terça-feira, 10 fev. 2026

Sei Miguel. Algo além dessa dieta de fados

1961-2025. O músico que deu a Lisboa um eco capaz de um hábil e constante improviso.
Sei Miguel. Algo além dessa dieta de fados

Tanto som, tantas voltas, tanto desaire e experiências múltiplas… E tudo nos cansa. A música persiste por aí no seu vício, sempre a recomeçar, toda coçada, mas dá a sensação que aquilo que nos traz são apenas velhas primaveras, algumas só retocadas, e seguimos embalados por esse vago aroma indefinido. Sei Miguel parecia cortar com esse embalo desesperado como quem reconquista um princípio de esforço, tudo menos natural. Agora que desapareceu, tendo sucumbido à atrofia muscular espinhal que lhe fora diagnosticada há alguns anos, ao tentarmos retraçar-lhe o percurso vemos como nos deixou uma marca que não é de volume ou de presença massiva, mas de marca no sentido exato: um modo de intervenção e uma linguagem que outros ouviram e reinterpretaram – sobretudo em Lisboa, local de sedimentação dessa escuta, dessa generosidade de ferramentas que legou a músicos que estariam preparados para ouvir mais do que tocar. Como o mar inteiro sob uma vaga, Sei Miguel era o tipo de músico para quem bastavam algumas notas, poucas, para exigir um outro nível de escuta: não no sentido teatral, mas como tensão contida, atenção permanente, uma lógica interna que atravessava a sala, o clube, o estúdio. No ponto onde o silêncio e o som se encontram, na construção do espaço e do tempo entre cada gesto instrumental, era daí que ele partia. O trompete de bolso, o seu instrumento de eleição, era uma espécie de lente através da qual interpretava o mundo e a própria música, medindo respiração, pausa e inflexão como se cada pequeno gesto fosse decisivo para a arquitetura sonora. A atenção ao detalhe, ao mínimo desvio, à interação inesperada entre músicos, mais do que assinatura era um método. Era decisivo compreender como cada nota podia transformar a lógica do que vinha a seguir. Este Jazzman, como se descrevia, um trompetista e compositor que a revista Wire identificou como «o segredo mais bem guardado da nova música portuguesa», morreu na terça-feira, aos 64 anos, e deixa-nos uma série de enredos instigantes e passagens, quatro décadas de trabalho intenso, improvisação rigorosa, encontros musicais que documentam não apenas um modo de ir além musicalmente, mas eixos, possibilidades de se ver incorporado, essas cumplicidades e ligações que definiram o modo como se inscreveu na subtil vaga de motins da cena jazz lisboeta.

Ele emergiu de uma geografia móvel – nascido em Paris em 1961, infância e adolescência passadas entre França e Brasil – e fixou-se em Lisboa nos anos oitenta, sem requintes de desembarque ou declaração de missão. Breaker (1988), Songs Against Love and Terrorism (1989) e The Blue Record (1990), todos lançados na Ama Romanta, a editora de João Peste, marcam já essa lógica composicional: trio com Fala Mariam e Rodrigo Amado, Luís Desirat em algumas faixas, gravações que não se limitam à performance, mas estruturam o silêncio, o espaço entre músicos, o tempo mínimo de cada gesto instrumental. A capa de Breaker era de Jorge Colombo. Cada detalhe visual ou sonoro está pensado como extensão da música, cada decisão de arranjo refletia a atenção ao mínimo desvio.

No fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, a sua música cruza-se com a movida lisboeta: colaborações com Pop Dell’Arte em Ready-Made (1993) e All You Need Is Money (1995), participação no tema Euforia dos Ban (1989). Mesmo nesses contextos, a música própria permanece intacta, sem ir à boleia de expectativas externas. Nos anos seguintes mantém esse princípio de observação, prática de uma escuta rigorosa, tanto do músico quanto de quem estava a ouvir. Trabalhos dispersos, edições na AnAnAnA, depois na Headlights (Still Alive in Bairro Alto, 2001; Ra Clock, 2002), registam variações na formação, na instrumentação, no uso de percussão e eletrónica. Cada álbum funciona como documento de interações complexas: trompete de bolso, trombone, guitarra, percussão, todos sujeitos à atenção radical ao detalhe e à lógica interna de cada peça.

Quando a atrofia muscular começou a limitá-lo de forma drástica, procurou fazer a expansão por outros lados. Adaptou-se, assumindo o nome Seu Barradas, concentrando-se na percussão, nos gestos mínimos que mantinham a coerência da tal arquitetura sonora. Em 2023, lança quase consecutivamente Road Music, Um Um Um E Não Há Forma De Morrer e The Original Drum, cada projeto com formações diferentes, explorando interações complexas e deslocamentos de timbre, pausas e respirações que marcavam o seu método desde os primeiros discos.

Nos últimos anos, Panorama (trio com Fala Mariam e Daniel Levin, 2024) e February Find (ao vivo na Cossoul, 2025, com Ernesto Rodrigues, Fala Mariam e André Hencleeday) continuam essa prática de densidade e rigor. Quanto às dificuldades em encontrar um espaço que se deixasse desafiar, uma cena que lhe reconhecesse o seu lugar e importância, fica claro que está ainda quase tudo por desbravar, reconhecer. Em grande medida Sei Miguel ainda vai criar-se, ainda está na crisálida, a aguardar que o nosso ouvido amadureça para que a sua metamorfose possa explodir e semear em nós uma reação em cadeia. De resto, a sua leitura do espaço à volta era bastante dura, e como assinalou em 2010, numa entrevista ao Ípsilon, é difícil fazer a diferença perante o atual cenário: «O jazz cada vez mais instituído, o jazz pseudoglobal e da União Europeia Caga Regras (UECR), não me quer. E eu, assim como ele se tornou, também não o quero. Importa-me o jazz verdadeiro. O resto (e é muito) que se lixe».