms de Gaza. A situação palestiniana tem o foco, assim como a situação política, dos refugiados e cristãos no Líbano. A Igreja maronita – em comunhão com Roma e atualmente uma minoria, como acontece com os cristãos na Turquia – tem defendido um Líbano com plena soberania, no que se entende como um apelo ao desarmamento dos radicais islâmicos do Hezbollah.

É a primeira grande viagem internacional de Leão. Turquia e Líbano representam a complexidade religiosa e política, testam o desejo inicial do Papa norte-americano, anunciado no dia em que se apresentou ao mundo: a construção da «unidade», de «uma paz desarmada e desarmante»