Nigéria. Haverá espaço para o  diálogo?

Cerca de 70% dos cristãos mortos no mundo no último ano são nigerianos, de acordo com a Open Doors. Haverá, ainda assim, espaço para o diálogo inter-religioso?
Nigéria. Haverá espaço para o  diálogo?

3100. É este o número, de acordo com a Open Doors’ World Watch List, de cristãos nigerianos mortos no ano passado num universo de 4.476. Ou seja, cerca de 70% de todos os cristãos mortos no mundo são naturais da Nigéria. E se mais de três milhares foram mortos, outros 2.830, de um total mundial de 3.775, foram sequestrados.

São estes números que têm feito soar os alarmes um pouco por toda a parte, dando azo a um vasto número de narrativas e preocupações. O presidente dos EUA, Donald Trump, tem sido vocal sobre a perseguição aos cristãos na Nigéria, colocando não só o país no leque da «Especial Preocupação» quanto às violações da liberdade religiosa, mas também ameaçando uma eventual intervenção militar. «Se atacarmos», escreveu o presidente, «será [um ataque] rápido, cruel e doce, tal como os terroristas atacam os nossos QUERIDOS cristãos!».

Ted Cruz, senador republicano pelo Texas, disse que os «cristãos nigerianos estão a ser alvo de perseguições e execuções por causa da sua fé por parte de grupos terroristas islâmicos, e estão a ser forçados a submeter-se à lei sharia e às leis contra a blasfémia em toda a Nigéria» e apresentou um projeto de lei – a Lei de Responsabilidade pela Liberdade Religiosa da Nigéria de 2025 – que exige a proteção dos «cristãos e outras minorias religiosas perseguidas na Nigéria, responsabilizando os funcionários nigerianos que facilitam a violência jihadista islâmica e a imposição de leis contra a blasfémia».

Um genocídio?

Mas Bill Maher, apresentador e comentador americano, radicalizou o argumento: «Eles mataram mais de 100 mil pessoas, desde 2009. Queimaram 18 mil igrejas. Estes são os islamistas, o Boko Haram». «Isto é muito mais do que uma tentativa de genocídio do que o que está a acontecer em Gaza», disse Maher, porque «estão literalmente a tentar exterminar a população cristã de um país inteiro».

A Open Doors não utiliza o termo legal genocídio, tantas vezes abusado, no seu relatório sobre os cristãos na Nigéria, mas escreve de forma clara que a «violência jihadista continua a aumentar na Nigéria, e os cristãos estão particularmente em risco de ataques direcionados por militantes islâmicos, incluindo combatentes Fulani, Boko Haram e ISWAP (Província do Estado Islâmico na África Ocidental)». E, continua o documento, os mortos são «principalmente homens», enquanto as mulheres «são frequentemente raptadas e alvo de violência sexual». A organização afirma ainda que esta violência aumentou «sob o governo do ex-presidente Muhammadu Buhari, colocando a Nigéria no epicentro da violência direcionada contra a igreja. O fracasso do governo em proteger os cristãos e punir os perpetradores apenas fortaleceu a influência dos militantes». «Mais de 16,2 milhões de cristãos na África Subsaariana», pode ainda ler-se, «incluindo um grande número da Nigéria, foram expulsos das suas casas pela violência e pelos conflitos. Milhões vivem agora em campos de deslocados».

Em declarações ao Nascer do SOL, Sebastião Bugalho, eurodeputado eleito pelo PSD que esteve na Nigéria no final do mês de outubro em missão do Parlamento Europeu, diz que «[p]arte da violência é perpetrada por grupos terroristas que atacam indiscriminadamente, havendo  vítimas de várias religiões. «Outra parte», continua, «resulta de ataques com motivação étnico-religiosa, em concreto contra comunidades cristãs no Middle Belt», sendo que existe um «terceiro nível» que «está associado ao crime organizado». «Trata-se, portanto, de um mosaico complexo e trágico». E «a particular vulnerabilidade da população cristã» em regiões onde a disputa por terras e a pobreza são os principais fatores explicativos da insegurança perante o extremismo religioso e a grupos terroristas como o Boko Haram é «evidente», explica o eurodeputado .

Mas, independentemente dos relatos sobre o que está a acontecer, assim como do uso exagerado da palavra genocídio, Gimba Kakanda, a escrever para a Al Jazeera não demorou a atacar Bill Maher e a voltar a sua atenção para Gaza, classificando as suas declarações como «desinformação (…) que visa difamar a Nigéria e minimizar a gravidade da situação em Gaza», continuando que a denúncia sobre o que está a acontecer aos cristãos nigerianos faz parte de algo superior: «[a denúncia] está relacionada com a posição da Nigéria na Assembleia Geral das Nações Unidas de 2025. Ao reafirmar o apoio a uma solução de dois Estados para o conflito palestiniano, a Nigéria desafiou poderosos interesses investidos em narrativas unilaterais». Também Nicholas Kristof, a escrever para o The New York Times, diz que «chamar a situação de genocídio é ridicularizar as vítimas de genocídios reais». Kristof oferece ainda outra razão «para ser cético em relação às alegações de genocídio contra cristãos na Nigéria»: «muitos altos funcionários nigerianos são cristãos, e a primeira-dama não é apenas cristã, mas também pastora». Também o presidente do senado é católico e a sua esposa peregrina a Fátima.

Há esperança?

Sebastião Bugalho – que esteve com o padre Atta Barkindo durante a sua estada em Abuja, encontro do qual retira como principal lição, «além da resiliência», o facto de que «para derrotar um inimigo é mesmo preciso conhecê-lo e ao seu terreno» – acredita que, «apesar da profunda fragmentação social, étnica e religiosa na Nigéria», o diálogo inter-religioso e, consequentemente, a paz inter-religiosa, «ainda não é impossível». E diz que «há várias iniciativas locais de mediação inter-religiosa» e «muitas delas apoiadas por parceiros europeus»: «O Interfaith Mediation Centre, por exemplo, em Kaduna, fundado pelo pastor James Wayne e pelo imã Muhammad Ashafa, é um exemplo paradigmático», tratando-se de dois «antigos inimigos [que se tornaram] promotores do diálogo e da reconciliação entre comunidades cristãs e muçulmanas, mediando conflitos em regiões particularmente vulneráveis». O eurodeputado do PPE enumera ainda outras iniciativas, como o «Interfaith Dialogue Forum, lançado em 2017 com o apoio do KAICIID Dialogue Centre», e outros projetos que carregam o selo da União Europeia (que «integrou a liberdade de religião ou crença como uma prioridade transversal da sua política externa»): o «programa Knowing Each Other, financiado pela Comissão Europeia», o «Inclusive Religious Engagement in Nigeria Enhanced by Women financiado pela UE» e o «Programa de Reconciliação no Nordeste da Nigéria (UE-ONU)». São iniciativas como estas que, de acordo com Bugalho, «desempenham um papel importantíssimo para este ‘crack in the concrete’ [que permite o florescimento do diálogo inter-religioso]».

«Numa altura em que o mundo parece dividido em quase todas as questões», escreveu Ryan Brown, CEO da Open Doors nos EUA, na National Review na segunda-feira, «a proteção da liberdade religiosa deve unir-nos. Defender o direito de acreditar não é uma causa política. É uma causa humana. Os cristãos da Nigéria não estão a pedir privilégios, apenas proteção. E estão a pedir soluções que tragam paz, não mais conflitos».