sexta-feira, 06 fev. 2026

25 de novembro de 2025: Einstein e a relatividade geral, 110 anos depois

Einstein utilizou a sua influência e visibilidade e nunca se eximiu das questões sociais e políticas mais complexas, mesmo quando isso lhe trouxe dificuldades pessoais.

A 25 de novembro de 2025 assinalam-se 110 anos sobre o dia em que Albert Einstein apresentou, na Academia das Ciências da Prússia, em Berlim, a versão final da teoria da relatividade geral, um dos avanços mais revolucionários da história da ciência. Essa teoria descreve o infinitamente grande e está na base da cosmologia moderna. Graças à relatividade geral, conseguimos compreender os buracos negros e as estrelas de neutrões, ou detetar as ondas gravitacionais produzidas no espaço-tempo por colisões entre estes objetos astrofísicos extremos.

Einstein sabia que David Hilbert, um dos mais extraordinários matemáticos da história, estava também a trabalhar numa generalização das leis da gravidade. Desde 1913, e pressionado pelos avanços de outros cientistas, Einstein vinha a publicar sucessivos artigos com os seus esforços em direção à nova teoria da relatividade geral. Na apresentação final da teoria em Berlim, recuperou equações que já tinha derivado em 1912, mas que entretanto abandonara por causa de um erro de cálculo. Esse erro tinha-o impedido, na altura, de recuperar a teoria da gravitação de Newton para campos gravíticos fracos. “E assim, a teoria da relatividade geral, como construção lógica, está completa” concluiu Einstein a 25 de novembro de 1915. Os seus colegas não ficaram particularmente impressionados, mas Einstein afirmou que “era a descoberta mais importante da sua vida”. A história da Física deu-lhe razão e nesse dia estabeleceu-se um dos pilares centrais da física contemporânea.

O “Einstein Papers Project” (https://www.einstein.caltech.edu) suscitou em novembro de 2025 a oportunidade para celebrarmos os 110 anos da relatividade geral assim como as mais importantes contribuições de Einstein. Os editores científicos deste projeto acabam de publicar “The Essential Einstein Scientific Writings” e “The Essential Einstein Public Writings” na Princeton University Press. Estas coletâneas selecionam, entre os mais de trinta volumes que o “Einstein Papers Project” planeia publicar, alguns dos documentos científicos e das intervenções públicas mais importantes de Albert Einstein. Estas novas edições em 2025 mostram, lado a lado, o Einstein cientista e o Einstein cidadão do mundo.

É particularmente notável que estas duas vertentes do pensamento de Einstein sejam publicadas em simultâneo, explorando em paralelo, e com igual relevância, as suas dimensões científica e humanista, permitindo-nos redescobrir uma figura incontornável do séc. XX. O volume dos textos científicos demonstra a grandeza incomensurável das contribuições científicas de Einstein; o volume das suas intervenções públicas é igualmente impressionante e demonstra o mesmo calibre intelectual.

Muitas das intervenções públicas de Einstein são bem conhecidas: a sua oposição ao regime nazi, as suas posições sobre a guerra e a carta ao Presidente Franklin D. Roosevelt sobre o potencial desenvolvimento da bomba atómica. Os seus debates com pensadores como Bertrand Russel, Sigmund Freud ou Henri Bergson são menos conhecidos. As suas reflexões sobre a relação entre a ciência e a religião, a sua admiração por Espinoza, as suas posições sobre a discriminação racial, o estado de Israel e as impressões sobre as suas viagens fazem parte também desta coletânea. Todos os textos revelam uma personalidade atenta, fortemente envolvida e presente nos grandes debates do seu tempo, em contraste com a imagem estereotipada do cientista alheado da realidade muitas vezes associada a Einstein.

Os textos de Einstein continuam atuais em muitos temas, por exemplo, na sua reflexão sobre os primórdios da Liga das Nações, precursora da Organização das Nações Unidas (“With trust, one attracts trust, and without trust, fruitful cooperation is not at all possible”) ou na ideia e no papel da Europa como espaço cultural e intelectual único e singular.

Todos os textos são atravessados por uma ideia forte de liberdade e por um profundo humanismo, equilibrando idealismo com um realismo perspicaz e pragmático, temperados por um profundo conhecimento sobre o papel e o impacto da ciência na sociedade. A coletânea é também exemplar sobre o papel e a presença dos cientistas nos debates que afetam a nossa sociedade (também evidentes em “Albert Einstein-Max Born: Correspondência 1916 -1955”, excelente edição portuguesa da Imprensa da Universidade de Lisboa).

Einstein utilizou a sua influência e visibilidade e nunca se eximiu das questões sociais e políticas mais complexas, mesmo quando isso lhe trouxe dificuldades pessoais. Assumiu-se como defensor permanente e intransigente da liberdade e da ciência. As suas contribuições científicas são extraordinárias; o dia 25 de novembro de 2025 e estas novas coletâneas são, por isso, uma oportunidade única para celebrarmos não só o cientista, mas também o intelectual, cujas intervenções públicas sobre as dimensões sociais e políticas do seu tempo se mantêm atuais, fundamentais e exemplares.

Luís Oliveira e Silva
Professor do Instituto Superior Técnico

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