Consciência coletiva

Nestes tempos mais exigentes, precisamos de uma luz que nos guie antes do silenciar do livre pensamento.

Num ano marcado por diversas eleições, nacionais e locais, cujo ciclo intenso terminará em janeiro do próximo ano, às quais se junta a aprovação do orçamento geral do Estado sem a possibilidade de dissolução do Parlamento, várias têm sido as cedências e compromissos de parte a parte, as entradas e saídas, as posses e as renúncias, assim como as coligações feitas, desfeitas e refeitas, a caminho de uma dose confortável de estabilidade que proporcione, esperemos, o progresso do país.

No entanto, como o mundo não é governado pela visão dos poetas, as pedras basilares comunitárias tendem a ceder perante taticismos circunstanciais, adiando sucessivamente a afirmação das importantes referências da própria sociedade, castigando os seus alicerces civilizacionais ao promoverem separatismos que não existiam há alguns anos, com previsíveis impactos nas próximas gerações.

Se permitirmos que se coloque em causa a nossa base enquanto povo, estamos a atingir a sua verdadeira essência, legitimando entropias propositadas, apenas favoráveis às intenções de alguns, originando profundas cisões sociais e descréditos institucionais.

Nunca se deve escolher como líder quem gosta mais do poder do que dos seus eleitores e, quando corpos estranhos à democracia já se encontram dentro das instituições, a ameaça ganha contornos inimagináveis. Nestes tempos mais exigentes, precisamos de uma luz que nos guie antes do silenciar do livre pensamento.

Por mais que custe a quem navega no divisionismo, tentando beneficiar dos seus efeitos perversos, a verdade é que nós somos descendentes da Lusofonia. Tanto em Portugal, como no Brasil, nos países africanos de expressão portuguesa e em todas as paragens onde a Língua Portuguesa permanece. Por essa ponte comum, a Lusofonia é a única janela aberta para os vários continentes, onde a Cultura se assume enquanto ato de resistência e de salvaguarda dos direitos fundamentais.

Tal como sucede na política, a Lusofonia destina-se às pessoas, a cuidar das pessoas e a preocupar-se com as pessoas integrantes do seu espaço. A Lusofonia não cria ou alimenta ódios, une. Não divide, soma proveitos comuns. Cumpre-nos a todos reassumirmos essa natureza, respondendo presente aos desafios atuais por recurso à cultura partilhada entre milhões de cidadãos. Porque só a aposta reiterada na Cultura permite a tolerância cultural e só a Cultura assegura o respeito multicultural.

Um princípio democrático inquestionável assenta na convicção de que o sistema capitalista não consegue alcançar tudo, pelo que a legítima aspiração dos cidadãos e o imprescindível elevador social necessitam da obrigatória intervenção do Estado, de modo a garantir, sobretudo, o equilíbrio social e cultural.

É precisamente por isso que os novos responsáveis políticos não podem ceder ao oportunismo demagogo de uma perspetiva tendenciosa de pequeno prazo. Devem optar pelas raízes, pelos princípios imutáveis, salvaguardando e priorizando a Lusofonia como a nossa maior vantagem competitiva, a nossa verdadeira consciência coletiva e o pilar essencial da nossa identidade.

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