Mais uma semana, mais uma volta, é como se tudo tivesse de mudar para tudo ficar na mesma.
Mais uma, duas ou três entrevistas do Ventura na televisão.
Mais um, dois, três bebés que tiveram de nascer na estrada, porque as urgências estão fechadas mas as portagens continuam abertas.
Mais uma semana em que Montenegro tenta segurar a Ministra da Saúde. O país discute a palavra do ano, mas não-me-demito podia ser uma delas.
As televisões concentram as suas equipas e estendem a sua programação para acompanhar novamente as eleições do Benfica, há duas semanas foi a brincar, agora é que é, vamos lá cambada, toca a bater mais um recorde do Guinness, o Benfica é a primeira equipa com zero pontos na Champions a conseguir mais de 93 mil adeptos a votar para que tudo tenha de mudar para tudo ficar na mesma.
Camilo Lourenço entretanto continua a lançar directos para a CMTV do seu automóvel, é como se ele estivesse na margem sul à procura de uma urgência obstetrícia aberta.
O assalto ao Louvre continua a aparecer regularmente nos nossos noticiários, como se tivesse mais interesse uma cena em Paris que o roubo de catedral que foi a vitória foi Sporting nos Açores depois de um canto que não existiu.
É o INEM que ia chamar-se ANEM mas afinal fica INEM.
É o IRA que podia usar luzes de emergência mas afinal já não pode.
É o projecto da Casa das Conchinhas em Chelas que ia ser habitação social, até aparecer inesperadamente na lista de imóveis a vender pelo Governo, obrigando as redes sociais a chamar a atenção para a escandaleira que aquilo seria, vender o barato caro, roubando aos pobres para dar aos ricos, ainda foi o Governo a tempo de recuar e referir que se tratou afinal de um lapso
O país vive destes lapsos que aparentemente contagiam tudo e todos, e até o Ministro da Defesa, Nuno Melo, comprou helicópteros que não servem nem para missões militares nem para socorro de emergência, mas defendeu-se referindo no Twitter que são uma excelente escolha para “evaquação” (‘sic’) médica…
Se o Governo utilizasse corrector-automático nada destas trafulhices aconteceriam decerto.
Entretanto, e só para sair deste labirinto de ideias, Carlos Moedas apareceu nas páginas da Hollywood Reporter a sugerir que a série da Netflix, Emily In Paris, tivesse uma versão filmada em Lisboa, à semelhança da temporada filmada em Roma. Pela primeira e última vez na vida, terei de concordar com Moedas: Emily in Lisbon seria finalmente uma versão realista da série, não tenho qualquer paciência para a versão imaculada e escapista parisiense que as pessoas idolatram, uma temporada passada em Lisboa e a pobre da Emily teria de enfrentar os problemas mortais de todos nós, como as rendas altas, as ruas sujas, o trânsito infernal, a recolha de lixo adiada, eu era capaz de finalmente me interessar por Emily in Lisbon. “Podem contactar-me”, disse Moedas ao Hollywood Reporter, no âmbito do mais recente Festival Tribeca em Lisboa. Ficamos a aguardar.
Voltando à vaca fria, a semana passada André Ventura foi entrevistado três vezes em sete dias pelas nossas televisões, uma das quais pela Júlia Pinheiro, no seu programa da tarde da SIC. Ou seja, o Ventura saiu da bolha política para entrar no domínio doméstico. Sim, é verdade que a Júlia Pinheiro garante que vai entrevistar todos os candidatos presidenciais de igual forma, que todos os canais vão dar igual destaque a todos os candidatos presidenciais, que o Goucha provavelmente também vai querer falar com todos, que a Cristina Ferreira também vai querer falar com todos, que a Praça da Alegria também quererá ter todos, e depois ainda vêm as rádios, os podcasts, os programas de comédia, a única garantia que temos para já é que o RAP vai convidar todos menos um, e isso, confesso, é o único conforto que me resta.
De qualquer forma, Júlia Pinheiro recebeu André Ventura com aquele ar de bonomia e paternalismo de quem vai dar uma lição ao Tonecas, “chama-o cá que eu trato dele”, ela acha que, com chá e simpatia, a coisa vai ao sítio, como se um político reagisse a factos e evidências, por mais mundanas e almiscaradas que elas sejam.
Mesmo quando a Júlia Pinheiro tentou encurralar Ventura, insinuando que “ele vai a todas”, como se não houvesse mais ninguém de jeito no partido, deu ideia de que não teria noção de que as qualidades dos deputados nunca estão sob escrutínio pelas televisões que os convidam; mesmo que os restantes deputados sejam medíocres, para não dizer pior, isso não os tem impedido de chafurdar nos canais indígenas, em alguns casos como painelistas fixos. A Júlia Pinheiro, que anda nisto há anos, sabe muito bem que as televisões não têm qualquer problema em descer ao nível do estado em que o país se encontra, principalmente se for essa a única forma ou a forma mais urgente de garantir mais audiências.
Em absoluto contraciclo continua a Filomena Cautela na nova temporada de Programa Cautelar, “um programete que dá às terças sabe Deus a que horas na televisão pública com aquela que engravidou do Super Pai nos Morangos com Açúcar” (palavras suas).
Felizmente, o Programa Cautelar é muito mais que isso, é activismo com humor, é um hino de resistência contra o status quo, não apenas o status quo político e social, mas, acima de tudo, o status quo audiovisual. Porque é um milagre ainda haver um programa destes, e a Filomena sabe-o: “Quando a democracia quinar, não apanham disto nem no canal Memória”.
O próprio modelo televisivo é esdrúxulo (para não dizer tóxico) em Portugal, porque se trata de um monólogo de 45 minutos, tipo Daily Show, em que Filomena Cautela descontrói assuntos que em muitos casos já nem os noticiários têm vagar para abordar (a semana passada foi o consumismo).
Trata-se de um programa de investigação editorial e tutorial, sem nunca ser moralista ou sentencioso. O maior defeito parece ser a duração: eu reduzia de 45 para 25 minutos, mas é sabido que os slots do primetime na televisão pública também são rigorosos, mesmo para aquela que engravidou do Super Pai nos Morangos com Açúcar.
Para finalizar uma correção: escrevi há duas semanas que a morte de Maria de Lourdes Pintasilgo tinha calhado no primeiro mandato presidencial de Cavaco Silva, mas um leitor alertou-me para esse lapso, afinal de contas não é apenas o Ministro da Defesa que se pode enganar: Jorge Sampaio, não Cavaco, era o Presidente da República aquando do falecimento de Lourdes Pintasilgo, e o país vivia esse momento doloroso que era a derrota na final do Euro 2004, perdão, a transição governamental de Durão Barroso para Santana Lopes, e portanto teremos de concluir que não ocorreu a qualquer de algum dos políticos incumbentes o imperativo moral e institucional de propor uns dias de luto nacional pela morte de uma ex-primeira-ministra. Outros tempos. Fosse agora e as redes sociais, ou a Filomena Cautela, não teriam deixado passar.