Vamos a um exercício de memória. Lembram-se quando João Cotrim de Figueiredo chegou à política, sucedendo a Carlos Guimarães Pinto na liderança da IL? Como escrevi na altura, naquela eleição em que foi o único deputado dos liberais sentado na Assembleia da República, até o Rato Mickey seria eleito, porque a IL era ‘cool’ – fixe se fosse nos tempos de Mário Soares – estava na moda, o Manuel Soares Oliveira tinha criado uns outdoors disruptivos e inovadores e a máquina do partido nas redes sociais era moderna e bem oleada.
João Cotrim de Figueiredo não era o líder carismático que é hoje, o fenómeno em ascensão nestas eleições presidenciais. Era um homem que vinha das empresas, da Compal, da Media Capital, do Turismo de Portugal. Sabia tudo de economia, gestão, marketing mas o léxico da política não entrou de imediato. Parecia ainda gatinhar em busca do seu espaço, algumas vezes a medo. Tinha ‘persona’ própria, identidade e soundbyte bem engatilhado mas não era um ‘natural’ (em inglês), não tinha em si o dom inato dos grandes políticos.
A sua evolução é notável, em poucos anos sugou todo o conhecimento de que precisava para se tornar um candidato temível em qualquer acto eleitoral. Passou a ser cristalino e evidente que vale muito mais do que o partido de onde saltou para a ribalta. É óbvio para todos que se não tivesse optado pelo Parlamento Europeu, a IL teria crescido muito mais em votos, deputados e influência.
Agora, e como fui o primeiro a dizê-lo publicamente na CNN (num vídeo aproveitado pela sua campanha profissional), por mérito único e exclusivamente seu, conseguiu que esta corrida para Janeiro de 2026 seja a cinco e pode mesmo passar à segunda volta. Pois. Não julguem que é confiança e otimismo de quem está na crista da onda e surgiu a cavalo na Feira da Golegã. João Cotrim de Figueiredo está a galope, a crescer para mal dos seus rivais. Fidelizando o seu bloco mas a cativar eleitorado do Chega, até do PS e sobretudo do PSD.
Tem uma campanha moderna, exército digital poderoso (só suplantado por André Ventura), faz vídeos breves e fala curto mas com impacto nas redes sociais, usa figuras públicas ao seu lado e começa a exibir uma narrativa antissistema que faz mossa e congrega simpatias adequada aos dias que vivemos. Nos debates não pode falhar. Com Gouveia e Melo bem – aproveitando as fragilidades de quem é neófito nestas andanças – com Jorge Pinto mais fraco porque me pareceu que não encarou esse duelo como vital.
Com mais de 60 anos é dos melhores a seduzir o segmento jovem, já ali tinha mel quando liderava a IL. Falta-lhe encontrar uma estratégia para captar o eleitorado mais velho que tradicionalmente vota à esquerda. Nas classes A/B e nos centros urbanos fortíssimo, porém, tem pouco mais de um mês para construir uma narrativa eficaz que toque o país real. Quem não o leva a sério como contendor de alto calibre e potencial não percebe nada disto. Provavelmente, para surpresa de muitos, não minha, o seu mandatário José Miguel Júdice tinha razão: João Cotrim de Figueiredo é o Isaac Nader destas presidenciais.