Para onde foste? Para onde levaste esta enormidade de mim que eras tu? Sobre ti não escrevo: sinto. Sinto o vazio e a mágoa, sinto a injustiça e a crueldade, sinto uma dor tão profunda que já nem dor é e apenas uma forma de, neste momento, não querer a vida. Irmão, companheiro, confidente, camarada, filho dos meus pais, repartidor dos nossos filhos e netos. Pedi-te: não me faltes! E, para meu bem, mentiste-me nesse teu jeito de me proteger porque foste sempre a força tranquila das minhas repetidas fraquezas. Mas eu sabia. Cheiro a morte à distância. Sempre cheirei a maldade à distância.
E, contudo, deixa-me dizer-te, parecia um dia normal, esse. No momento em que me levantei havia uma fragrância de sol em arestas pela transparência da janela mesmo antes do estalo bruto dos trovões. Talvez esperança, não sei. Parecia um dia normal mas logo em seguida já não. Houve um sentimento ou um pressentimento. Qualquer coisa impossível de explicar e de exprimir. Assim como se a luz se apagasse sobre Lisboa e Tejo e tudo. Água escorreu pela vidraça da janela. Água escorreu pela vidraça dos meus olhos. Choveu como se o céu doesse. E dói. Dói-me tanto, mas tanto por dentro e a dor fez esquecer as coisas todas. O dia ficou para sempre fechado nos labirintos de mim mesmo. Um pássaro de repente e nada mais.
Sou uma pessoa de paixões e adorações mas nunca fui de exaltações e arrebatamentos. Tenho uma admiração e uma devoção por ti que ultrapassaram a nossa própria realidade porque fomos tão intimamente um só que dispensávamos palavras. No meio daqueles teus gestos de brusquidão que escondiam uma doçura que brilhava nos teus olhos via-te inteiro por dentro. E agora José? Que será de mim? Que será de nós todos para quem eras um lugar de segurança firme e absoluta? Onde podemos voltar a frequentar a tua inatacável nobreza?
Adivinhei a tua morte e fugi dela. Guiando cada vez mais devagar como se tivesse medo de chegar a casa. E que casa é a minha, perdido que fiquei sem saber onde pousar? Busquei o oco da noite de Alcácer porque é talvez o lugar que tem menos de ti se é que há um eu sem ti. Debrucei-me na varanda sobre o Sado com vontade que a chuva me lavasse da enormidade devastadora da tua ausência. Sinto frio. Frio por dentro. Desculpa-me por não me despedir de ti. Não consigo. Sabes que não consigo. Mas prometo-te que continuarei firme dentro das nossas convicções e serei sempre apenas para nós o menino sem sombra que se recusou a crescer como Peter Pan. Pode ser que nos reencontremos. Ou não, se não for essa a vontade estúpida e incompreensível da morte, mas nunca nada nos libertará da nossa união para além da memória. Esperarei pelo teu abraço gigante de carinho, à maneira do poeta, humilde e retirado como quem põe na porta o saco para o pão…
Ambicionámos o mundo. Fomos aos confins da Sibéria e da Mongólia, percorremos as estradas do Gana, do Benim e do Togo, viajámos até às profundezas da Etiópia, corremos por África até Timbuktu. Escalámos as montanhas da Índia e do Nepal e bebemos sofregamente à sombra dos coqueiros em Colva, a nossa praia de Goa. Nunca tivemos limites. Brilhou em nós a estrela chamada Absinto do Apocalipse quando o terceiro anjo soprou a sua trombeta. Combinámos fazer um embargo à morte. Todos os demónios estão aqui. Escreveste um livro de poemas quase envergonhado, sublinhaste a eterna verdade de que a tristeza não está nas coisas, está em nós. A esperança de cinco pontas ardeu no nosso peito. Nesta terra infirma, neste abismo de mar, na cornucópia dos nossos excessos, éramos tudo-ao-mesmo-tempo. Caminhámos suavemente a passo e passo porque caminhávamos sobre os nossos sonhos. «E o sol, à maneira antiga, ressoou no concurso melodioso dos astros fraternais».
Vejo-te a meu lado enquanto martelo letras magoadas, exactamente no lugar onde ficam as lembranças das madrugadas que arrastávamos nos Olivais. Tenho a certeza de que não és tu, de que não podes ser tu, mas continuo a ver-te e o teu olhar prende-se ao que sinto como um remorso. A tua figura primaveril e suave, cavalheiro das emoções disfarçadas, uma sensação simples de que vida é para sempre. Mas não.
«És eternamente responsável por aqueles que cativas», dizia a Raposa ao Pequeno Príncipe. Apareces ao lusco-fusco lentamente na minha direcção, és a miragem mais firme que a minha imaginação foi capaz de inventar. O Tejo consumiu a luz, as estrelas vão chegando, uma a uma. O sorriso moreno dos teus olhos. Apagado. Vejo neles que não sabes o que dizer, o que fazer. Faço-o eu. Por mais que custe.
Digo: até breve meu irmão. E desvaneces-te devagarinho por entre o bulício da cidade inquieta.
Uso as palavras do Torga: «Tanto me apetecia agora ser alguém que se deitasse no banco mais comprido que vagasse e pudesse dormir». Queria dormir um sono de reencontros, plano como um nada. Um sono tranquilo de coisas antigas, tão antigas. Logo à noite, uma brisa e, pelo meio do movimento das cortinas do meu quarto, a visão possessiva desse nós em um que deveria ter sido dona da imensidão dos universos. Acordo em sobressalto. Olho em volta: eu bem sabia que não podias ser tu. E ainda assim as pedras batem-me na persiana anunciando a tua chegada.
E agora, Zé, meu tão, tão querido Zé? Um silêncio triste de resposta vem do lado de fora da janela.
Um infinito rodar universal. Amanhã virá outro dia, eu bem sei, mas amanhã também é tão longe apesar de ser já amanhã. Devagarinho, o sol apaga-se, as sombras alongam-se, a cidade arrefece e eu não sei se sinto um arrepio de frio ou de destino.
Quando chegar ligo-te.
Boa noite meu doce príncipe.