terça-feira, 10 fev. 2026

População de lince ibérico cresce de forma “espetacular”, mas espécie continua ameaçada

“De todas as espécies cujo genoma se conhece, o lince é a que tem menos diversidade genética”
População de lince ibérico cresce de forma “espetacular”, mas espécie continua ameaçada

A população de lince ibérico registou um “crescimento espetacular” na última década, mas a espécie permanece em risco, alertou esta segunda-feira o coordenador do programa LIFE Lynx Connect. Apesar dos progressos notáveis, o responsável sublinha que o felino continua “ameaçado” e que o trabalho de conservação não pode abrandar.

“É preciso continuar a trabalhar. O crescimento da população foi espetacular, nós mesmos estamos surpreendidos com os resultados, mas o lince continua a estar em perigo, ameaçado”, afirmou Javier Salced a poucos meses do fim do LIFE Lynx Connect, o quarto programa de conservação financiado pela União Europeia.

Segundo o censo ibérico divulgado em maio, o número de linces aumentou 19% em 2024, atingindo 2.401 animais na Península Ibérica. Do total, 1.557 são adultos, incluindo 470 fêmeas reprodutoras, mais 64 do que em 2023. Apesar da evolução positiva — que levou a espécie a passar de “em risco” para “vulnerável” na Lista Vermelha da UICN — os especialistas recordam que o objetivo para um estado de conservação estável exige entre 4.500 e 6.000 linces, com pelo menos 1.100 fêmeas reprodutoras.

À agência Lusa, Javier Salcedo reforça que “vulnerável” continua a ser uma categoria de ameaça e que a espécie enfrenta riscos sérios, como a fraca diversidade genética, que considera “uma ameaça silenciosa”. “De todas as espécies cujo genoma se conhece, o lince é a que tem menos diversidade genética”, alertou, sublinhando que, apesar dos avanços, este problema “continua a ser o mesmo ou menor do que no início”.

Além das questões genéticas, Salcedo destaca outros desafios: a elevada mortalidade por causas não naturais — como atropelamentos e perseguição ilegal — e o facto de 60% dos linces preferirem territórios humanizados, onde enfrentam maior risco, em vez de permanecerem em áreas protegidas da Rede Natura 2000. Em 2024 foram identificados 2.047 linces em Espanha e 354 em Portugal, no Vale do Guadiana. No último ano registaram-se 214 mortes, das quais 162 por atropelamento.

O sucesso da recuperação do lince ibérico, que passou de menos de 100 indivíduos em 2002 para mais de 2.400 em 2024, deve-se, segundo Salcedo, à cooperação entre administrações públicas, organizações científicas, caçadores, ambientalistas, agricultores e proprietários privados. O programa contou também com um forte investimento na reprodução em cativeiro, que permitiu libertar 403 animais entre 2011 e 2014. Em Portugal, o projeto é coordenado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).