A Guiné-Bissau vive esta quarta-feira uma situação de crise após militares terem assumido o controlo total do país, numa operação que o Presidente Umaro Sissoco Embaló disse ser um golpe de Estado.
O chefe de Estado confirmou ter sido detido por volta das 12h00, no seu gabinete no Palácio Presidencial em Bissau, por forças militares que suspenderam o processo eleitoral e encerraram as fronteiras.
A ação ocorre três dias após as eleições gerais, que quer Embaló como o candidato da oposição Fernando Dias reivindicavam vitória eleitoral.
De acordo com o Presidente, também foram detidos o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Biague Na Ntan, o vice-chefe do Estado-Maior, Mamadou Touré, e o ministro do Interior, Botché Candé.
O porta-voz dos militares Dinis N'Tchama justificou a ação como necessária para restaurar a segurança nacional e a ordem pública e anunciou que a junta militar assume todos os poderes do Estado.
Testemunhas no terreno reportaram,à agência Lusa, tiros de armas ligeiras e de guerra no centro de Bissau desde as 12h40, com militares fortemente armados a controlarem áreas estratégicas da capital, incluindo as proximidades do Palácio Presidencial e da sede da Comissão Nacional de Eleições.
No entanto, há setores da oposição e da sociedade civil guineense que denunciam tratar-se de um falso golpe de Estado, uma suposta manobra orquestrada pelo próprio Presidente para suspender o processo de contagem de votos que não lhe seria favorável.
Isto porque os militares ocuparam não apenas instalações governamentais, mas também estações de rádio e a sede de campanha do candidato Fernando Dias, que havia declarado vitória na primeira volta com base na contagem própria dos editais das mesas de voto.
O contexto eleitoral estava já marcado por irregularidades e exclusões polémicas. As eleições de 23 de novembro decorreram sem a participação do histórico Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde, excluído pelo Supremo Tribunal por alegado atraso na apresentação de candidaturas, assim como do seu líder Domingos Simões Pereira, que regressara recentemente de um exílio de nove meses.
Embaló, que procurava tornar-se o primeiro presidente em três décadas a conquistar um segundo mandato consecutivo, governa por decreto desde 2023, após dissolver o parlamento controlado pela oposição na sequência de uma alegada tentativa de golpe de Estado.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros português apelou à abstenção de qualquer ato de violência e ao retorno da regularidade institucional para finalizar o processo de apuramento dos resultados eleitorais, garantindo estar em contacto permanente com a embaixada em Bissau para assegurar a situação dos cidadãos portugueses e da população em geral.