quinta-feira, 12 fev. 2026

É fartar, ó vilanagem

Três décadas depois do célebre artigo de Paulo Mendo, a história repete-se: mudam os protagonistas, permanecem as mesmas resistências  e os mesmos reflexos.

Em 1993, Paulo Mendo, então diretor do Hospital de Santo António, no Porto, publicou no Jornal de Notícias um artigo com este título – É fartar, ó vilanagem. Nele denunciava – com coragem e ironia – o coro de ataques de que os hospitais portugueses e o ministro da Saúde da época, Arlindo de Carvalho, eram alvo por tentarem reformar o Serviço Nacional de Saúde e obrigar médicos recém-especialistas a exercer no interior durante os primeiros anos de carreira.

Três décadas volvidas, a história repete-se: mudam os protagonistas, mas persistem as mesmas resistências e os mesmos reflexos.

Desde o início da democracia, cada tentativa de modernizar e racionalizar o SNS foi recebida com desconfiança e ruído. Sempre que um ministro procurou reformar, ergueram-se barricadas em nome de uma suposta defesa do serviço público – quase sempre, porém, para proteger posições consolidadas. O que é novo é apenas a amplificação mediática; o mecanismo é o mesmo.

Foi assim com António Arnaut, o fundador do SNS, que enfrentou de imediato a oposição da Ordem dos Médicos e de algumas das figuras mais influentes da medicina de então, receosas de perder poder com a criação de um sistema público e universal. Foi assim com Leonor Beleza, quando ousou reorganizar os hospitais, introduzir novos modelos de gestão, e racionalizar recursos com uma nova lei das carreiras médicas, enfrentando greves e manifestações que marcaram a década de 1980.

Foi assim com Arlindo Carvalho, que procurou modernizar estruturas, regenerar e regionalizar o Serviço Nacional de Saúde. E foi assim também com Maria de Belém, que viveu as célebres greves ‘self-service’ e o desgaste de uma administração pública que há muito precisava de reforma.

Mas, no final, as reformas foram feitas, e resultaram.

E é assim, uma vez mais, com Ana Paula Martins.

A atual ministra da Saúde tem procurado governar com serenidade e com rumo, consciente de que o SNS, tal como o conhecemos, não resistirá se não for capaz de mudar. É por isso que é criticada: porque tenta reformar. Porque resiste à tentação fácil do discurso populista e às pressões de ocasião. Porque prefere enfrentar o incómodo da mudança a pactuar com o conforto da estagnação.

Convém recordar algo que parece, por vezes, esquecido: o SNS pertence aos portugueses. São eles, com o seu trabalho, os seus impostos e o seu esforço coletivo, que sustentam o seu funcionamento e financiam a formação dos médicos, enfermeiros e técnicos de saúde. É do suor e da contribuição de milhões de cidadãos que nasce a possibilidade de termos um sistema público, universal e tendencialmente gratuito. Por isso, defender o SNS é também respeitar quem o paga – garantindo que cada euro é bem aplicado e que cada reforma visa servir o doente, e não apenas proteger estruturas.

Ana Paula Martins tem demonstrado coragem política, lucidez técnica e sentido de Estado. Reformar a saúde é sempre um ato de risco, mas é também um dever de responsabilidade. As mudanças que propõe – na organização dos cuidados, na valorização dos profissionais e na eficiência da gestão – não são ameaças ao SNS: são a sua única garantia de sobrevivência.

Tal como em 1993, também hoje se repete o mesmo enredo: confunde-se o interesse público com o ruído, o argumento com o ataque, a prudência com a hesitação. Mas, como então, o tempo fará justiça a quem soube agir quando o mais fácil seria desistir.

Porque o SNS precisa, mais do que unanimismos retóricos, de coragem para reformar. E essa coragem, felizmente, ainda existe.

Governar com rumo é, e continuará a ser, o melhor antídoto contra a demagogia.

Médico