Todas as famílias têm problemas e, por norma, há sempre a “ovelha negra”. Associamos a expressão ao membro que se distancia de alguma forma do padrão familiar. O mais rebelde. No entanto, há situações em que se torna insustentável manter alguém por perto – mesmo que se trate de uma ligação de sangue – e, quando se fala da família real, o assunto torna-se ainda mais delicado.
O irmão do Rei Carlos III, o terceiro dos quatro filhos da Rainha Isabel II, vai perder o título real e as honras de príncipe e sair do Royal Lodge, revelou recentemente o Palácio de Buckingham em comunicado. Recorde-se que, anteriormente, o príncipe André já tinha renunciado aos seus títulos reais, incluindo o de Duque de York. No entanto, continuava a ser príncipe.
O documento oficial adianta que foi iniciado um «processo formal» para que este perca os tais títulos reais e que foi entregue uma «notificação formal para a rescisão do contrato» no Royal Lodge, sendo que se mudará para uma residência privada. Ou seja, apesar do príncipe continuar a «negar as acusações contra ele» (já lá vamos), o Palácio de Buckingham considera estas ações «necessárias». O Palácio aproveitou ainda para enviar as condolências e assegurar que está com as «vítimas e sobreviventes de todas as formas de abuso». Sem título, o antigo príncipe passa assim a apresentar-se apenas como Andrew Mountbatten Windsor e muda-se para Sandringham, em Norfolk, propriedade fundada pelo Rei Carlos III, o local onde a família real britânica se reúne na época natalícia. Ao contrário do pai, as filhas, as princesas Eugénia e Beatriz, vão manter os seus títulos.
Segundo o The Guardian, especialistas da realeza acreditam que este anúncio representa nada menos que uma «humilhação absoluta» para André, outrora visto como um herói de guerra, condecorado com insígnias como a Medalha da Campanha do Atlântico Sul e a Medalha do Jubileu de Prata da Rainha Isabel II. Richard Fitzwilliams, por exemplo, autor e comentador especializado na família real, disse ao jornal britânico: «Acho que será um verdadeiro inferno para ele, dada a sua particular predileção por títulos e a sua atitude de superioridade».
A polémica com Epstein
É importante lembrar que a renúncia do título aconteceu depois da pré-publicação de alguns excertos do livro póstumo de Virginia Giuffre – mulher que acusou André de abusos sexuais quando estava a ser traficada pelo empresário e amigo do príncipe, Jeffrey Epstein. Em Nobody’s Girl: A Memoir of Surviving Abuse and Fighting for Justice, Giuffre recorda as interações que teve com André no início do século, quando tinha apenas 17 anos. André tinha 41. A mulher cometeu suicídio em casa, na Austrália, em abril deste ano.
De acordo com o jornal britânico, os dois homens conheceram-se em 1999. André foi apresentado a Epstein, através de Ghislaine Maxwell – filha do falecido magnata dos media Robert Maxwell. Virginia acusava André desde 2011. Porém, só em 2021 é que o caso de abuso sexual ganhou novas proporções. Segundo a mesma, forçaram-na a fazer sexo com o irmão do rei Carlos três vezes. O primeiro crime ocorreu, alegadamente, em Londres, na mansão de Maxwell, namorada de Epstein e aliciadora do esquema de pedofilia. Já o segundo e o terceiro episódios aconteceram nas propriedades de Epstein em Manhattan e nas Ilhas Virgens, dos EUA, respetivamente.
Entre as recordações dos abusos sofridos, a australiana expôs detalhes de episódios que envolvem diretamente André, como uma fotografia tirada e que foi usada por ela para provar o contacto com ele. André sempre se afastou da acusação, dizendo que «não tinha memória de a ter conhecido» e recusando qualquer episódio de abuso sexual. Contudo, um email que acabou por ser revelado em agosto deste ano mostra uma conversa entre André e Epstein – quando este último já estava preso –, na sequência da divulgação da imagem com Giuffre, onde o príncipe terá dito: «Estamos nisto juntos» e «Voltaremos a brincar». O email parece contradizer a sua declaração anterior, no programa Newsnight da BBC, de que tinha cortado o contacto com o pedófilo condenado.
