terça-feira, 10 fev. 2026

O Almirante que fica (quase) sempre a meio da ponte

Em alguns casos, Gouveia e Melo, parece estar com um pé em cada margem. Muitos atribuirão isto ao facto de não ser um político; outros, os mais fervorosos apoiantes do Almirante, dirão que a culpa é dos jornalistas...

Há menos de um ano, Henrique Gouveia e Melo parecia um candidato imbatível. Mesmo os que não gostavam particularmente da ideia de ver um ex-militar na Presidência da República reconheciam que seria muito difícil batê-lo em eleições. A imagem de um homem sério, com autoridade, sem rabos de palha e desligado dos partidos políticos parecia dar ao Almirante uma grande vantagem competitiva. Dependendo dos adversários que se lhe atravessassem no caminho, talvez nem fosse preciso ir a uma segunda volta. 

Até a falta de experiência política que alguns lhe apontavam parecia ser vista pelos eleitores consultados nas sondagens como uma qualidade – e não como defeito. O país parecia farto dos políticos do ‘sistema’, e o ar austero e reservado com que se apresentava em público fazia o contraste perfeito com 10 anos de Marcelo show. Os elogios e os apoios públicos foram surgindo com naturalidade. Vindos de todos os cantos da sociedade. Empresários, autarcas, maçonaria, de distintos militantes do PSD e do PS, e até André Ventura, imagine-se, chegou a admitir apoiar o Almirante. 

Até que Henrique Gouveia e Melo começou a falar. Primeiro foram uns artigos de opinião, depois umas conferências, algumas entrevistas esporádicas, antes de anunciar finalmente a sua candidatura em plena campanha para as legislativas. E foi a partir daqui que tudo mudou. 

A entrevista que Gouveia e Melo deu ao Observador esta semana é um bom retrato político do candidato e explica, em grande medida, a queda que tem vindo a sofrer nas sondagens. E não tem tanto a ver com a forma, com o facto de se continuar a irritar com as perguntas dos jornalistas ou com o modo como comunica. Tem a ver com o conteúdo. Vejam-se alguns exemplos. 

Na entrevista que deu para um livro sobre si próprio, Gouveia e Melo acusou o Governo de querer que ele «ficasse amarrado à Marinha». Agora, quando lhe perguntam se Luís Montenegro quis evitar a sua candidatura presidencial, Gouveia e Melo responde que «era uma impressão que tinha» e continua a ter, que «é sempre subjetiva» – e acaba a sacudir o tema pedindo que a pergunta seja «feita a outros atores». 

No mesmo livro, Gouveia e Melo diz que o Governo «não tem a mínima ideia» do que quer para a Defesa. Os jornalistas perguntam agora – e bem – se Nuno Melo, o atual titular da pasta, não faz ideia do que quer, e a resposta é: «Não podemos reduzir isto a um único ministro». Não? Então está a falar de quem? Perante a insistência dos entrevistadores, irrita-se, diz que não vai entrar nessa polémica (que ele próprio criou) e ainda acusa os jornalistas de estarem a «tentar fazer polémica com isso».  

Os exemplos continuam. Quando perguntado sobre que modelo de Presidente da República tinha, Henrique Gouveia e Melo respondeu Mário Soares, numa declaração que foi interpretada por muitos analistas como um piscar de olho ao eleitorado do PS. Agora, sobre o mesmo Mário Soares, o candidato responde que «há uma ideia errada» do que disse. Aprecia Mário Soares, mas também aprecia Ramalho Eanes. Que, no caso de Mário Soares, considera que ele fez um «primeiro mandato melhor que o segundo», no qual já «passou para além do que seriam as suas funções normais enquanto Presidente», mas que na realidade quase todos «os segundos mandatos correm menos bem». 

Quererá isto dizer que, se for eleito Presidente, Gouveia e Melo admite só fazer um mandato? – perguntam os jornalistas. «É uma análise» que ainda vai fazer, responde. Mas admite? «Sim, admito», mas: «Não estou a dizer que só quero fazer um mandato, depende da análise que fizer na altura».

O espaço desta coluna não me permite continuar a dar exemplos de como, em várias matérias, Henrique Gouveia e Melo parece sempre que vai atravessar a ponte, mas acaba quase sempre por ficar a meio. Ou, em alguns casos, com um pé em cada margem. Muitos atribuirão isto ao facto de não ser um político; outros, os mais fervorosos apoiantes do Almirante, dirão que a culpa é dos jornalistas. Mas, por mais voltas que se queiram dar, há um facto indesmentível: quando a mensagem não chega com clareza, dificilmente o problema é do recetor. Ou é do emissor ou é um problema da própria mensagem.O Almirante que fica (quase) sempre a meio da ponte