quinta-feira, 12 fev. 2026

João Garcia. “A montanha é sinónimo de liberdade”

João Garcia é dos raros alpinistas que escalaram as 14 montanhas mais altas do mundo sem oxigénio! Ganhou uma experiência de vida, mas também perdeu amigos nas neves eternas. Aos 58 anos, continua a escalar e a ensinar os segredos do alpinismo aos mais novos
João Garcia. “A montanha é sinónimo de liberdade”

Em 1993, João Garcia integrou uma expedição bem-sucedida à montanha Cho Oyu (8.201 metros), no Tibete. Foi o início de uma história ascendente, que tocou os pontos mais altos do planeta. A ideia de escalar as maiores montanhas do mundo sem oxigénio começou por ser um projeto amador. Demorou 12 anos para subir as primeiras seis. De dois em dois anos lá conseguia arranjar dinheiro e partia para mais uma aventura. Mais tarde tornou-se profissional e, em 2010, foi o 10.º alpinista no mundo a subir aos 14 picos mais altos (acima dos 8.000 metros) sem oxigénio e sem carregadores de altitude. 

O alpinismo de exploração é a sua paixão. A liberdade de poder escolher o seu caminho levou-o a montanhas que ninguém tinha subido e a escalar por vertentes nunca antes utilizadas. Foi sempre um alpinista livre, que vive dos seus sonhos.

É autor de vários livros em que conta as incríveis experiências na cordilheira dos Himalaias, onde estão as maiores e mais difíceis montanhas, mas também em África, América do Sul e Antártida. A preparar novos lançamentos, faz questão de sublinhar: «Não sou escritor, sou alpinista». Foi nesse papel que falou da sua experiência para a revista VERSA.

Quando é que surgiu o gosto por escalar montanhas?

Foi um processo natural. Em miúdo, era muito ativo e ágil, sempre que via uma árvore tentava subir o mais alto possível. Depois, fui para os escuteiros e tive as primeiras experiências de campo, onde aprendi a ler uma bússola e mapas. Aos 16 anos, fui de bicicleta até à Serra da Estrela, a viagem demorou quatro dias, para fazer escalada em rocha. No ano seguinte, viajei para os Alpes e subi o Monte Branco, com 4.807 metros. Foi bastante difícil porque não tinha experiência de escalar na neve e no gelo. Foi aí que percebi que o alpinismo é um desporto justo, só atinge o topo quem se esforça. E eu tinha-me esforçado muito e consegui chegar ao cimo. Outros, mais experientes e bem equipados, não tiveram essa capacidade de sofrimento. Há certos desportos onde quem tem mais dinheiro ganha, no alpinismo é preciso determinação, bom treino e força de vontade.

Foi nessa altura que percebeu que queria ser alpinista?

Desde muito novo que o alpinismo me dava felicidade. No regresso do Monte Branco senti que tinha deixado de ser um miúdo e tinha passado a ser um deles. Ainda hoje, regresso das minhas aventuras nas montanhas com bons sentimentos, o que para mim significa felicidade pura. 

Como é feita uma expedição às mais altas montanhas?

Cada expedição tem um acampamento base, quase sempre aos 5.000 metros, e mais dois ou três campos em altitude. O último acampamento fica a cerca de 1.000 metros do cume. O último dia é terrível. É um esforço contínuo ir ao cume e voltar ao campo de onde saímos. O ritmo é muito lento e demoramos entre 15 a 18 horas. Quando chegamos lá acima tiramos uma foto ou fazemos um vídeo e descemos. Todos os minutos são importantes por uma questão de segurança. 

O que significa estar no meio do nada a mais de 8.000 metros de altura?

O alpinismo tem o mesmo princípio de outros desportos que é chegar mais alto, mais longe e mais rápido. Estar no cume de uma montanha significa que me esforcei muito para lá chegar. O topo de uma montanha não é um local de vitória, até porque falta a outra metade que é a descida. Quando estou lá em cima levanto um braço ou uma bandeira, mas não faço o ‘V’ de vitória. O local de vitória é quando regresso são e salvo ao campo base.

Escalar uma montanha é muito diferente do que era há 30 anos?

