quarta-feira, 11 fev. 2026

As perguntas que não se podem fazer

Até onde vai resistir o jornalismo com capacidade e possibilidade de fazer perguntas e de escrutinar estes momentos da vida de grandes e pequenos países?

A Casa Branca encheu-se de dourados e de figuras de topo das maiores empresas do mundo para receberem o poderoso príncipe herdeiro da Arábia Saudita.

Trump preparou a coreografia a rigor, mostrando cumplicidade com o convidado com quem conversou longamente à vista dos jornalistas.

Na mesa estiveram grandes negócios e até o fornecimento dos mais modernos aviões da América a um país que se afirma na região e cresce para ser um dos centros de um novo mundo. A Arábia Saudita está a construir cidades do futuro, conquistou grandes eventos desportivos como o Dakar e quer agora mais futebol mundial, depois de ter contratado uma boa mão cheia de ‘galácticos’ para os poderosíssimos clubes do reino.

A estratégia económica da Arábia Saudita é forte, e os investimentos e a esfera de influência passam agora também pelos Estados Unidos.

Há também a crescente e decisiva influência politica.

Trump, não queria desiludir, mas a democracia em que ainda vive lá obrigou à presença de jornalistas e a perguntas.

Coisa terrível…imprensa livre e perguntas.

A ousadia coube à ABC News que apenas quis saber o óbvio sobre o caso da morte do jornalista Jamal Khashoggi no interior do consulado da Arábia Saudita em Istambul.

Os Estados Unidos responsabilizaram na altura o príncipe Herdeiro Mohammad Bin Salman pelo assassinato. A Jornalista queria saber o que mudou para a mesma figura ter agora todas estas honras na mesmo América?

A somar, outro dado que está a deixar a opinião pública nos Estados Unidos inquieta. A maioria dos terroristas que fizeram o 11 de setembro eram sauditas.

Trump irritou-se com a pergunta, chamou a ABC News de televisão de notícias falsas e até ameaçou retirar a licença à emissora, pedindo os jornalistas para não envergonharem o país perante tão ilustre visita.

O Presidente americano rematou mesmo a Khashoggi era uma pessoa ‘controversa’, como se isso justifica-se uma morte tão violenta, que vos pouparei aos detalhes de malvadez.

A irritação foi ainda mais acentuada quando as perguntas chegaram ao escândalo de Epstein.

O tema não ficou fechado, mesmo com um faustoso jantar onde Trump teve até o privilégio de ter Ronaldo à mesa. Há perguntas, muitas, sem resposta. 

O importante da viagem eram os negócios e a geopolítica. As dúvidas sobre os processos dos sauditas e a história que carregam na região e no mundo nada interessam neste momento.

A América vai ajudar os sauditas a conseguirem a organização de mais grandes eventos e aproveita a disponibilidade de investimento para abrir aos amigos de Bin Salman as portas de várias tecnológicas envolvidas no desenvolvimento de projetos de Inteligência Artificial, que bem precisam de muito dinheiro para se aproximarem do que está a acontecer na China.

A política pragmática dos negócios levou até Trump a voltar a ter a mesa do jantar de honra o polémico ‘amigo’ Elon Musk com quem vai alternando momentos de grande proximidade com feias zangas publicas.

A pergunta que vamos fazendo, com crescente preocupação, é até onde vai resistir o jornalismo com capacidade e possibilidade de fazer perguntas e de escrutinar estes momentos da vida de grandes e pequenos países.

Os órgãos de comunicação tradicionais estão debaixo de um ataque sem precedentes e não sejamos ingénuos, o objetivo de muitas lideranças é terem uma imprensa muito mais dócil que não se incomode a fazer perguntas sobre coisas feias coma a morte de um qualquer Khashoggi, que apenas estava a tentar fazer o elementar; dar notícias e investigar ligações demasiado perigosas. Ele pagou com a vida a ousadia e a forma como foi morto é também um recado para os mais ‘atrevidos’.