segunda-feira, 09 fev. 2026

‘Complexo Brasil’ arrasa Portugal na Gulbenkian

A culpa portuguesa e os efeitos da colonização no presente brasileiro regressam sob a forma de exposição em tom acusatório. Um encontro há uma semana com o curador José Miguel Wisnik permitiu ouvi-lo sobre as mais que previsíveis críticas que haveriam de chover nos dias seguintes
‘Complexo Brasil’ arrasa Portugal na Gulbenkian

Uma exposição organizada por intelectuais brasileiros e exibida em Lisboa em 2025 escolhe o colonialismo como tema central. Porquê? Não há outros laços possíveis entre o Brasil e o seu passado e entre portugueses e brasileiros?

Porque é que a exposição tem de incluir num texto do respetivo catálogo a reescrita de Fernando Pessoa, sugerindo que a versão correta de dois dos seus mais famosos versos é, afinal, «Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São lágrimas dos escravizados», e acrescentar, como nesse mesmo catálogo faz o curador-adjunto Guilherme Wisnik, que Pessoa «é dos maiores poetas do século XX» mas «cumpre encarar o ranço escravista e racista latente em sua decantação apologética da magnitude imperial portuguesa, mesmo que sem reduzi-lo a isso»?

Porquê o arsenal retórico do tribalismo identitário e do politicamente correto? Porquê o ajuste de contas com o passado? Será que o ressentimento de certas causas fraturantes, aparentemente refletido na exposição, busca apenas dar nas vistas através de palavras e opiniões populistas, para assim obter amplificação através dos que o aplaudem ou reprovam?

Algumas destas perguntas têm surgido na imprensa em reação a Complexo Brasil, a exposição de que vimos falando, inaugurada no dia 14 no edifício-sede da Fundação Calouste Gulbenkian e que se prolonga até 17 de fevereiro.

Há uma semana, na véspera da inauguração, o curador principal, José Miguel Wisnik, conduziu um grupo de jornalistas numa visita guiada.

No fim, perante a previsível a barragem de críticas que aí viria, o Nascer do SOL perguntou-lhe se esta é uma proposta revisionista.

No improviso apressado de se explicar de pé e por poucos minutos, como sempre acontece nestas ocasiões, o curador disse o que lido agora tem valor de resposta aos que têm deplorado a exposição, a qual grosso modo arrasa Portugal sob o pretexto de falar do Brasil colónia, que já não o é, de Portugal, há coisa de dois séculos e três anos.

José Miguel Wisnik, de 77 anos, professor, músico e escritor, doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada, duas vezes Prémio Jabuti, ouviu com serenidade a palavra «revisionista», como se já a esperasse. E disse de sua justiça: «A exposição traz à tona uma discussão que no Brasil tem havido. Traz à tona o que passa por encoberto, é um desencobrimento de aspectos estruturais do Brasil, que são silenciados».

Não faltam discursos e fóruns sobre perdas e danos. Restituições e reparações. Esclavagismo e colonialismo. Basta olhar as artes visuais e performativas da última década no nosso país.

E no entanto lê-se assim, novamente no catálogo: «O que se chamou Brasil é a resultante de uma ação colonial de grandes proporções e consequências, em que Portugal arrastou uma imensidão de gentes de um continente para outro e tomou para si essa imensa terra indígena».

É a repetição do que aparece nos livros de História há décadas e décadas, mas que por algum motivo se tornou hábito dizer que é ocultado.

A voz do curador prosseguiu: «A escravidão e a chamada abolição vieram com um apagamento do passado e principalmente do quanto continua presente no Brasil o passado escravista. A exposição assume o facto de a escravidão não ser apenas um assunto passado no Brasil, mas também um assunto presente de muitas formas. Não sei se chamaria a isso revisionismo. Diria que é o reconhecimento de dados históricos que são, antes de mais nada, factuais e pouco considerados, como o papel central de portugueses e brasileiros na escravidão moderna».

Pode a história do Brasil resumir-se à escravatura? «Nada resume o Brasil. Por isso é que a exposição se chama Complexo Brasil». Mas há uma insistência nesse tema em quase todos os módulos. «Sim, é uma questão que perpassa, que atravessa».

Regressemos ao catálogo, objeto estético apreciável de três mil exemplares com textos filiados na centenária Escola de Frankfurt e seus derivados teóricos. O curador falou dele. «A exposição vem acompanhada de um livro que estende e desenvolve questões que estão latentes na exposição, mas não desenvolvidas na exposição, porque não há espaço e porque não é uma exposição descritiva do Brasil», disse-nos José Miguel Wisnik.

«Priorizámos os testemunhos apagados, invisibilizados. Portanto, aquilo que foi encoberto, aquilo de que não se fala. A escravidão é um tema não falado no Brasil e acredito que não falado em Portugal», concluiu.

No fim da visita guiada, a Gulbenkian ofereceu o tão falado catálogo a cada jornalista ali presente. E só então veio a surpresa da descoberta de um texto da jornalista Eliane Brum, ali incluído e alvo de críticas irónicas ao longo da última semana.

A controversa prosa tem passagens como esta: «Individualmente, cada português não é culpado pelo que seus antepassados fizeram. Mas coletivamente, sim, são responsáveis. Se aceitamos as benesses que vieram com o que os antepassados fizeram, o pau-brasil e o ouro ensanguentado que construíram seus monumentos, as heranças coletivas, temos que aceitar coletivamente a responsabilidade por seus assassinatos».

Nascida em 1966 no Rio Grande do Sul, eleita em 2025 pelos leitores da revista britânica Prospect como a mais influente pensadora da atualidade, acrescenta: «O que os homens portugueses começaram a fazer aqui, tão logo colocaram suas botas e seus corpos infetados no ventre de areia das praias, seus pénis sifilíticos nas vaginas das mulheres originárias, foi construir ruínas».

Não houve oportunidade de falar com o curador sobre estas passagens. A visita guiada já tinha ficado para trás. 

Cabe agora ao público entrar em cena. O que se tem visto já terá feito a exposição cumprir-se: é dela que tanto se fala por estes dias. 

Uma exposição ‘muito grande’

Complexo Brasil é uma exposição «muito grande, mesmo para os padrões da Gulbenkian», segundo Miguel Magalhães, um dos diretores da instituição, que acrescenta ter a mostra nascido em 2022 da constatação de António M. Feijó, presidente da administração, de que «Portugal não conhece o Brasil de hoje e de antes da chegada dos portugueses».

São dois pisos. A proposta passa por não haver paredes que isolem temas. Inicia-se o percurso por mantos tupinambás, de cerca de 1500. São peças de vestuário ritual, usadas em cerimónias fúnebres, festas comunais e ritos antropofágicos. O foco, aqui, é a devolução de tais peças ao Brasil, por estarem muitas delas no acervo de museus europeus.

A arte contemporânea, como a fotografia de Thays Chaves, Caio Aguiar e Damião Marcos, conversa com pintura realista, como A Redenção de Cã, de Modesto Brocos, de 1895, descrita como «uma apologia do branqueamento».

Termina com duas salas obscuras dedicadas à música, onde se conhece a génese do samba e o seu lastro africano.