O que têm em comum uma turma da Escola Básica Ferreira de Castro, de Mem Martins, nos arrabaldes de Lisboa, e uma turma do Liceu Francês Charles Lepierre, às Amoreiras, na capital? Os seus alunos assistiram à sessão solene evocativa do 25 de Novembro na Assembleia da República nas galerias de S. Bento.
A iniciativa de os convidar partiu do presidente do Parlamento, o social-democrata José Pedro Aguiar-Branco, não para «terem uma aula de História» ou para «assistirem a um debate ideológico», mas porque «nesta casa se decide o futuro», «decidem-se os próximos 50 anos», e foi para «a geração que terá a responsabilidade de construir esse futuro» que quis falar na sessão solene evocativa do cinquentenário do 25 de Novembro.
E falou. E muito bem. Começando por «estranhar» que, 50 anos depois, o 25 de Novembro divida, seja razão para que se fale numa «data fraturante» ou motivo para que a sua evocação resulte de uma qualquer tentativa de «apropriação» sectária.
E, porém, o debate político extremou-se. Nas redes sociais, nos palcos mediáticos, na própria Sala do Plenário da AR. Sobretudo desde que a ‘geringonça’ tomou de assalto o poder na ARe procurou menorizar o 25 de Novembro. Até aos dias de hoje, com a direita maioritária a impor a realização da sessão solene.
A discussão subiu de tom. E não só: os representantes dos partidos que usaram da palavra para os discursos da praxe entenderam por bem prolongar a querela absurda sobre os arranjos florais a ornamentar a mesa e o púlpito, com Inês de Sousa Real (PAN), Mariana Mortágua (BE) e Jorge Pinto (Livre) a colocarem cravos vermelhos no meio das rosas brancas que tomaram o lugar dos cravos da sessão solene do 25 de Abril, André Ventura (Chega) a tirá-los para o lado, e Pedro Alves (do PSD) a recolocá-los.
E os seus discursos, mais os de Filipe Sousa (JPP), Paulo Núncio (CDS), Mariana Leitão (IL) e Marcos Peretrello (PS)foram inflamados e todos eles vincadamente ideológicos, espelhando diferentes versões sobre um acontecimento determinante na afirmação da democracia representativa.
Sim, diga-se o que se disser, sobretudo os que viveram ativamente aqueles tempos revolucionários, antes e imediatamente a seguir ao 25 de Abril de 1974, que derrubou o Estado Novo, e em particular entre os militares barricados nas trincheiras ideológicas de ambos os lados, não há ainda distanciamento e isenção para contar a verdadeira História desse período.
Porque, sim, Portugal estava à beira da guerra civil e Mário Soares foi fundamental para evitá-la com o alinhamento político e internacional (dos aliados) com os moderados do Grupo dos Nove e com as forças militares operacionalmente comandadas por Ramalho Eanes e Jaime Neves que contiveram a intentona militar arregimentada pela extrema esquerda.
Sem Soares, sem o Grupo dos Nove, sem Eanes e sem Jaime Neves, a democracia representativa teria ficado adiada ou comprometida.
Como disse Eanes na sua mensagem à parada militar no Terreiro do Paço: «Foi o 25 de Novembro que permitiu que os militares respondessem ao imperativo de honra que tinham assumido com o povo português a 25 de Abril».
Já Mário Soares escrevera (em 1976) no livro Portugal Que Revolução?: «O 25 de Novembro salvou a Revolução. Se a louca aventura dos comunistas e dos esquerdistas tivesse triunfado, a História de Portugal ficaria enriquecida com uma ‘comuna de Lisboa’ e com uma guerra civil». E, como recordou agora a Fundação com o seu nome, Soares por diversas vezes enalteceu a importância do 25 de Novembro para salvar «não apenas Portugal mas toda a esquerda europeia» do «aventureirismo do PC».
E foi ele quem disse em entrevista a Maria João Avillez que o 25 de Novembro «foi um regresso à pureza inicial do 25 de Abril, um rasgar de novos horizontes de esperança, com a consolidação da democracia pluralista».
O que nos faz voltar à sessão solene e aos miúdos da Escola Básica Ferreira de Castro de Mem Martins e do Liceu Francês Charles Lepierre que assistiram nas galerias com um comportamento irrepreensível, sem um pio, mas certamente com incredulidade.
«Não há herança que vos valha ou condição que os condene», disse-lhes Aguiar-Branco, num discurso sóbrio, inteligente e interpelativo: «Não se percam no interesse pessoal, no egoísmo, porque não há verdadeira felicidade que não seja vivida em comum; não se detenham na inveja, elevem-se para ver o todo, capazes de reconhecer qualidades nos adversários. Sejam melhores do que nós».
Têm mesmo de ser muito, mas mesmo muito melhores do que nós!