terça-feira, 10 fev. 2026

Seguro (re)afirma as origens

Não foram ‘estados gerais’ à moda do PS mas uma convenção de apoio à candidatura presidencial do antigo secretário-geral. Que reuniu destacadas personalidades de todos os quadrantes do partido, e não só.
Seguro (re)afirma as origens

António José Seguro promoveu a Convenção de Aveiro – Democracia de Confiança, Democracia de Oportunidades –, que decorreu neste sábado, 15 de novembro, e congregou uma quantidade significativa de nomes, distribuídos por quatro painéis a decorrerem em simultâneo, como os socialistas Carlos Zorrinho, Francisco Assis, João Soares, Filipe Neto Brandão, Luísa Salgueiro, Miguel Costa Matos e académicos como Susana Coroado, Susana Peralta, Sónia Sénica, Amílcar Moreira, Luís Aguiar-Conraria, Rita Faria ou Bernardo Ivo Cruz, a que se juntam os embaixadores Ana Gomes, Francisco Seixas da Costa e José de Freitas Ferraz.

Não é claro que todos os envolvidos na convenção sejam apoiantes públicos do candidato, mas estiveram no Centro de Congressos de Aveiro para debater e ajudar Seguro a consolidar uma visão do que é a Presidência da República, assente em quatro pilares: novas fronteiras da democracia; novas fronteiras económicas e da sustentabilidade; novas fronteiras sociais; e novas fronteiras de Portugal no mundo.

Elementos ligados à candidatura de Seguro reagem – e não muito bem – quando se fala em ‘estados gerais’, numa clara alusão a uma prática muito do Partido Socialista: um espaço de reflexão e debate interno aberto à participação de militantes (aqui, apoiantes) e especialistas, lançado em momentos estratégicos do partido (aqui, do candidato). Da mesma forma, a referência – essa, assumida – ao Congresso Democrático de Aveiro, em abril de 1973, tem evidente leitura política. Mas já lá vamos.

Entretanto, perguntamos: porquê agora, a menos de dois meses das eleições presidenciais, uma convenção para consolidar ideias e ouvir a sociedade civil? A resposta é um bocado óbvia: o calendário eleitoral. O ano de 2025 não foi um ano igual aos outros – em maio, legislativas; em outubro, autárquicas; e logo a seguir, em janeiro, presidenciais.

Não há nada que provoque mais urticária ao candidato presidencial do que a problematização – ou dramatização – sobre se é um candidato do centro, da esquerda ou até de uma certa direita. A resposta de Seguro, seja qual for a forma como a pergunta lhe é feita, passa sempre por incluir que pertence esquerda «moderada» e «moderna» que «se afirma com soluções concretas para os problemas das pessoas», rejeitando rótulos simplistas. Apresenta-se como um candidato «que veio para unir os portugueses», que não se limita ao eleitorado tradicional da esquerda ou do Partido Socialista – de que foi líder –, fazendo crer que o fato presidencial feito à sua medida é o de independente, «um presidente de todos os portugueses», e não apenas de uma parte do país ou de um grupo ideológico. Uma candidatura que surgiu «de cima para baixo», criada e concretizada à margem de «combinatas com partidos políticos».

À hora a que escrevemos este texto, ainda não sabemos o que dirá Seguro de novo quando fizer o discurso de encerramento da Convenção de Aveiro – se é que dirá algo de muito diferente do que tem dito até agora. Muito provavelmente, insistirá na leitura que tem vindo a fazer dos poderes presidenciais, acima dos partidos, não muito diferente do que têm feito os presidentes até aqui, com mais ou menos cumplicidade com este ou aquele líder de governo, do PS ou do PSD.

Em conversa com Jorge Marrão, gestor, retired partner da Deloitte, apoiante de António José Seguro e envolvido com o candidato na realização desta iniciativa em Aveiro, perguntamos se a convenção não é uma forma de cativar, mais claramente, o eleitorado de esquerda. Marrão considera que Seguro «não precisa de se afirmar no eleitorado como um todo, as suas origens e os seus valores são mais do que evidentes» e reforça a «ideia suprapartidária da candidatura presidencial, que ele quer manter, mas, obviamente, nunca arrogando as suas origens».

Quanto à ideia de uma convenção que mais parece uns ‘estados gerais’, Marrão diz que «é abusivo» e explica: «Os estados gerais são uma reflexão partidária, isto é uma reflexão de país, não tem nada a ver».

Da convenção deverá, então, sair «uma consolidação de ideias» para uma futura Presidência. Insistimos no propósito da convenção nesta fase de pré-campanha, com vista à captação de eleitorado. Marrão respondeu-nos que «é óbvio que vai oscilando em vários eleitorados, o que não é um problema. A questão central é que não há eleitorados cativos de ninguém, é a forma como se apresenta que vai capturando eleitorados. É uma experiência que o país está a ter com esta candidatura» – sendo que não é caso único, outros candidatos assumem o mesmo tom. Jorge Marrão antecipa que Seguro pode surpreender nos debates, uma década de afastamento, «de recato», é uma vantagem para o candidato.

Do III Congresso da Oposição Democrática, realizado também na cidade de Aveiro, nos primeiros dias de abril de 1973, em pleno marcelismo, saiu, entre outros, o documento dos Três D de José Medeiros Ferreira: Descolonizar, Democratizar, Desenvolver. Um documento que veio a ser uma referência para o Movimento das Forças Armadas (MFA) após o 25 de Abril de 1974.

Por mais voltas que dê, Seguro regressa às origens. Mesmo num tempo marcado por um novo ecossistema comunicacional e por uma evidente polarização política, em que o debate tem de ser outro, o candidato vai ainda assim ao centro-mais-à-esquerda apanhar balanço – pelo menos, é a ideia que fica.