Em 2026 celebram-se os 50 anos da aprovação da Constituição, em 2 de abril, das primeiras eleições legislativas, em 25 de abril, e da eleição presidencial, em 27 de junho – e só aí se fecha o ciclo iniciado a 25 de Abril de 1974. «A primavera de 1976 encerrou a fase revolucionária e permitiu a institucionalização da democracia portuguesa», escreve Maria Inácia Rezola em Revolução (D. Quixote), um livro-síntese dos acontecimentos decisivos entre julho de 1973 e julho de 1976, quando o general António Ramalho Eanes é empossado Presidente da República.
A menos de dois meses das Presidenciais de 2026, celebram-se os 50 anos de um divisivo 25 de Novembro. O Governo criou uma comissão para um conjunto de comemorações que se confundem com as do 25 de Abril e determinou que as cerimónias do 25 de Novembro decorram no Parlamento, tal como as de 25 de Abril.
O primeiro Presidente eleito em democracia estará presente, nas bancadas, como tem estado nas cerimónias do 25 de Abril. Sobre a data, Ramalho Eanes afirmou recentemente que, sem esse dia, não teria sido possível consolidar a democracia liberal e a Constituição de 1976, mas não considera que o 25 de Novembro tenha o mesmo sentido histórico do 25 de Abril, também porque foi um acontecimento fraturante que dividiu os portugueses.
O PS não integra a comissão governamental e preparou um roteiro paralelo de comemorações para a noite de 25, na sede do partido, no Rato, por considerar que a comissão pretende reescrever a história e omitir o papel central de Mário Soares e do PS – «o grande vencedor civil» – e do ‘Grupo dos Nove’, os moderados, que teve em Ramalho Eanes o operacional de um «golpe defensivo».
O PCP, percecionado como o grande derrotado do 25 de Novembro, anunciou que não estará presente na cerimónia. António Filipe, candidato do partido às Presidenciais de 2026, afirmou esta semana que a sessão comemorativa do 25 de Novembro é claramente contra o 25 de Abril e considera que se trata de uma tentativa «para reescrever a história» e «menorizar o 25 de Abril».
António José Seguro, o candidato apoiado pelo PS – mas não o candidato do PS –, disse que o 25 de Novembro deve ser comemorado, mas não colocado no mesmo patamar do 25 de Abril. E, mais do que isso, criticou os que usam o 25 de Novembro contra o 25 de Abril, defendendo que as comemorações deviam servir para unir o país e não para dividir os portugueses.
Luís Marques Mendes, candidato do PSD, afirmou que o 25 de Abril e o 25 de Novembro são datas igualmente importantes para a democracia portuguesa, embora não estejam no mesmo plano. Sublinhou que o 25 de Abril é a data fundadora da democracia e não é substituível por qualquer outra, acrescentando, de imediato, que o 25 de Novembro foi importante porque impediu que Portugal saísse de uma ditadura para entrar noutra, «devolvendo a pureza dos princípios democráticos» do 25 de Abril.
Henrique Gouveia e Melo declarou-se «um homem do 25 de Novembro», considerando-o uma data decisiva que impediu Portugal de cair numa ditadura de esquerda. Se o 25 de Abril é uma data fundamental, que marcou o fim do regime autoritário, o 25 de Novembro foi a correção necessária ao momento de euforia revolucionária.
Cotrim de Figueiredo, candidato da Iniciativa Liberal, também valoriza o 25 de Novembro. Catarina Martins, candidata do BE, relativiza o valor histórico da data, mas recusa ter alguma vez «excomungado» o 25 de Novembro. André Ventura, líder do Chega e candidato presidencial, defende que o 25 de Novembro «foi o verdadeiro ‘dia da liberdade’ em Portugal, quando o país estava a ser ameaçado por uma ditadura comunista e uma guerra civil».
‘Quantos 25 de Novembro existiram?’
«O 25 de Novembro permanece como um dos episódios mais enigmáticos da Revolução portuguesa. Os próprios protagonistas reconhecem sentir-se ultrapassados pelos acontecimentos, sem explicação cabal para o que aconteceu», escreve Rezola em Revolução.
O ano de 1975 decorreu, em Portugal, num clima de ‘psicose golpista’, com golpes potencialmente vindos tanto da direita como da esquerda, e com as Forças Armadas mergulhadas no caos, entre a indefinição programática e a crescente fragmentação. O 25 de Novembro pôs termo a esse clima, mas a normalização da democracia viria depois.
Na altura, o socialista Sottomayor Cardia disse, na Assembleia Constituinte, que «o país mítico do esquerdismo alucinado» chegara ao fim. Antes disso – e mais relevante ainda –, a 6 de novembro, na RTP, Mário Soares e Álvaro Cunhal debateram durante cerca de quatro horas, deixando claro o essencial: duas visões radicalmente distintas do futuro do país. A certa altura, Soares acusa Cunhal e o PCP de tentarem estabelecer uma ditadura comunista em Portugal, e Cunhal responde: «Olhe que não, olhe que não!».
Maria Inácia Rezola, que trabalha este tema há anos, liga os acontecimentos à palavra ‘revolução’, um princípio e um fim de um processo que começou antes do 25 de Abril, terminou para além do 25 de Novembro e teve sempre os militares no âmago da ação. Foram eles que fizeram o 25 de Abril, foram eles que provocaram e resolveram os golpes e contragolpes de 25 de Novembro, com os partidos políticos associados a várias fações militares – mas sempre os militares no centro.
A historiadora questiona: «Houve ou não tentativa de golpe de Estado? Quem deu a ordem de saída? Quantos planos militares coexistiram? Foi golpe, contragolpe ou provocação?». Para acrescentar que o ‘problema’ do 25 de Novembro continua em aberto, com vencedores e vencidos a confundirem-se nas diferentes versões.
