Tempo livre contado ao cronómetro

Até o tempo livre tem de vir pejado de regras, críticas e pressões, tornando-se mais um espaço de rendimento.

Já lá vai o tempo em que as tardes livres significavam tempo de ócio. Hoje em dia, as crianças começam a preencher o tempo livre desde tenra idade com atividades e desportos que, muitas vezes, de livre têm muito pouco, e que lhes ocupa o que resta do dia desde a saída da escola até à hora do jantar.

Se, por um lado, praticar desporto apresenta enormes benefícios, por outro cada vez mais tem um lado oculto – a que nem sempre estamos atentos ou que encaramos com relativa naturalidade – que representa o oposto do que se pode considerar saudável.

No clube onde um dos meus filhos treina futebol, tal como em praticamente todos, é raríssimo os treinos terminarem a horas. Assim, chegada a hora marcada, enquanto as crianças estão em êxtase com a ansiada fase final dos remates, fora do campo os pais começam a ficar cada vez mais impacientes com os minutos que passam.

Quando, finalmente, os primeiros são dispensados e vão ter com os pais entusiasmados, o ânimo esmorece-se ao serem recebidos com má cara e repreensões: ‘Estou aqui há horas, ainda tenho de ir fazer o jantar e vocês ali (imagine-se!) a brincar! Isto é gozar com as pessoas!’. Estão claramente em diferentes comprimentos de onda e, na verdade, as crianças são muitas vezes apanhadas desprevenidas, porque não usam relógio, vivem ao sabor do que lhes dizem e limitam-se a sair quando o treino efetivamente terminou.

Pior ainda é que, horas antes, alguns de nós assistimos a outras ou às mesmas crianças a voarem da escola pela mão dos pais ou dos avós, que lhes carregam a mochila e a lancheira desajeitadamente, enquanto repetem: ‘Depressa, depressa! Já vamos chegar atrasados…’ – seja à natação, à patinagem ou a qualquer outra atividade.

E ao fim-de-semana é que são elas: é o dia dos jogos, das provas e das competições, ou seja, o momento em que os mais novos vão provar afinal para que serviu a correria e aquele esforço de todos ao longo da semana.

Mal o árbitro apita, os adeptos começam a ficar impacientes. Arranjam um lugar onde possam ser bem ouvidos – há até quem se posicione bem próximo do filho – e, assim que o jogo começa, não se contêm a disparar dicas, conselhos, impropérios e repreensões para os filhos, colegas, adversários e árbitros. Vale tudo: ‘Se era para isto ficavas em casa’, ‘Usa a cabeça’, ‘Passa a bola’, ‘Vai para a esquerda!’, ‘Corre para a direita!’, ‘Porque é que não tiram o Xavier que não está ali a fazer nada?’, ‘Olha o Toni ali isolado!’, isto na versão mais soft, claro. E os miúdos, caso ouçam, ficam ainda mais nervosos e pressionados.

Parece que nos esquecemos de que esta era aquela parte da vida em que as crianças estavam nos ‘tempos livres’. Aqueles momentos de lazer para descomprimir do que fazem na escola ao longo da semana, que exige regras, obrigações e avaliações.

Talvez este seja um dos maiores paradoxos dos nossos dias: até o tempo livre tem de vir pejado de regras, críticas e pressões, tornando-se mais um espaço de rendimento, resultados e evolução. Onde os mais novos tornam-se as vítimas e também os causadores, do stress, da ansiedade, das expectativas e das frustrações dos pais. Como se até os momentos de lazer, para serem bem aproveitados, tivessem de produzir algo de útil.