quinta-feira, 12 fev. 2026

O artista que adorava sangue

Como um tubarão ou um morcego, ficava louco com a visão e o cheiro do sangue.

Nas duas últimas semanas escrevi aqui sobre a vida de Peter Beard (1938-2020), a propósito da biografia de Graham Boynton publicada em 2022 (Wild – The life of Peter Beard, Photographer, Adventurer, Lover). Recordei a sua linhagem, a ligação a Karen Blixen, as caçadas em África e as aventuras com o sexo feminino. Chegou a altura de falar sobre o seu trabalho.

Já referi que o seu primeiro livro, The End of the Game, de 1965, causou sensação imediata. A capa mostrava um homem negro na savana agachado com duas colossais presas  de elefante. A breve nota introdutória do autor começava assim: «Durante estes últimos anos, no Quénia e no Tanganica [atual Tanzânia], percorrendo 500.000 milhas quadradas de zonas de caça, tentei recuperar a vida e o espírito de um continente outrora imaculado». E terminava: «Espero que, daqui a cem anos, quando a África de ontem e de hoje estiver irreconhecível, alguém olhe para este livro com, pelo menos, um pouco da curiosidade e do interesse com que eu olhei para os livros sobre África de há cem anos».

Embora se trate de uma obra quase de juventude, The End of the Game tem já todas as características distintivas de Beard: as fotografias a preto e branco de animais selvagens, por vezes em grandes manadas, outras vezes a sós, ocasionalmente já mortos e em decomposição; retratos de nativos; desenhos recuperados de outros livros; colagens; excertos dos diários do autor, com a sua caligrafia impecavelmente desenhada. 

Mais ainda do que disparar a sua máquina fotográfica Voigtländer oferecida pela avó, Beard adorava fazer recortes e colagens, gastando incontáveis tubos de cola que usava com prodigalidade. Outro material a que recorria em grandes quantidades era o sangue. Como um tubarão ou um vampiro, ficava louco com a visão e o cheiro do sangue. Uma vez, espetou uma tesoura japonesa na sua própria coxa de modo a obter algum para espalhar e salpicar numa das suas imagens. Outra vez, fez com que o seu galerista andasse à procura por toda a Beverly Hills até encontrar um sítio que vendia sacos com sangue de bovino._Era no caos que se sentia bem a trabalhar, porque isso lhe sugeria novas composições.

Diz o biógrafo que um dos melhores lugares para apreciar a obra de Beard era o restaurante Cipriani Downtown, em Nova Iorque, que tinha as paredes forradas com grandes fotografias suas intervencionadas. Mesmo quando estas peças já valiam dezenas ou umas poucas centenas de milhares de euros, o artista tinha o hábito de pagar em géneros as refeições e cocktails. Até porque não tinha cartão de crédito e nunca andava com muito dinheiro no bolso.

Uma situação típica passou-se em Viena em finais dos anos 90. Depois de assistirem a um musical de Roman Polanski, Beard, o seu galerista e um grupo de amigos – cerca de vinte pessoas – foram jantar. Um jantar animado e bem regado, como era habitual. Quando a conta foi trazida à mesa, conta Boynton, Beard chegou-se à frente: ‘Eu trato disso!’. E de imediato tirou do bolso uma nota de cem dólares. Não dava nem para pagar a sua parte do total de quatro mil dólares. Fahey, o galerista, pagou a despesa «sem pestanejar».

Era assim a sua natureza: arrojado, despreocupado e um tanto irresponsável. Certa vez em que recebeu uma encomenda choruda do ator Kevin Costner, respondeu: «Fuck that» e aconselhou-o a ler Maimónides, um filósofo medieval. No lugar das imagens que lhe tinham sido pedidas, enviou outras que ele achava melhores e cobriu-as de insultos. Costner ficou encantado.