quinta-feira, 12 fev. 2026

Quanto mais debates mais eu gosto de ti

Marques Mendes assume-se como o candidato do “consenso e diálogo”, que as prioridades são a “estabilidade e a consciência social”. Em suma, é o candidato do “extremo-centro”, como referia Manuel João Vieira..
Quanto mais debates mais eu gosto de ti

O prometido é devido: fui ver a primeira semana de debates.

José Alberto Carvalho moderou, perdão, tentou moderar o debate com António José Seguro e André Ventura, segunda-feira 17 de novembro na TVI. O moderador fez uma introdução de cerca de 70 segundos, o máximo de tempo seguido que viria a conseguir falar nessa noite. Depois disso, o dilúvio.

Seguro é convidado a falar sobre pacote laboral e a greve geral.

Ventura inicia o discurso com um “vamolàver” digno de António Costa, antes de atacar os sindicatos e as leis da União Soviética.

Seguro tenta dialogar, mas é interrompido por Ventura, que o acusa de ser como “o Melhoral, nem faz bem nem faz mal”.

Seguro faz bem, e insiste em catalogar Ventura de “senhor deputado”, alegando que ele está nas eleições erradas.

José Alberto Carvalho tenta avançar nos temas, mas já ninguém o ouve.

Ventura: “Estou na eleição errada se ser presidente é ser uma jarra de enfeitar”.

Seguro: ”Sentido de Estado é importante”.

Ventura: “Conversa da treta”, logo seguido de “conversa de chacha”.

Moderador tenta novamente “reivindicar autoridade do debate”.

Ventura reivindica a autoridade do debate falando de “portugueses primeiro” e “temos de pôr as maiorias em primeiro lugar”.

Seguro recorda a Ventura uma tese de doutoramento de… André Ventura em 2012, em que o deputado defendia que não se devia estigmatizar as minorias.  

José Alberto Carvalho passa a ser a minoria no debate, repetindo “meus senhores”, “meus senhores”, mas os senhores não querem saber.

No dia seguinte, terça-feira 18 de Novembro, Clara de Sousa moderou o debate entre António Filipe e Marques Mendes na SIC.

Clara de Sousa repetiu coordenadas da TVI de noite anterior e iniciou debate com greve geral e paz social, inquirindo Marques Mendes. Marques Mendes começa por dar manteiga a Clara de Sousa e elogia o seu oponente, já se percebeu que Marques Mendes não quer hostilizar ninguém, nem mesmo a greve geral, que considera “legítima”, uma vez que será um processo longo do qual ele eventualmente pode “vir a ser árbitro”, caso seja eleito.

Marques Mendes, sua velha raposa.

António Filipe recusa a pomba da paz de Marques Mendes, referindo que os candidatos são divergentes. Quando começa a escrutinar o pacote laboral, é interrompido por Marques Mendes, perdão, por Clara de Sousa: “E as exigências do mundo do trabalho?”. Sim, a moderadora interrompeu António Filipe aos 44 segundos da sua primeira intervenção.  

Marques Mendes acusa Filipe de “estar noutra eleição”, como Seguro fez com Ventura na noite anterior. Clara de Sousa agarra palavras de Marques Mendes, tentando saber se António Filipe será “candidato de facção [comunista]”. Filipe: “Sou tão de facção como Marques Mendes é do PSD”. Logo a seguir, António Filipe explica porque não celebrará o 25 de novembro: “O 25 de novembro é contra o 25 de abril, porque só se lembraram de o celebrar quando o 25 de abril fez 50 anos. O objectivo é demonizar o 25 de abril e para isso não contem comigo”.

Marques Mendes assume-se como o candidato do “consenso e diálogo”, que as prioridades são a “estabilidade e a consciência social”. Em suma, é o candidato do “extremo-centro”, como referia Manuel João Vieira.

