O problema da ‘segurança’ ganhou, recentemente, uma importância central na comunicação social.
Isso acontece, não porque as estatísticas digam que se verifica uma mudança significativa no número e gravidade dos casos que contribuem para a relevância a dar a tal questão, mas por esse tema ter passado a importar ao discurso populista de algumas individualidades e forças políticas em ascensão.
E, tendo assim obtido um lugar privilegiado na televisão, na rádio ou nas notícias dos jornais, a verdade é que a ‘(in)segurança’ e os seus discursos passaram, também, a recolher a atenção preocupada dos cidadãos.
Ocultos por tal tema – a ‘(in)segurança’ – ficam, entretanto, os problemas sociais e as estratégias económicas que, verdadeiramente, lhe estão na origem e que a muitos não convém, sobretudo agora, discutir politicamente.
Refiro-me, entre outros, aos baixos salários e pensões, à tentativa permanente de subjugação dos trabalhadores e à erosão dos seus direitos; à deficiente política de urbanização dos centros populacionais e à falta de habitação acessível; à qualidade e escassez de transportes públicos e à racionalidade e cumprimento dos seus horários; à carência de creches e à indisciplina nas escolas, que é gerada, precisamente, pela falta de professores e vigilantes; à escandalosa falta de resposta das urgências do SNS; ao crescente amesquinhamento das instituições e funcionários do Estado, fomentado, precisamente, pelos que querem fazer das funções públicas e do bem comum um negócio privado.
Sim, claro, há, também, um problema de atropelo dos direitos fundamentais dos outros, principalmente dos mais idosos e das crianças, problema que aqueles fatores sociais propiciam, alterando a cultura e os hábitos comuns de civilidade e solidariedade que, mesmo sem alimentarmos sobre eles lendas e ilusões, pontificavam, apesar de tudo, entre nós.
Não são, todavia, os que mais falam de ‘insegurança’ os que mais a sofrem: estes vivem, em geral, tranquilos nos seus condomínios fechados.
Para eles, a ‘(in)segurança’ não passa, afinal, de um pretexto destinado a apontar, falsamente, quem dizem ser responsáveis pela situação de angústia e receio que a todos – nacionais e estrangeiros – reserva o dia de amanhã: os imigrantes e os refugiados.
A questão da (in)segurança afeta, porém, preferencialmente, os mais carenciados, os que vivem em áreas suburbanas e degradadas, os que, devido à distância entre o local de trabalho e a residência não têm tempo para ver, estar e educar os filhos durante o dia, os que, não vendo respeitados os seus direitos laborais e, devido aos parcos salários auferidos, se desdobram e esgotam em diferentes ocupações.
Sim, são estes os que mais afetados são pela ‘(in)segurança’.
Sim, ela vai realmente crescendo, mas na medida inversa da visível diminuição da esperança num futuro melhor para a maioria dos cidadãos.
É, pois, importante não abandonar o discurso sobre a ‘(in)segurança’ aos que, em vez de cuidarem das suas causas e das necessárias respostas para as resolver, propõem, unicamente, soluções de compressão crescente dos direitos, liberdades e garantias de todos, contribuindo, assim, para ampliar o medo e a submissão que este gera.
O sentimento de ‘insegurança’ passou, pois, a existir – existe – e merece, por isso, uma resposta política clara, coerente, eficaz e, sobretudo, fundada sempre na consideração e no respeito pelos direitos e a dignidade humana de todas as pessoas que vivem em Portugal.