A civilização ocidental está em perigo e enfrentando desafios como nunca enfrentou na sua História. Os três pilares básicos em que a civilização assenta estão sob forte ataque e em risco de ruir. Importa entender que pilares são esses e como estão a ser atacados. São eles a civilização grega, que nos legou o espírito científico, o modelo do raciocínio lógico e uma conceção trágica da vida; a civilização romana, que deu continuidade à herança grega e lhe acrescentou o génio administrativo, o talento da organização e o rigor de um ordenamento jurídico sem par ao tempo. Finalmente, o cristianismo, que nos trouxe um respeito, sem concessões, pelos valores da vida e da liberdade responsável do Homem.
Esta sucessão de culturas que se foram entrosando harmonicamente umas nas outras e esta conjugação de valores que entre si se potenciaram constituíram-se como a matriz da civilização ocidental e a essa matriz deveu essa civilização o seu esplendor ímpar. Grécia, Roma, Cristandade formataram, primeiro, a Europa e depois da passagem do mediterrâneo para o Atlântico e deste para os restantes oceanos da Europa nasceu o Ocidente, essa Europa alargada aos novos mundos que aceitaram e desenvolveram essa matriz europeia. O Ocidente é uma Europa alargada comungando dos mesmos valores, do mesmo ethos e da mesma mundividência. É, ou era, mas já lá chegaremos.
Comecei por dizer que essa civilização está em perigo porque os seus três pilares se encontram sob ataque cerrado. Ataque cerrado daquilo a que, por mera comodidade, aqui chamarei de wokismo.
No que respeita ao pilar grego, ou seja, o espírito científico, o modelo do raciocínio lógico e a incessante procura da verdade o wokismo opõe o seu relativismo científico negando os factos, a objetividade das leis científicas, a validade intrínseca do raciocínio lógico e a negação da verdade como um valor absoluto. A biologia é uma construção cultural, a matemática é hétero-patriarcal, a lógica é mero fruto venenoso de uma masculinidade tóxica e os factos, esses, coitados, são fascistas. Fascistas os factos, entenda-se porque eles permanentemente invalidam as teses alucinantes e alucinadas dessa gente.
Quanto ao pilar romano, o do génio administrativo, do talento da organização e do rigor do Direito o wokismo responde com a promoção da desordem permanente, a desconstrução de tudo o que seja passível de ser desconstruído e o desprezo pelo Direito, por eles utilizado como mero instrumento de perseguição dos inimigos políticos. Porque a Justiça, como um valor intrínseco que manda dar a cada um o que lhe é devido, é, ela também, fascista.
Terceiro pilar, o cristão, o dos essenciais conceitos do valor da vida e da liberdade do homem. No que respeita à vida, o wokismo responde com o aborto e a eutanásia. Um aborto cada vez mais tardio no tempo de gestação e uma eutanásia com motivos sucessivamente mais alargados e insignificantes para a sua justificação. O que importa é atacar a vida no seu início, cada vez mais tarde, e no seu fim, cada vez mais cedo. Porque o alvo é a vida como tal. Quanto à liberdade, preparam-nos um universo concentracionário e fechado, onde todos seremos vigiados, teleguiados e anulados como donos de nós próprios e das nossas coisas.
Estruturada nas escolas e nas universidades, martelada pelo mundo ‘da cultura’ e propagandeada pelos media tradicionais, esta vaga de fundo, vaga de lama, ameaça submergir o Ocidente. Ou pelo menos, um dos ocidentes. Porque neste momento temos dois. Como veremos na próxima semana.