No processo, Virginia descreve ter sido «ameaçada implícita ou explicitamente por Epstein, Maxwell e/ou André» para se envolver com o membro da família real britânica, com medo de haverem «repercussões graves» após negar a vontade deste trio com «associações poderosas, riqueza e autoridade». «Acreditava que fazer sexo comigo era um direito de nascença», escreveu no seu livro.
De herói a vergonha
da família
André foi descrito, durante vários anos, como «o filho favorito da rainha Elizabeth II» e «um militar corajoso», apesar de nunca ter sido «segredo» a sua obsessão por mulheres. De acordo com os órgãos de comunicação internacionais, a sua reputação como herói militar deveu-se à participação na Guerra das Malvinas (1982) contra a Argentina, na qual lutou como piloto de helicóptero quando tinha apenas 22 anos. No entanto, o passar do tempo foi desvendando outras facetas. Mimado, explosivo, rude, vaidoso, arrogante, obcecado por sexo são apenas algumas das características que lhe foram atribuídas pelo historiador britânico Andrew Lownie, autor da sua biografia não-autorizada, Entitled: The Rise And Fall Of The House Of York.
O autor da obra – que terá demorado quatro anos a ficar concluída e que conta com mais de 400 páginas –, entrevistou 300 pessoas, entre elas diplomatas, pessoal da marinha, ex-funcionários e representantes da realeza, e todos acabaram por traçar um perfil negro do ex-príncipe. O livro dá a conhecer algumas das suas atitudes. Por exemplo, alega que este intimidava e humilhava gratuitamente os funcionários. Uma vez, segundo Lownie, chamou um secretário de «imbecil» apenas por este não ter usado o título completo da Rainha Mãe. Numa outra situação, demitiu um funcionário porque tinha uma verruga no rosto e outro por usar gravata de náilon. «Lembre-se de que posso tratar qualquer um exatamente como eu quiser», disse numa nova ocasião a outro membro do staff. Além disso, a biografia revela que funcionários de segurança eram enviados para recolher bolas de golfe, enquanto aviões privados eram alugados com a mesma facilidade com que se chama um Uber.
De acordo com o historiador, André dormiu com mais de mil mulheres. O livro adianta que a origem do vício do sexo pode estar relacionada com um trauma de infância, já que André terá perdido a virgindade com uma prostituta, num hotel do West End, com apenas 11 anos.
A obra descreve ainda vários contactos duvidosos em negócios internacionais, desde traficantes de armas, parentes de ditadores e até um espião chinês.
Recorde-se que Jeffrey Epstein começou a ser investigado em 2005 pelo envolvimento em casos de assédio e abuso sexual contra menores de idade. Em julho de 2019 acabou por ser preso por tráfico sexual, tendo morrido na prisão em agosto do mesmo ano, antes de ser julgado pelos crimes. Por sua vez, Ghislaine Maxwell foi acusada em 2020 e condenada em dezembro de 2021 por vários crimes, incluindo tráfico sexual, conspiração e transporte de menor para atividade sexual ilegal.
A família de Virginia Giuffre já reagiu à notícia da retirada do título de príncipe e todos os privilégios a André. «Esta rapariga normal, de uma família normal, derrubou um príncipe. Estamos tão orgulhosos dela», afirmou Sky Roberts, irmão da vítima, ao programa BBC Newsnight. No entanto, para si, a justiça ainda não foi feita: «Temos de ter algum tipo de investigação que vá mais além. Ele precisa de estar atrás das grades, ponto final», afirmou. Já a cunhada de Virginia, Amanda Roberts, acrescentou que este «é um momento de reconhecimento para todos os sobreviventes de abuso»: «Tudo pelo que ela lutou não foi em vão», acredita. «Ela está a celebrar lá do céu, a dizer: ‘Eu consegui’. Ela estaria tão orgulhosa. Ele é apenas André», acrescentou.