Na fábula da Cigarra e da Formiga, a história é simples: enquanto a cigarra canta, distraída, a formiga trabalha, prepara, constrói futuro. Em Portugal, as eleições presidenciais de 2026 parecem, mais do que nunca, um confronto entre estes dois arquétipos. Não posso deixar de chamar a atenção para a necessidade da consciência coletiva do quão caro nos tem saído a escolha recorrente de vencedores cigarra.
As cigarras políticas portuguesas são bem conhecidas. Cantam muito, prometem muito, apelam tanto à esperança e à confiança, dominando o palco mediático sem, contudo, deixarem qualquer sinal de aderência entre o discurso e a ação.
A lista é longa, mas os primeiro-ministro cigarra que marcaram a agenda das últimas décadas, destacam-se. De Guterres a Costa, de Sócrates a Montenegro, todos eles carregam essas características que encantam e seduzem eleitores. Parecem de uma competência inabalável.
Em campanha resolvem todos os problemas que afetam as diversas necessidades eleitorais. Ouvi-los, em crença, enche qualquer eleitor de esperança e convicção. Ouvi-los à luz do seu historial de cumprimento de promessas e execução de medidas com impacto socioeconómico é, efetivamente, uma realidade bem distinta. É o caso de Marques Mendes, sempre omnipresente nos comentários, mais próximo do analisador permanente do que do construtor. É também o caso do atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, uma verdadeira cigarra institucional: omnipresente, comunicador nato, mas incapaz de transformar popularidade em contributos para reformas estruturais que o país desesperadamente necessita. E é também o caso de André Ventura, uma cigarra moderna, que canta alto, provoca e alimenta polémicas – com soluções inconsequentes, frágeis, inconsistentes e despropositadas à resolução da estagnação em que o país se encontra.
Portugal habituou-se a este estilo de liderança. A cigarra encanta, diverte, distrai, emociona. Não resolve. Não planeia. Não muda o país.
Do outro lado está a Formiga. E é aqui que surge a figura do Almirante Gouveia e Melo – com uma imagem clara: a do homem de ação, pragmático, organizado, imune ao espetáculo. Quando foi preciso vacinar o país, não fez discursos: montou uma operação logística sem precedentes e executou. Onde outros veriam problemas, ele viu tarefas. Onde outros esperariam condições políticas, ele impôs método. Onde as cigarras criam ruído, a Formiga cria solução.
E é essa oposição – ruído versus método – que deve orientar a escolha de 2026. Portugal não precisa de mais uma cigarra a ocupar Belém. Precisa de uma Formiga que compreenda que o futuro se constrói com trabalho, estratégia, detalhe e coragem para enfrentar corporações e interesses instalados.
A mensagem é simples: se Portugal quer mudar de rumo, tem de entregar o poder às Formigas. Já tivemos presidentes que cantam. Está na hora de termos um presidente que trabalha. A fábula é antiga, mas a lição continua atual: quando chega o inverno – económico, social, institucional – não é a cigarra que salva a comunidade. É a Formiga.
A ver se evitamos perder mais invernos...
CEO do Taguspark, Professor universitário