Liturgia dos Clichés

Existirá apenas uma frase feita que resiste ao tempo - não é consolo, oração ou profecia - e diz tudo o que há para dizer quando já não podemos com clichés. “Não há pachorra”.

Há que fazer uma ode às frases feitas, muletas da descrença emocional e alquimistas do consolo imprescindível que sustém a vida.

É que, bem vistas as coisas, “nada acontece por acaso”, ainda que esse nada seja começar a chover torrencialmente quando estamos cheios de pressa para chegar a algum destino, mas respiramos fundo porque “tudo tem uma razão de ser”, até as traças que devoraram o casaco de inverno que usamos como se fosse uma eucaristia de lã (e que, desfeito, serve de abrigo da própria tempestade).

Há pessoas que colecionam clichés como quem coleciona trunfos, distribuem-nos generosamente ao desbarato, em aniversários, em despedimentos laborais, em discussões conjugais, em velórios e, evidentemente, em manhãs de segunda-feira.

São moedas de troco. Servem todas as ocasiões como dádivas de conveniência. Dão-se porque se tem à mão, ainda que não valham grande coisa. No fundo, tapam os buracos de silêncio desconfortáveis, a desconcertante confissão de que raras vezes sabemos o que dizer.

Garantem que “o tempo cura tudo”como se receitassem cápsulas de imunidade para lidar com o tempo que o tempo demora a curar o que quer que seja e que “vai ficar tudo bem”, ainda que ninguém saiba quando.

O mais fascinante é a convicção com que são ditas as frases feitas. Há quem as repita com o fervor de uma ladainha: “Encontramos quando menos esperamos”; “Quem espera sempre alcança”; “O que não nos mata torna-nos mais fortes”; “Há males que vêm por bem”; “Deus escreve direito por linhas tortas”. Talvez seja por isso que ninguém conhece a caligrafia divina e, inclusive, tenha dificuldade em apreender a sua própria. Amém! Aleluia! Hosana nas Alturas!

É uma missa de clichés, evangelho apócrifo escrito com canetas de gel de todas as cores em agendas motivacionais e nós, pobres mortais, ajoelhados perante o dogma dos lugares-comuns, como se cada banalidade fosse uma revelação mística capaz de nos salvar.

Imagino um culto global, fiéis reunidos, mãos erguidas, olhos marejados, recitando em uníssono uns para os outros, perante um pôr-do-sol inspirador: “Tens de ter calma!”. E eu, pela plateia, com ar contrito, a perguntar-me se foi mesmo o destino que fez com que começasse a chover torrencialmente na manhã em que escolhi um casaco que não percebi que estava roto porque já estava atrasada.

Creio que os casacos são tipicamente o que vestirão os clichés. Um pronto-a-vestir emocional, cabem, adaptam-se, mas raramente assentam bem. No fundo, ninguém sabe o que dizer a quem chora, a quem desespera, a quem sofre, mas todos acabamos por ceder. Provavelmente porque, mesmo sabendo que são previsões vazias de quaisquer evidências científicas, é deles que vive a esperança, sem a qual já teríamos desistido de andar nisto.

Existirá apenas uma frase feita que resiste ao tempo - não é consolo, oração ou profecia - e diz tudo o que há para dizer quando já não podemos com clichés. “Não há pachorra”.

No entanto, reconheço. Talvez a vida seja demasiado bruta, dura e imprevisível para que a enfrentemos sem estas bengalinhas da existência. Acabamos por dar-lhes algum crédito, não é? Enfim. Que remédio.