As investigações abertas em Portugal há dois anos por suspeitas de corrupção, fraude fiscal, falsificação e branqueamento de capitais no âmbito da operadora de telecomunicações Altice, que levaram á constituição como arguidos, entre outros, de Armando Pereira, cofundador do grupo, e Alexandre Fonseca, ex-CEO do seu ramo nacional, desembocaram hoje numa vasta operação em diversas localidades de França, onde a empresa foi fundada, levada a cabo pelas autoridades judiciais gaulesas, para investigar suspeitas de corrupção «em prejuízo do grupo», segundo revelou em Paris o procurador financeiro da República.
Definida como uma «operação judiciária ampla», a ação policial francesa, atribuída ao Departamento Central de Luta contra a Corrupção e às Infrações Financeiras e Fiscais deste país, mobilizou à volta de 70 investigadores em buscas efetuadas em 15 moradas particulares e 14 sociedades nas regiões de Île-de-France (que abrange a capital), Var, Vosges e na ilha de Córsega. Nestas buscas, foram apreendidos 14 milhões de euros em contas bancárias, assim como veículos e objetos de luxo, segundo o procurador francês. As autoridades judiciais daquele país admitiram que a investigação foi desencadeada com o apoio das suas congéneres portuguesas, em articulação efetuada através do Eurojust.
"Esta ação coordenada teve como objetivo recuperar provas úteis para a investigação em curso", enfatizou o responsável da Procuradoria Nacional Financeira em comunicado, especificando que "mais de 14 milhões de euros" foram apreendidos em contas bancárias, "bem como veículos e bens de luxo".
Estas investigações inserem-se no âmbito de um inquérito do qual teria sido vítima o operador de telecomunicações. Concretamente, uma rede de empresas de fachada entre a Altice e os fornecedores teria permitido “a sobrefacturação de serviços e bens”, detalha o comunicado, especificando que “os fundos assim obtidos teriam alimentado mecanismos de branqueamento envolvendo estruturas sediadas em França e no estrangeiro, em benefício dos principais instigadores deste sistema”.
Em Portugal, a investigação foi iniciada pelo procurador da República Rosário Teixeira e pelo inspetor Paulo Silva, da Autoridade Tributária de Braga (os responsáveis pela Operação Marquês, que levou ao julgamento, atualmente em curso, do ex-primeiro-ministro José Sócrates, entre outros), os quais, segundo fontes judiciais francesas contactadas pelo Nascer do Sol, têm estado a dar assistência à equipa que em França desencadeou as buscas agora levadas a cabo.
Esta investigação resultou na detenção e posterior constituição como arguido do cofundador da empresa, Armando Pereira, também sócio e amigo de Patrick Drahi, maior acionista do grupo em França.