quinta-feira, 12 fev. 2026

O mundo uniforme ou Stefan Zweig nosso contemporáneo

Reféns da monotonia que tudo uniformiza, os ocidentais de hoje são os ocidentais de ontem, assim parece. Seremos?

Publicado pela primeira vez em 1925 no Correio de Berlim e reeditado pelas Éditions Allia em 2021, este breve ensaio de Stefan Zweig, intitulado A Uniformização do Mundo, é um extraordinário momento de leitura. Ensaio sobre aspetos da cultura ocidental, aí se constata aquilo que, hoje, nos parece ser um processo irreversível de formatação do real: os modos de vida, os costumes, os hábitos, as cidades, os países, tudo é idêntico em todo o lado. A cor local perdeu-se em virtude da mecanização da vida, em virtude do triunfo da máquina num processo que, segundo o autor de O Mundo de Ontem, já antes da I Guerra Mundial ganhava dimensão. Zweig refere-se já em 1925, na esteira de Baudelaire, talvez o primeiro a compreender que o processo da decadência do Ocidente é, no fundo, inseparável da sensação-ideia de «modernidade», articulando, assim, para se compreender a época, modernidade e decadência com um terceiro conceito – o de uniformização -, o qual, em 2025, tem uma vasta extensão semântica. Uniformização dos processos de trabalho? Decerto. Uniformização das modas, dos gostos e das opiniões? Sem dúvida. Uniformização do relativismo? Julgo que sim. Entenda-se: relativismo como rasura de qualquer dimensão ética nas relações humanas e, muito em especial, nas relações políticas.

Relativismo-absoluto, ou seja, suspensão de qualquer lógica explicativa, com base moral, desta fase da História que se caracteriza pela ostensiva desfactualização do que, até há poucos anos, era óbvio porque ancorado em factos. Estamos, pois, no tempo das ‘fake news’ (o grande contributo de Trump para a língua inglesa!), dos «unicórnios» (uma singular metáfora devedora do fantástico), ou daquilo que, em linguagem mais recente, será o que vem depois da pós-verdade: uma era em que não importa muito, na relação com o outro, se pode estar ou não em causa uma ideia de verdade. Ou de mentira. Na pós «modernidade líquida» (Zygmunt Bauman é o criador da expressão, mas sem o «pós») somos obrigados a olhar para trás e a reler Stefan Zweig. Para o autor deste ensaio de 1925, a uniformização era indissociável da máquina, mas era, no fundo, inseparável de um novo espírito que, da dança à moda, da literatura ao cinema, emanava de uma nova energia: a energia tirânica das massas.

Claro que Stefan Zweig pertence a uma linhagem de pensadores e de filósofos da cultura para os quais o discurso apocalíptico (o discurso revelador) é o único possível face à uniformização da decadência. Zweig não foi nunca um integrado. Logo, este A Uniformização do Mundo pode ler-se, à luz do relativismo-absoluto em que vivemos, de forma cínica: os anúncios e as profecias sobre o fim da Europa e do Ocidente, de que ela é a matriz, foram sempre motivo de obras ensaísticas e de romances, de poemas e de filmes, de peças de teatro e de músicas que continuam a fazer parte de um património cultural que não morreu. E é certo é que, desde Ortega y Gasset (o de A Rebelião das Massas) a Ulrich Beck (o da teoria da «sociedade de risco» e pai do conceito de «modernidade reflexiva como questionamento dos valores do passado), de Oswald Spengler, (o autor de A Decadência do Ocidente) a Byung-Chul Han (o de A Sociedade do Cansaço), sem esquecer pensamento de Unamuno e esse ato de crença no humano que foi A Sociedade Transparente Gianni Vattimo, os mundo moderno esteve sempre à beira do colapso. As duas guerras mundiais e a Guerra Fria são o pano de fundo por sobre o qual a História escrita a sangue é ainda a História da sobrevivência à morte, à decadência. Umberto Eco, porém, vê bem a questão da ideologia: ela é invisível, atua e domina. De Elias Canetti, o autor do romance Auto de Fé, mordaz história da loucura feita misantropia, narrativa sobre os mundos opostos e inconciliáveis (livros vs sociedade/casamento/convenções), ao tutelar A Ascensão da Insignificância, de Cornelius Castoriadis, às distópicas ficções de Ray Bradbury (Fahenheit 451), ou 1984, de Orwell ou, de Huxley, Admirável Mundo Novo é a energia da decadência que continua viva. Uma decadência entendida, por Stefan Zweig, como energia mortal, irmã da máquina; uma degenerescência do espírito, agora entregue à barbárie e à alienação. Insensibilidade e monotonia, propaganda e militarismo, obsessão do poder e vontade de domínio, quando Zweig se refere à «vontade de monotonia» da Europa do seu tempo é do ideal do prazer que acaba por falar: «Todas as coisas, que eu apenas mencionei – o cinema, a rádio, a dança, os novos modos de mecanização da humanidade - exercem um poder enorme que não pode ser ultrapassado» (p.32).

Reféns da monotonia que tudo uniformiza, os ocidentais de hoje são os ocidentais de ontem, assim parece. Seremos? Filhos de um tempo que não exige esforço, mental ou físico, filhos de uma época em que não se pede a ninguém um mínimo de força moral, terá razão de ser uma das teses mais fortes deste ensaio, a saber: é a urgência do prazer uma das causas da nossa degenerescência? No limite, ao lermos este breve ensaio, concordaremos com o escritor austríaco: a decadência ética, estética, as sucessivas mortes do Ocidente de que tantos foram os profetas, ela assenta na pérfida fascinação com aquilo mesmo que promete o progresso: a uniformização de tudo como se tal significasse a igualdade entre todos. Igualdade, mas todos sendo massa, todos iguais a todos. Fraternidade, mas só irmãos na mísera condição em que, como massa, a maioria dos homens vive. Liberdade, mas para se seguir o que todos seguem e fazer o que todos fazem, sem que, no fundo, cada um a si mesmo se resgate da letargia e da alienação a que sempre conduz a uniformização.

Professor e crítico literário