Registou-se uma chuva de estrelas no Palácio Apostólico do Vaticano. Bem, não literalmente, trata-se de ‘estrelas’ incontornáveis do universo de Hollywood, recebidas pelo Papa Leão XIV. Entre os convidados estiveram Cate Blanchett, Spike Lee, Leslie Mann, Viggo Mortensen, George Miller, Monica Bellucci, Gus Van Sant e Abel Ferrara, num encontro que uniu fé, arte e diálogo cultural. O momento ocorreu no âmbito do Jubileu da Igreja Católica, celebrado de 25 em 25 anos e promovido pelo Dicastério para a Cultura e Educação (Santa Sé), que tem como prefeito o português D. José Tolentino Mendonça, também presente no evento.
Leão XIV, nascido em Chicago, nos EUA, deu as boas-vindas a figuras conhecidas do mundo do cinema mundial, para sentar à mesma mesa a Igreja e a Sétima Arte. Discutiu-se, então, de que forma o talento dos cineastas pode ser uma mais-valia para a Humanidade, bem como o atual estado desta indústria.
«As salas de cinema estão a sofrer por uma erosão preocupante que as está a retirar das cidades e bairros. E não são poucos os que dizem que a arte do cinema e a experiência cinematográfica estão em perigo. Convido as instituições a não se resignarem e a cooperarem para afirmar o valor social e cultural dessa atividade», afirmou o Papa.
Leão XIV, citado pela agência Ecclesia, admitiu sentir-se «confortado» ao «pensar que o cinema não é apenas movimento de imagens». «É colocar a esperança em movimento. Entrar numa sala de cinema é como atravessar um limiar, na escuridão e no silêncio. O olhar volta a ficar atento, o coração deixa-se alcançar, a mente abre-se para o que ainda não tinha imaginado», rematou.
Os filmes favoritos de Leão XIV
Antes da reunião, o Papa, que é o primeiro norte-americano a alcançar a liderança da Igreja Católica, revelou aos jornalistas quatro dos seus filmes favoritos: Do Céu Caiu uma Estrela (It’s a Wonderful Life) (1946), de Frank Capra, Música no Coração (The Sound of Music) (1965), de Robert Wise, Gente Comum (Ordinary People) (1980), de Robert Redford e A Vida é Bela (Life Is Beautiful) (1997), de Roberto Benigni.
Esta ‘ponte’ Hollywood-Vaticano é mais do que um mero encontro com estrelas de cinema. É um sinal que a Igreja Católica quer mostrar-se aberta ao diálogo com o mundo que a rodeia, reconhecendo que o cinema é uma arte que também pode ter um papel muito alto e muito importante na sociedade. O Papa Leão XIV já mostrou previamente que quer cultivar laços também com o mundo das artes, ao ponto de ter já recebido grandes nomes do cinema, referindo apenas a título de exemplo Al Pacino e Robert De Niro.
No encontro com estrelas da Sétima Arte, o Pontífice deixou um desafio aos profissionais deste setor: «O grande cinema não explora a dor, acompanha-a, investiga-a. Foi isto que todos os grandes diretores fizeram. Dar voz aos sentimentos complexos, contraditórios, às vezes obscuros que habitam o coração do ser humano é um ato de amor».
Depois do seu discurso, o líder da Igreja Católica teve encontros individuais com os convidados, alguns dos quais lhe trouxeram obséquios. Foi o caso, por exemplo, de Spike Lee, aclamado cineasta norte-americano, que aproveitou a ocasião para dar um presente caricato ao Papa: uma camisola dos Knicks, uma das equipas de basquetebol de Nova Iorque, com o número 14 nas costas, em referência ao facto de ser o décimo quarto Papa a adotar o nome ‘Leão’.
Já a atriz australiana Cate Blanchett entregou a Leão XIV uma pulseira azul, simbólica e solidária com os refugiados pelo mundo inteiro.
Cinema e Religião
Além deste Pontífice, outros Papas já receberam estrelas de Hollywood ou figuras ligadas ao mundo do cinema no passado, demonstrando um interesse contínuo da Igreja Católica em dialogar com o mundo das artes e da cultura popular.
O Papa Francisco, por exemplo, recebeu vários atores e profissionais do cinema de renome internacional, entre eles Leonardo DiCaprio, George Clooney, Roberto Benigni, Silvester Stallone e Whoopi Goldberg, mas também promoveu eventos com figuras do mundo da cultura e do humor. Em junho de 2024, organizou um encontro no Vaticano com comediantes internacionais, incluindo Conan O’Brien, Stephen Colbert e Jimmy Fallon, para além dos portugueses Ricardo Araújo Pereira, Joana Marques e Maria Rueff. O objetivo foi promover o riso e a alegria como valores universais, mostrando que a Igreja valoriza diferentes formas de expressão artística.
Já João Paulo II, por exemplo, foi um dos pontífices mais abertos ao diálogo com artistas e celebridades. Recebeu, entre outros, o ator Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus no filme ‘A Paixão de Cristo’, em 2004, durante a estreia do filme. O encontro foi marcado por uma conversa sobre a preparação do papel e o impacto espiritual do filme, sendo um momento simbólico entre cinema e religião.
Mas a lista de celebridades que João Paulo II recebeu não se fica por aí, o pontífice polaco também se encontrou com o cantor Bob Dylan, em 1997, durante um Congresso Eucarístico em Bolonha, Itália. O evento reuniu cerca de 300 mil jovens e foi marcado pela presença de Dylan, que tem raízes judaicas, e que cantou para o Papa. O encontro foi histórico e mostrou a abertura da Igreja a diferentes expressões artísticas e religiosas.
João Paulo II também escreveu uma carta aos artistas em 1999, reconhecendo o papel dos criadores na promoção da beleza e dos valores humanos.
Além desses exemplos, o Vaticano tem promovido encontros com artistas contemporâneos, incluindo pintores, escultores e cineastas, em eventos como visitas à Capela Sistina e exposições de arte moderna nos Museus do Vaticano. Esses encontros reforçam a tradição de diálogo entre a Igreja e o universo artístico, que remonta a séculos, mas que ganhou novos contornos com a presença de celebridades do cinema e da música.