Sem dúvida. Não havia a tecnologia que existe hoje. A ascensão era muito mais difícil e a taxa de sucesso menor, era um tiro no escuro. Até 1999, não tinha telefone satélite. Quando chegava a Katmandu ligava para a família a dizer que estava tudo bem e que voltava a ligar passados 60 dias. A meteorologia era feita por observação e tinha a ajuda de um barómetro analógico. Hoje em dia, com o telefone satélite temos a ‘papinha feita’. Recebo a informação de alguém especializado sobre as condições climatéricas para o dia seguinte, o que reduz o risco e muda tudo em termos psicológicos. Além disso, existem cordas de segurança em todo o percurso, tipo cordão umbilical, usadas pelas expedições comerciais. Quando subi algumas montanhas não havia cordas, era um trapezista sem rede, e a progressão era feita com muito cuidado. Tenho o prazer de ter vivido essas duas fases.

Olhar o Evereste do chão é diferente da vista lá de cima. O que se vê no teto do mundo?

Quando estamos lá em cima a vista é mais ou menos a mesma que temos quando viajamos de avião, é uma vista desafogada. Assistir ao nascer do dia no cimo da montanha é um espetáculo de grande beleza.

Como descreve a sensação de chegar ao topo?

É o ponto mais alto do planeta e um símbolo que toda a gente quer conquistar. Só a autorização para subir ao Evereste custa 10 mil dólares por pessoa! Quando chegamos ao topo estamos muito cansados e aflitos a tentar respirar. A grande dificuldade desta montanha é a altitude extrema, já que tecnicamente não é das mais difíceis. A falta de oxigénio leva a que haja menos discernimento, já tive sintomas de dislexia e disse alguns disparates. 

Quais são as principais características de um bom alpinista?

Tem de ser um bom gestor do risco e encontrar em cada montanha a maneira menos arriscada de subir. Deve estar constantemente a avaliar as situações e ter receio de que alguma coisa corra mal. É graças a isso que calibramos o bom senso e tomamos as melhores decisões. 

Há muita gente a fazer excursões aos Himalaias e a escalar com oxigénio e agarrada às cordas de segurança desde o campo base até ao cume. Isso é batota?

Considero que sim. Aliás, o Comité Olímpico Internacional emitiu um comunicado a dizer que usar oxigénio engarrafado em montanha e em outros desportos deve ser considerado como doping.

Que riscos existem ao escalar as altas montanhas?

Há o risco fisiológico, acima dos 7.500 metros entramos na ‘death zone’ e o organismo pode colapsar a qualquer momento, mesmo a quem fez toda a adaptação à altitude. Como o ar é extremamente seco desidratamos três vezes mais, por isso temos de ingerir muitos líquidos. É fundamental perceber como está a reagir o organismo. Depois, há os riscos inerentes à montanha, nomeadamente a queda de pedras e de blocos de gelo, que pesam toneladas. Mas também sabemos que é mais provável que caiam à tarde devido ao aumento da temperatura ou pelas seis da manhã com os primeiros raios de sol, que provocam uma alteração térmica brusca.

É possível quantificar o sucesso e o insucesso de uma expedição?

A dificuldade de uma montanha está ligada a uma estatística de quantas pessoas morreram ao tentar chegar ao topo. A Annapurna é mais pequena, tem 8.091 metros, mas é das montanhas mais perigosas, porque tem muitos blocos de gelo e glaciares suspensos. É terrível, em termos estatísticos é a que matou mais gente, morreram 4,2 alpinistas por cada dez que atingiram o cume. A K2 tem 8.611 metros e é igualmente perigosa, por cada dez que chegaram ao cimo, dois morreram. O Evereste é a mais alta, com 8.848 metros, e a menos perigosa, a média é inferior a uma morte por dez pessoas que alcançaram o cume.

João Garcia faz parte de um grupo muito restrito de alpinistas que subiram as 14 maiores montanhas do mundo sem oxigénio. Sente-se um recordista?

