quinta-feira, 12 fev. 2026

Migrações e os seus impactos

As migrações não são apenas movimentos de pessoas ou bens, mas sim catalisadores de transformação global: podem ser motores de progresso ou veículos de risco.

Desde os primórdios da existência dos hominídeos, observou-se a tendência para migrar para outras regiões, motivada sobretudo por fatores ambientais e pela disponibilidade de recursos — seja na procura de alimento, na busca de condições climáticas mais favoráveis ou na necessidade de ultrapassar barreiras e enfrentar desastres naturais. Alterações climáticas, principalmente mudanças entre períodos secos e húmidos, criaram e removeram corredores de migração, enquanto que o aumento populacional conduzia também à diminuição dos recursos naturais, criando por isso necessidade de movimentação. Homo erectus foi o primeiro hominídeo a migrar para fora de África, começando a sua jornada há cerca de 1.8 milhões de anos atrás, tendo-se seguido migrações de outros hominídeos, incluindo H. heidelbergensis e H. sapiens. Desde essa altura, os hominídeos sempre demonstraram curiosidade e vontade de conhecer novas regiões, passando pela Era da Exploração, que se estendeu entre os séculos XV e XVII, em que exploradores europeus exploraram, colonizaram e conquistaram diversas partes do mundo até ao presente com as viagens à Lua e todos os esforços para viajar para além da Lua. As migrações têm diversas vantagens, incluindo crescimento económico, enriquecimento cultural, avanços em inovação e diminuir as necessidades laborais em certas áreas. No entanto, tem também algumas desvantagens, nomeadamente o esforço nos serviços públicos com necessidades rápidas de adaptação que não são geralmente possíveis e como tal potenciais fricções sociais e culturais. Uma das principais desvantagens é a introdução de novos agentes infeciosos ou a reintrodução de agentes previamente eliminados ou erradicados. Durante a Era da Exploração, entre 1492 e 1650, doenças causadas por agentes infeciosos introduzidos por exploradores europeus, mataram cerca de 90% de todos os nativos americanos nas Américas, sendo considerada uma das maiores perdas demográficas na história da humanidade. As invasões mongóis e subsequente controlo das redes de trocas facilitaram a disseminação da peste bubónica, conhecida por peste negra e causada pela bactéria Yersinia pestis. Embora o número certo não seja conhecido estima-se ter causado na Europa, durante o período de 1347 e 1351, a morte de 75 a 200 milhões de pessoas, sendo frequentemente referenciado que terá causado 25 milhões de mortes. Isto corresponde a uma perda de 30 a 60% da população total do continente europeu. Mais recentemente, verificou-se a mesma situação com a pandemia de SARS-CoV-2 que começou em 2019 na província de Wuhan, na China e que causou mais de 7 milhões de mortes mundialmente, tendo afetado 229 países até à data. Adicionalmente, não se verifica apenas a transmissão de agentes infeciosos através de migrações, mas também de organismos vetores de transmissão de doenças, como é o caso de mosquitos. Em 2017, deu-se a primeira deteção do mosquito Aedes albopictus em Penafiel e que ocorreu através da importação de pneus que continham o mosquito, demonstrando que também as rotas comerciais podem impactar a saúde das populações e a facilitar a introdução de agentes patogénicos e organismos vetores de transmissão de doença. Mais recentemente, a deteção da estirpe selvagem da poliomielite, vírus selvagem da poliomielite tipo 1, em águas residuais na Alemanha pelo Instituto Robert Koch, evidencia ainda mais o impacto que as migrações, turismo e rotas comerciais têm na saúde pública. Este resultado surge após declaração de erradicação da polio na região europeia em 2002 de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), sendo que o vírus selvagem da poliomielite tipo 1 não se encontra erradicado apenas em dois países, Afeganistão e Paquistão, apesar do constante esforço conduzido para imunização destas populações, com um decréscimo acentuado todos os anos dos casos de poliomielite. Nenhum caso de doença associada a este vírus foi diagnosticado na região europeia, tendo apenas sido detetado em águas residuais. Esta deteção representa um risco baixo para as populações europeias devido à cobertura generalizada de vacinação na Alemanha e na região Europeia. No entanto, e devido ao crescente ceticismo em relação às vacinas, e pese embora a cobertura ainda seja elevada, o nível de cobertura decresceu na Europa de 95% para a terceira dose em 2019 para 93% em 2024.

Assim, as migrações não são apenas movimentos de pessoas ou bens, mas sim catalisadores de transformação global: podem ser motores de progresso ou veículos de risco. Cabe-nos, enquanto sociedade, garantir que os benefícios superam os perigos, porque no fundo, migrar é inevitável.


Investigadores do Laboratório de Análises do Instituto Superior Técnico