Um júri do condado de Los Angeles condenou esta segunda-feira Maurice Jewel Taylor Sr., de 39 anos, e Natalie Sumiko Brothwell, de 48 anos, por dois crimes de homicídio em primeiro grau com circunstâncias especiais e dois crimes de abuso infantil, segundo comunicado do Ministério Público.
Novembro de 2020: o fim de semana dos assassinatos
A 29 de novembro de 2020, o domingo após o Dia de Ação de Graças, Taylor e Brothwell mataram os filhos Maliaka T., de 13 anos, e Maurice T., de 12 anos, na residência da família em Lancaster. Durante o julgamento, os procuradores comprovaram que ambos esfaquearam mortalmente as crianças antes de as decapitarem.
O horror não terminou aí. Os dois filhos mais novos do casal, com 8 e 9 anos na altura, foram forçados a ver os corpos decapitados dos irmãos. Depois, segundo a acusação, as crianças foram confinadas nos seus quartos durante vários dias consecutivos sem acesso a comida.
Clientes de fitness descobrem o crime
A descoberta dos corpos aconteceu apenas a 4 de dezembro, cinco dias após os assassinatos. As autoridades foram alertadas por uma razão inusitada: clientes de Maurice Taylor Sr., que trabalhava como personal trainer, reportaram uma possível fuga de gás na residência.
Taylor mantinha sessões de treino online através de Zoom durante a pandemia de COVID-19. Quando deixou de comparecer aos treinos agendados e se tornou impossível contactá-lo, os clientes ficaram alarmados e contactaram as autoridades.
Os investigadores do Departamento do Sheriff do condado de Los Angeles encontraram as duas crianças em quartos separados. Ambas apresentavam ferimentos de arma branca e tinham sido decapitadas.
"Um ato monstruoso de crueldade"
Nathan J. Hochman, procurador distrital do condado de Los Angeles, reagiu ao veredicto com palavras duras. "Este foi um ato monstruoso de crueldade que destruiu uma família inteira", declarou Hochman no comunicado oficial. "Duas crianças inocentes foram brutalmente assassinadas, e os seus irmãos mais novos foram deixados a viver um horror inimaginável."
O responsável pelo Ministério Público sublinhou que o veredicto representa mais do que justiça para as vítimas. "O veredicto do júri entrega justiça a estas vítimas e envia uma mensagem poderosa: aqueles que cometem atos tão malignos serão responsabilizados na totalidade", afirmou.
Hochman elogiou o trabalho da equipa de acusação, destacando que "esta acusação não teria sido possível sem os tremendos esforços dos procuradores adjuntos Alexander Lara e Kirsten Brown da Divisão de Crimes Sexuais, que juntamente com investigadores do Departamento do Sheriff do condado de Los Angeles, Esquadra de Lancaster, reconstituíram este caso medonho e o apresentaram de forma convincente ao júri."
Prisões separadas por nove meses
Maurice Taylor Sr. foi detido a 4 de dezembro de 2020, imediatamente após a descoberta dos corpos. Foi formalmente acusado quatro dias depois. Durante o processo, surgiram questões sobre a sua competência mental, levando à suspensão temporária do julgamento, que foi posteriormente retomado.
Natalie Brothwell estava presente na casa quando as autoridades chegaram em dezembro de 2020. Foi inicialmente interrogada mas não detida naquele momento. Só em setembro de 2021, quase um ano depois, é que foi finalmente presa na sua residência em Tucson, Arizona.
Brothwell foi extraditada para o condado de Los Angeles no mês seguinte à sua detenção. Desde então, ambos os arguidos permaneceram sob custódia, sem liberdade sob fiança.
Prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional
O veredicto do júri foi claro: ambos foram considerados culpados de dois homicídios em primeiro grau com a circunstância agravante de terem cometido mais de um assassinato no mesmo caso. As condenações por abuso infantil acrescentam gravidade adicional às sentenças.
Taylor e Brothwell enfrentam agora a pena máxima: prisão perpétua sem qualquer possibilidade de liberdade condicional. Adicionalmente, receberão uma pena consecutiva de seis anos e quatro meses de prisão estadual pelas condenações de abuso infantil.
A leitura formal da sentença está marcada para 13 de janeiro de 2026, no Departamento A18 do Tribunal de Antelope Valley. As sentenças garantem que ambos passarão o resto das suas vidas na prisão.
O destino desconhecido das crianças sobreviventes
As autoridades de proteção de menores retiraram os dois irmãos sobreviventes da casa após os assassinatos. O Ministério Público recusou divulgar qualquer informação sobre o paradeiro ou condição atual das crianças, que permanecem protegidas por medidas rigorosas de confidencialidade.
A família de Brothwell emitiu uma declaração após o veredicto, focando-se nas vítimas. "Este julgamento foi sobre justiça para Jr. e Maliaka. Este julgamento foi sobre verdade para duas crianças sobreviventes que não serão nomeadas aqui hoje, pela sua privacidade", pode ler-se no comunicado familiar.
O trauma psicológico infligido aos irmãos mais novos, forçados não apenas a testemunhar os corpos decapitados dos irmãos mas também a permanecer confinados e privados de comida, representa uma dimensão particularmente perturbadora do caso.
Lancaster e os ecos da pandemia
Lancaster situa-se na região de Antelope Valley, no norte do condado de Los Angeles, a cerca de 110 quilómetros do centro da cidade. A zona tem registado crescimento demográfico significativo, atraindo famílias devido aos custos de habitação mais acessíveis comparativamente às zonas urbanas centrais de Los Angeles.
Na altura dos crimes, R. Rex Parris, então presidente da Câmara de Lancaster, levantou a possibilidade de o caso estar relacionado com o impacto psicológico da pandemia de COVID-19. "O tecido social do país e do mundo foi despedaçado, e estamos a começar a ver as consequências", afirmou Parris ao Los Angeles Times. "O que estou a ver é cada vez mais pessoas a sentirem-se desesperadas, e isso só pode ter um resultado."
A observação de Parris refletia a preocupação crescente com os efeitos do isolamento e stress pandémico nas dinâmicas familiares durante 2020.
Um caso que marcou a Califórnia
O processo tornou-se num dos mais perturbadores julgados no condado de Los Angeles na última década. A combinação de violência extrema contra menores, a decapitação das vítimas e o sofrimento deliberadamente infligido aos irmãos sobreviventes criou um caso que testou até os investigadores e procuradores mais experientes.
As condenações de prisão perpétua sem liberdade condicional representam o limite máximo da punição disponível no sistema judicial californiano para crimes desta natureza. Com estas sentenças, o estado garante que Taylor e Brothwell nunca mais representarão uma ameaça para a sociedade.
O caso permanece como um lembrete sombrio da violência que pode ocorrer dentro das próprias famílias e da importância crítica dos sistemas de proteção de menores.