Esses números dizem-me pouco, mas sei que é um argumento importante quando procuro apoios para uma nova expedição. O que eu gosto é de me desafiar, de resolver os problemas e de regressar bem. Como diz o Cristiano Ronaldo, não ando à procura de recordes, a minha vida é que se encaixa nessas listas. 

Em 1999, chegou ao topo do Evereste. Na descida, perdeu o seu grande amigo Pascal Debrouwer, cujo corpo repousa na vertente norte da ‘Deusa Mãe do Universo’. Como se lida com a tragédia na montanha? 

O alpinismo é uma aventura e o verdadeiro desporto de aventura pressupõe a existência de risco de vida. Habituamo-nos a aceitar esse risco, sabendo que podemos não regressar. 

Já pensou em voltar para casa durante uma expedição?

Sim. Quando vemos pessoas a cair e avalanches a vir na nossa direção é natural querer desistir. Depois, penso naquilo que trabalhei para ali chegar, sinto que estou em boa forma e decido fazer mais um esforço. Se desistir e voltar a essa montanha no ano seguinte estou novamente a correr riscos. 

Quando apanha uma tempestade qual o caminho a seguir?

É dar a meia volta e regressar ao campo base. Já fiquei uma noite na montanha dentro da tenda, foi uma experiência assustadora. Dormi com as botas calçadas e com um canivete na mão para rasgar a tenda se ela voasse com o vento. Foi bastante stressante.   

Escalar grandes montanhas requer uma boa condição física. Que preparação faz antes de uma expedição?

Sou da velha guarda e costumo dizer: ‘Corpo são em mente sã’. Preocupo-me com o componente física e menos com a parte psicológica. Quando estou vários meses a treinar para alcançar um objetivo, no fundo, estou a mentalizar-me para isso. A minha preparação passava por fazer semanalmente 600 km de bicicleta e 80 km de corrida.

Quando está dentro da tenda, num ambiente gélido e com vento forte, consegue descansar?

É muito difícil dormir, mas isso deve-se à falta de ar. Na alta montanha só temos um terço da capacidade de absorver oxigénio, por isso estamos a respirar três vezes mais. 

Como é feita a alimentação? 

No acampamento base fazemos uma alimentação próxima do normal. Quando estamos em altitude alimentamo-nos com rações liofilizadas, nunca é uma comida boa. Isso faz-me perder algum peso e massa muscular. É normal perder um quilo por semana, e há expedições que duram seis semanas.

Há experiências que o marcaram?

A primeira vez que foi ao Nanga Parbat, no Paquistão, fiquei maravilhado com aquele povo. Era gente simples, que vivia da agricultura de subsistência e andava sobre glaciares a carregar o nosso equipamento, com a particularidade de alguns homens levarem uma kalashnikov ao ombro. Não consegui chegar ao cume, mas foi das melhores recordações de superação. Há um vale no Nepal, que dá acesso ao campo base do Evereste, onde há uma diferença incrível. De um lado temos o ambiente próprio das cidades, do outro não há nada, não há casas, não há pessoas, é um vazio. É a montanha no seu estado mais puro. Já acordei com pegadas de um leopardo das neves à volta da tenda. Esse pedaço dos Himalaias é uma grande recordação. Tenho também saudades do Nepal dos anos 90. Conheci famílias que viviam da agricultura e trabalhavam para o turismo na primavera e outono. Com o aumento do turismo perdeu-se o ambiente genuíno das aldeias sherpas. Todos os anos vou ao Nepal confirmar que as opções que tomei na vida continuam corretas.

Depois de anos a escalar as mais altas montanhas do mundo, o que vem a seguir?

Tive a coragem de abraçar um estilo de vida que me permite ter liberdade para organizar o meu calendário. Ter tempo livre é um luxo nos dias de hoje e eu tenho essa disponibilidade. Os anos já pesam, mas todos os anos tento fazer uma montanha. Além disso, organizo viagens a pé pelos trilhos dos Himalaias com clientes, vamos aos 5.600 metros, que é acima do campo base, e ficamos a três quilómetros em linha reta do pico do Evereste. Dou também aulas de alpinismo em Espanha. Não quero ver isto morrer, sou como o agricultor, quero semear para mais tarde ver crescer.