quinta-feira, 12 fev. 2026

As promessas do candidato Vieira parecem absurdas? Absurdo é termos 28 debates presidenciais nas televisões.

Mal posso esperar para ver o candidato Vieira ao lado de Joana Amaral Dias a debater as avenças públicas e os vícios privados.
As promessas do candidato Vieira parecem absurdas? Absurdo é termos 28 debates presidenciais nas televisões.

No dia em que este jornal sair para a rua, já terão sido realizados três debates presidenciais nas nossas televisões, que iniciaram com Ventura vs Seguro na passada segunda-feira na TVI.

Na próxima semana, irão realizar-se mais sete debates presidenciais, dos 28 que estão previstos entre Novembro e o dia 22 de Dezembro, data do debate Gouveia Melo vs Marques Mendes também na TVI. Um amigo já me perguntou se eu iria ver todos os debates, respondi-lhe candidamente que sim, só não garanto que os vá ouvir todos.

Adiante. São 28 debates que o país aguarda com expectativa que rapidamente estejam despachados, até porque temos mais que fazer, vem aí uma greve geral, um Benfica-Sporting, dois feriados que calham a uma segunda-feira, e hoje à noite é dia de pão e circo, a RTP transmite o derby Atlético-Benfica para a Taça de Portugal no estádio do Restelo. Alguém um dia terá de nos explicar a razão porque os jogos da Taça envolvendo os grandes deixaram de se realizar nos estádios dos clubes pequenos.

Não sei como vão ficar os derbies, não sei como vão ser os debates, a única certeza que tenho é que nada estará à altura da sensacional entrevista que o candidato presidencial Manuel João Vieira deu à SIC Notícias na passada sexta-feira, dia em que conseguiu obter o número de assinaturas que lhe permitem ir a jogo e candidatar-se a Belém (caso as assinaturas sejam todas validadas). Outra coisa que parece certa é que Manuel João Vieira não venha a ter direito a participar em qualquer dos 28 debates previstos pelas nossas canónicas televisões, mas depois possa participar no habitual debate dos pequeninos, que a RTP garante aos candidatos fora do sistema, mal posso esperar para ver o candidato Vieira ao lado de Joana Amaral Dias a debater as avenças públicas e os vícios privados.

De qualquer forma, a entrevista de Manuel João Vieira na SIC Notícias dividiu o país, polarizou a nação, separou as águas, e fez rir centenas de milhares de espectadores anestesiados por horas sem fim das tragédias da depressão Claudia ou os stand-ups dos políticos nacionais no palco da Websummit em Lisboa.

Vieira naquela noite fez mais por Portugal que mil Marcelos de antigamente, é verdade que muitas das suas promessas poderão ser difíceis de cumprir, tais como a “proibição das doenças”, a “igualdade total de pigmentação”, e até “fontes de bagaço e vinho canalizado para todos os portugueses”, mas parece-me fácil garantir a “nacionalização do absurdo” por alguém que, tal como eu, promete vir a representar “o extremo-centro do coração de Portugal”. Muitos riram, muitos choraram, mas poucos compreenderam a fina ironia de um candidato que soube dizer as verdades no meio de humor, o Vieira é uma espécie de Tino de Rans com substâncias psicoactivas. Mas, como escreveu o historiador Diogo Duarte no Twitter, “um candidato paródia com ideias absurdas sobre temas importantes é tão legítimo como um candidato sério com ideias absurdas sobre temas importantes” (@DMainselDuarte).

Mérito enorme também para a entrevistadora Ana de Freitas, que, perante o absurdo do candidato Vieira, nunca se desmanchou ou manchou a intervenção do seu interlocutor, mantendo a compostura e o rigor que se exige de situações fracturantes como esta. Agora o que se pede é que o fenómeno Vieira possa ter continuidade, que o candidato tenha direito a fazer a digressão pelos programas do Goucha e da Júlia, como tantos outros tiveram de forma inexplicável.

Para que conste, uma das promessas menos absurdas (e mais lúcidas) do candidato Vieira é a da eliminação de todos os clubes nacionais e da criação de apenas uma equipa nacional, “com homens, mulheres, marcianos e trans”. Essa equipa de certa forma já existe, chama-se seleção nacional, acabou de garantir a sétima presença num Mundial de futebol, é composta por homens, alguns marcianos ou extraterrestres, e uma personagem trans, perdão, transcendental em toda a carreira internacional da seleção de Portugal, mas que agora se diz “saudita”, que “gostava de conhecer Trump”, e que foi expulsa pela primeira vez num jogo da seleção nacional, a semana passada contra a Irlanda. Todos devemos muito ao CR7, já é tarde ou pouco original começarmos a diabolizá-lo, mas dá que pensar ele estar ausente tão poucas vezes da seleção e nesses jogos Portugal marcar 9 golos ao adversário (sim, aconteceu duas vezes recentemente, contra Luxemburgo e Arménia).

Numa semana de grande actividade atmosférica no nosso Absurdistão, gostava de salientar a estreia nas redes sociais de uma excelente sátira dedicada às agências imobiliárias chamada Porta Premium Loures, com Gonçalo Waddington e Sónia Balacó (check in no Instagram e TikTok); a indignação do pessoal da Websummit com a subida do preço da hotelaria cada vez que a cimeira se instala em Portugal; a excelente peça de informação TVI sobre o acidente rodoviário que deixou Torres Couto tetraplégico; não esquecendo a iniciativa pueril da CML de propor a uma creche no Bairro Alto que baixe o volume do ruído da criançada para não incomodar o vizinho queixoso; ou a história daquela mãe que recorreu à justiça para que jogo da apanhada seja considerado ilegal; e, para não vos maçar mais com fait divers insignificantes, afinal de contas já é fim de semana, queria destacar a frase lapidar do candidato Cotrim de Figueiredo sobre o novo pacote laboral: “a precariedade não é em si uma fragilidade, é só uma necessidade de habituação”. Um belo aforismo para emoldurar ao lado do “ai aguenta aguenta” do Fernando Ulrich, “não sejam piegas” do Passos Coelho, e “os portugueses precisam de comer menos bifes”, de Isabel Jonet, curiosamente tudo frases proferidas naquele distante e memorável 2012, ano de uma das últimas greves gerais em Portugal.