Há dias que nos reposicionam na estrada. Andamos em viagem, entre curvas em torno de um eixo, e precisamos dos momentos que recentram. Nos muitos quilómetros percorridos em trabalho – no meu caso, já 37 anos de exercício – um jornalista vai acumulando memórias, rostos e vozes que moldam a estirpe, que enxertam um sentido no que faz e conta. São as pessoas que orientam o foco, a essência. Da mais quente denúncia numa investigação à mais calorosa e simples história humana, temos gente com gente a desenrolar narrativas.
O exercício jornalístico é sempre em relação, com um código de processos, ético e deontológico, mas sempre com pessoas, de pessoas e para pessoas. Teremos o direito de contar uma estória sem conhecimento direto ou a proteção de escudos? O mestre do jornalismo literário, Kapuściński entendia que «é errado escrever sobre alguém com quem não partilhamos pelo menos um pouco da sua vida». A fronteira entre a razão jornalística e a emoção de um envolvimento requer a honestidade, o distanciamento crítico como condição, mas percebe-se o que queria dizer o jornalista polaco.
No terreno da reportagem, o alimento do exercício jornalístico – sem o qual este deixa de ser – é a capacidade de espanto, essa semente de esforço e relação, que pode ser a de uma circunstância com gente ou de gente concreta, a procura factual da ‘verdade’, mas também o entusiasmo com a palavra e o olhar de alguém, a hesitação emocionada, a revolta verbalizada. O exercício é o que somos e quem somos com as pessoas, mesmo quando ousamos sobre elas escrever sem com elas termos falado, às vezes, vezes demais, de forma não discernida ou irresponsável.
No jornalismo televisivo, é o género nobre da reportagem – em especial, aquela que se aproxima das populações distantes, da pessoa isolada – que mais tem sido penalizado pelas circunstâncias. E há uma espécie de soberba. Sem uma anormalidade trágica ou absurda, que imponha uma incidência, um escândalo, as periferias ficam mais periféricas, não contam, não são ‘notícia’.
Temos de voltar à estrada com o critério do espanto. Precisamos da grande angular, mas só perscrutando uma estória sem rede somos levados ao pormenor que espanta. De nada nos serve o plano aberto sem o plano de pormenor. Como aquele barqueiro que faz a travessia do Guadiana: «Nem que seja só um passageiro por dia, não vai ficar sem atravessar». A diretora de um lar de idosos com uma longa lista de espera e pouca gente para trabalhar no setor: «Se não fossem os imigrantes, estávamos fechados». A educadora numa creche a mais de 200 quilómetros de Lisboa: «Precisamos de gente, que venham mais imigrantes e tragam a família». A adufeira no alto de Monsanto: “As pedras falam, a gente só tem de entender o que elas dizem”. As duas septuagenárias, únicas habitantes numa setentrional aldeia: «Aqui temos muito tempo para pensar, não há com quem conversar, conversa o cérebro com a língua». O gaiteiro no planalto: «Toco aqui, os vizinhos ouvem, mas não chega a quem devia». A peregrina em caminho: «Vou aqui para respirar, precisamos de respirar fundo». O oleiro com mãos sujas de barro: «Isto não é sujidade, é arte». Ou a mulher da raia beirã, a olhar para Espanha à espera de Portugal: «Aqui ninguém vem, somos nós e a vontade de ser».
Há um país periférico capaz de espantar, real, de vidas e com vida. Gente com sabedoria, que nos faz rever planos de viagem, os lugares e o nosso lugar. Entre curvas e lições de humildade, uma estrada é mais do que uma partida e uma chegada.