Antes do final, Clara de Sousa pergunta a Marques Mendes o que fará um presidente se o país caminhar para a “deriva autoritária”. Marques Mendes: “Está a falar de quê, concretamente?”. A moderadora insiste: “De o país caminhar para deriva autoritária”…  

Dois dias depois, na quinta-feira 20 de novembro, Vitor Gonçalves moderou debate com João Cotrim Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo na RTP.

Os primeiros minutos foram a falar da independência dos candidatos, tema que interessa zero aos portugueses.

Cotrim mostrou-se ofendido por Gouveia e Melo o achar um “cavalo de Tróia”, o que não é mentira, e exigiu uma resposta de Gouveia e Melo, “olhos nos olhos”. Gouveia e Melo veio de óculos precisamente para responder olhos nos olhos a Cotrim: “Vou dizer na sua cara que João Cotrim Figueiredo não vai conseguir ser independente”.  Cotrim respondeu à letra com o que pareceu ser uma quadra dos santos populares: “Ó Gouveia e Melo, isso não faz sentido, vai dizer que é cadastro ter passado partidário?” (Isto cantado soa melhor).

Apesar de navegar com vento a favor, o Almirante raramente ganha vantagens no debate, e Cotrim aproveita-se bem, conquistando terreno nos argumentos e na clareza de ideias: “Sou a verdadeira vacina contra o pessimismo e o medo do futuro”, concluiu. Mas, num registo passivo-agressivo, insinuou que Gouveia e Melo seria maçon. Gouveia e Melo, numa resposta igualmente passiva-agressiva, disse que não havia um maçon naquela sala.

Enquanto se discutia a estratégia para a privatização da TAP, Cotrim recordou o aforismo de um seu professor: “Cada vez que se fala de estratégia numa empresa, significa que alguém vai ao bolso de alguém”.

Mais tarde, a conversa derivou para a greve geral, o pacote laboral e, inevitavelmente, a “necessidade de flexibilizar o trabalho”. Eu, quando oiço políticos e empresários a falar de “flexibilizar”, também significa sempre que alguém vai ao bolso de alguém…

Três dias depois, domingo 23 de novembro, Clara de Sousa moderou debate com Catarina Martins e Henrique Gouveia e Melo na SIC.

Gouveia e Melo apareceu sem óculos e entrou a matar, afirmando que existe um “oceano de diferenças” entre os dois candidatos e acusando Catarina Martins de estar entre Bruxelas e Lisboa. “Sou pelo mercado livre e a propriedade privada” era uma frase que podia ter usado no debate com Cotrim, ou pelo próprio Cotrim, aqui pareceu uma declaração de guerra de Gouveia e Melo ao Bloco de Esquerda.

Gouveia e Melo apareceu sem óculos e entrou a matar, afirmando que existe um “oceano de diferenças” entre os dois candidatos e acusando Catarina Martins de estar entre Bruxelas e Lisboa. “Sou pelo mercado livre e a propriedade privada” era uma frase que podia ter usado no debate com Cotrim, ou pelo próprio Cotrim, aqui pareceu uma declaração de guerra de Gouveia e Melo ao Bloco de Esquerda.

Catarina Martins respondeu: “A mim ninguém me diminui por ter sido eleita. Estou aqui para defender a liberdade e não os sonhos salazarentos de Ventura”. Depois devolveu a acusação: “Fez mal em ir almoçar com a extrema-direita”. Gouveia e Melo engoliu em seco.

“O problema não é o que desejamos no fim, mas o caminho que fazemos para lá chegar”, assegura Gouveia e Melo. “Há em Portugal uma cultura de improviso e falta de rigor”, acrescenta. Mas depois faz uma pausa e não desenvolve o argumento. Catarina Martins agarra a oportunidade e refere que devemos concretizar o que estamos a dizer: “Gouveia e Melo já teve varias opiniões sobre vários assuntos, bem sei que isto não são as legislativas, mas é importante saber de que lado é que está”.

Gouveia e Melo finaliza sublinhando que está “do lado da economia livre e não estatizada”. Mas não é por isso que ficamos a saber de que lado é que ele está, ou o que pediu de entradas no almoço com a maçonaria ou a extrema direita.