Na próxima semana, na Assembleia da República, prevê-se que os discursos – e assinale-se novamente a ausência do PCP – reflitam as diferentes leituras do 25 de Novembro. Como explicava recentemente o historiador António Costa Pinto, «as democracias vão ao passado para debater o presente», e o 25 de Novembro dá forma e conteúdo à atual maioria de direita, que também foi derrotada no 25 de Novembro – o que parece ser um detalhe.
Os historiadores concordam que os vencedores mais consensuais são Soares e o PS, e os moderados do Grupo dos Nove. E é essa a linha da evocação socialista, na próxima terça-feira à noite, no Rato, para a qual estão convidados a família de Mário Soares e todos os antigos secretários-gerais do partido com cartão de militante: Ferro Rodrigues, Vítor Constâncio, António José Seguro e Pedro Nuno Santos – Guterres e Costa ficam de fora por razões óbvias, e Sócrates deixou de ser militante. Mas não é seguro que o candidato presidencial e antigo líder apareça.
Acontecimentos entre 25 de abril de 1974 e 25 de novembro de 1975
1974
25 de Abril – Revolução dos Cravos
Golpe militar conduzido por oficiais intermédios — maioritariamente capitães — derruba em 24 horas uma ditadura de quase 40 anos. O poder é entregue à Junta de Salvação Nacional, liderada pelo general António de Spínola
1 de Maio
Primeiro 1 de Maio em liberdade, com manifestações massivas em todo o país
16 de Maio
Posse do I Governo Provisório, chefiado por Adelino da Palma Carlos, com ministros do PCP, PS, PPD, CDE e independentes (demite-se a 11 de julho)
8 de Julho
Criado o Comando Operacional do Continente (COPCON), entregue a Otelo Saraiva de Carvalho
28 de Setembro
Demissão do II Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves (empossado em 17 de julho)
30 de Setembro
António de Spínola renuncia à Presidência, num contexto de forte tensão com o MFA, que se aproxima da esquerda e extrema-esquerda. Nesse mesmo dia, Costa Gomes assume a Presidência da República numa cerimónia discreta. É empossado o III Governo Provisório, liderado por Vasco Gonçalves, composto por militares, independentes e membros dos partidos. Álvaro Cunhal mantém-se como ministro sem pasta e Mário Soares como ministro dos Negócios Estrangeiros (demite-se a 26 de março de 1975)
1975
Janeiro
Comício no Pavilhão dos Desportos: ‘Unidade, sim; unicidade, não’
11 de Março – Intentona? ‘Inventona’?
Tentativa de golpe liderada por Spínola fracassa. O PREC acelera: nacionalizações massivas (bancos, seguros, grandes empresas); controlo operário; ocupação de terras no Alentejo, início da Reforma Agrária
13 de Março
Dissolução do Conselho de Estado e criação do Conselho da Revolução
26 de Março
Posse do IV Governo Provisório, continuando Vasco Gonçalves como primeiro-ministro. Álvaro Cunhal e Mário Soares mantêm-se no Governo. Joaquim Magalhães Mota (ministro sem pasta) e Jorge Sá Borges (Assuntos Sociais), ambos do PPD, integram o Executivo
25 de Abril – Eleições para a Assembleia Constituinte
Primeiras eleições livres em 50 anos:
• PS — 37,9%
• PPD/PSD — 26,39%
• PCP — 12,46%
• CDS — 7,61%
Reforço da legitimidade democrática
1 de Maio
Rutura entre Álvaro Cunhal e Mário Soares, clivagem PS–PCP após as eleições.
Maio – ‘Caso República’
Conflito político-editorial envolvendo o jornal República, que expõe e agrava a crise PS–PCP
Julho – ‘Verão Quente’
Rutura interna no MFA:
• Otelistas (COPCON / esquerda revolucionária),
• Gonçalvistas,
• Melo-antunistas (moderados ou Grupo dos Nove).
Multiplicam-se manifestações, ocupações e ações de extrema-esquerda. A violência política aumenta
8 de Julho
A AFM aprova o Documento-Guia da Aliança Povo–MFA, com forte orientação socialista
8 de Agosto
Posse do V Governo Provisório, novamente com Vasco Gonçalves como primeiro-ministro. Soares e Cunhal ficam de fora. O Executivo é apelidado de ‘o mais provisório dos governos provisórios’
5 de Setembro – ‘Todos a Tancos’
Os moderados do Grupo dos Nove ganham espaço.
É criado novo Conselho da Revolução
9 de Setembro
Posse do VI Governo Provisório, liderado pelo almirante Pinheiro de Azevedo.
PS, PPD e PCP integram o Governo. Melo Antunes assume os Negócios Estrangeiros
30 de Setembro
PS e PPD realizam gigantesca manifestação de apoio ao VI Governo Provisório
6 de Novembro
Debate televisivo histórico entre Álvaro Cunhal e Mário Soares.
Soares sublinha a via eleitoral; Cunhal defende a herança revolucionária do MFA.
O 25 de Novembro está ao virar da esquina...
25 de Novembro — Golpe? Contra-golpe?
Confronto decisivo entre militares da esquerda radical e forças moderadas.
O papel do general Ramalho Eanes e dos moderados, a intervenção de Jaime Neves e dos Comandos, o desaparecimento oportuno de Otelo, o silêncio estratégico do PCP, a invervenção do general Costa Gomes a partir do Palácio de Belém. O processo conduz ao fim do PREC e ao regresso à ‘pureza do 25 de Abril’, definindo claramente o caminho para uma democracia pluralista.