Se dúvidas houvesse quanto à cada vez maior interdependência dos mercados mundiais, em todas as actividades, a última edição dos Emmy Awards dissipá-las-ia.
Em Nova Iorque, uma vez mais, tive oportunidade de assistir à cerimónia dos prestigiados prémios internacionais do audiovisual.
Nas diferentes categorias, estiveram a concurso produções de vinte e cinco países. Independentemente da relevância da presença de originais provenientes de origens muito diversificadas, o facto mais marcante assenta no significativo número de vitórias obtidas fora dos chamados grandes mercados.
Serve isto para dizer que, tendo a tecnologia das comunicações acelerado o encolhimento do tamanho do mundo, é cada vez mais válida a tese de que ninguém nasce condenado a ser (ou a ficar) pequeno. Ambição e crença são factores essenciais para se conquistar um lugar à mesa dos mais poderosos.
A forma como países de menor dimensão ou mais periféricos podem alcandorar-se a um papel de relevo assenta na força da criatividade e na energia com que vão à luta. Encarar as limitações geográficas como desculpa é próprio dos mais fracos e dos acomodados, daqueles que apenas confiam na sorte e nada fazem para a trazer para dentro de casa. Nada se obtém sem trabalho. Muito trabalho.
Espírito empresarial e capacidade de risco são ferramentas fundamentais em qualquer negócio. Na iniciativa individual reside o impulso que encurta distâncias para novos horizontes.
No que diz respeito ao audiovisual português, as empresas nacionais têm feito mais pelo País do que os governos. Não sou dos que se abrigam e ancoram na sombra do Estado, mas reconheço que a tacanhez que sempre tem existido nas políticas para a Cultura dificulta, em muito, a vida de quem entende que Portugal pode ser muito maior. Basta olhar-se para Espanha e para a maneira como o Estado espanhol canaliza fundos e desenvolve incentivos para a produção de conteúdos para se perceber o enorme fosso que é necessário galgar. Por alguma razão, nestes Emmy Awards, como nesta indústria, em geral, os espanhóis registam presença relevante, assumindo-se como players cujos trabalhos atravessam fronteiras. À semelhança, por exemplo, do que acontece com a Turquia. Nós, portugueses, de vez em quando, conseguimos por o nariz de fora, dizemos que também existimos e tentamos atrair atenções para a nossa capacidade competitiva a, praticamente, todos os níveis, do talento à produção. Passar da lógica dos tiros ocasionais para um modelo sistematizado implica investimento. Significativo investimento, que constitui obstáculo sério ao crescimento próprio e autónomo. A necessidade de financiamento, numa escala decente, sentencia as empresas naciinais a entregarem-se ao abraço de gigantes mundiais, cuja envergadura tende a secundarizar-nos, de forma desproporcional e moralmente injusta em comparação com o valor criativo subjacente ao nosso envolvimento. Nada tenho contra andar acompanhado, nestas andanças. Mais vale dividir, ainda que de modo menos equitativo, o que se consegue gerar, com companheiros de viagem adequados ou minimamente úteis, do que caminhar sozinho em direcção a lugar nenhum. No entanto, sendo tão importante criar marcas de referência, que nos posicionem num universo crescentemente global, mostra-se aconselhável que saibamos desenhar e controlar o trajecto a percorrer.
Estamos a procurar cumprir a nossa parte, no Grupo Mediacapital, em que a TVI se insere, tentando transformar fisgas em mísseis, mas a história de David e Golias é cada vez menos repetível.
Seria bom que se percebesse que, hoje em dia, o audiovisual português garante milhares de empregos e se reveste de potencial exportador não despiciendo. É tempo de o País acertar o passo com um sector que, contrariamente a outros, assenta em matéria prima essencialmente nacional. Nisso reside um valor não mensurável.
P.S. – O exemplo que nos chega do que se passa com os Estados Unidos e a Ucrânia deveria fazer-nos pensar: deixar que outros cuidem de nós e ficar a depender de promessas de terceiros para defender os nossos interesses é tornar-se refém de jogos de poder, variações de humor ou egocentrismos exacerbados; é doloroso ver Trump empurrar os ucranianos para a capitulação, perante um invasor cruel e impiedoso, despido de escrúpulos e para quem a vida não passa de um valor menor. Que Mundo este em que vivemos!