segunda-feira, 09 fev. 2026

OMS alerta: um terço das mulheres sofre violência íntima ou sexual ao longo da vida

O relatório, elaborado em conjunto com várias agências da ONU, revela que os números praticamente não mudam desde o ano 2000, evidenciando um problema estrutural e persistente
OMS alerta: um terço das mulheres sofre violência íntima ou sexual ao longo da vida

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou esta quarta-feira novos dados alarmantes sobre violência baseada no género. Segundo o relatório, uma em cada três mulheres no mundo foi vítima de violência íntima ou sexual ao longo da vida, constituindo “uma das crises de direitos humanos mais negligenciadas do mundo”.

840 milhões de mulheres afetadas — e muitos casos nem são reportados

A OMS estima que 840 milhões de mulheres tenham sofrido violência sexual ou física. A organização destaca que o número real pode ser ainda maior, uma vez que muitos episódios nunca chegam a ser denunciados.

O relatório, elaborado em conjunto com várias agências da ONU, revela que os números praticamente não mudam desde o ano 2000, evidenciando um problema estrutural e persistente.

“A violência contra as mulheres continua a ser uma das crises de direitos humanos mais persistentes e negligenciadas do mundo, com muito pouco progresso em duas décadas”, sublinha a OMS.

316 milhões de vítimas em apenas 12 meses

Só no último ano, 316 milhões de mulheres com 15 anos ou mais foram alvo de violência física ou sexual perpetrada por parceiros íntimos. A OMS lamenta a quase estagnação no combate ao problema:

“O progresso na redução da violência por parceiro íntimo tem sido penosamente lento, com uma queda anual de apenas 0,2% nas últimas duas décadas.”

Violência sexual por não-parceiros: 263 milhões de vítimas

Pela primeira vez, o relatório inclui estimativas de violência sexual cometida por não-parceiros. Os dados mostram que 263 milhões de mulheres com mais de 15 anos sofreram este tipo de agressão.

O número real será muito superior, alertam os especialistas, devido ao estigma, medo e barreiras no acesso à justiça.

“A violência contra as mulheres é uma das injustiças mais antigas e disseminadas da humanidade, e ainda assim, uma das menos combatidas", diz o diretor-geral da OMS.

“Nenhuma sociedade se pode considerar justa, segura ou saudável enquanto metade da sua população vive com medo”, acrescenta Tedros Adhanom Ghebreyesus, alertando que o "empoderamento das mulheres e das raparigas não é opcional, mas um pré-requisito para a paz, o desenvolvimento e a saúde.”

Relatório abrange 168 países e revela grave subfinanciamento

Entre 2000 e 2023, foram analisados dados de 168 países, permitindo uma visão global e detalhada. Apesar da gravidade do problema, a resposta internacional continua insuficiente:

  • Em 2022, apenas 0,2% da ajuda global ao desenvolvimento foi destinada à prevenção da violência contra as mulheres.
  • Em 2025, esse financiamento voltou a cair.

A OMS alerta ainda que as emergências humanitárias, o impacto das alterações climáticas e o agravamento da desigualdade socioeconómica contribuem para o aumento da violência.

As regiões mais afetadas pela violência íntima

A prevalência da violência varia significativamente entre regiões:

  • Oceânia (excluindo Austrália e Nova Zelândia): 38% — mais de três vezes a média global (11%).
  • Sul da Ásia: 19%.
  • Ásia Central e Meridional / Países Menos Desenvolvidos: 18%.
  • África Subsaariana e Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento: 17%.
  • Norte de África: 16%.
  • Leste e Sudeste Asiático: 8%.
  • América Latina e Caraíbas: 7%.
  • Europa e América do Norte: 5% — as regiões com menor prevalência.

OMS apela a ação urgente de governos e instituições

O relatório destaca a necessidade de reforçar políticas públicas, responsabilizar agressores e recolher dados mais completos, incluindo sobre grupos vulneráveis.

“Ainda existem lacunas significativas [de informação] principalmente em relação à violência sexual por parte de não-parceiros e em grupos marginalizados”, refere a organização.

A OMS pede que os países:

  • ampliem programas de prevenção;
  • reforcem serviços de saúde, jurídicos e sociais para as sobreviventes;
  • apliquem leis e políticas que empoderem mulheres e raparigas.