Nota prévia: Quanto mais se aproximam as presidenciais melhor se percebe que Gouveia e Melo não tem as condições essenciais para ser Presidente da República. A forma agreste como reage a questões simples e óbvias que o envolvem mostra que lhe falta a carapaça de indiferença que a política exige. Não quer dizer que não ganhe a corrida e não possa melhorar. O problema é que estes tempos requerem gente experiente e fria e não estagiários emotivos.
1. A cabeça rapada com forma de ovo, os óculos, a imagem de rigor, a vida discreta e ascética, a mensagem ora críptica ora disruptiva e sempre dada a interpretações variadas, o mistério acerca das suas intenções, os cochichos dos seus supostos confidentes e dos que no jornalismo antigo eram citados como observadores, transformaram Passos Coelho num depositário de ética e não noutro político em pousio a ganhar dinheiro. Apesar disso, os seus apaniguados avaliam-no de formas diferentes. Para uns, é o sábio visionário que voltará para salvar um Portugal que se afunda e construir um modelo exigente, sem parasitismos sociais, alimentando quem precisa mesmo em vez da preguiça. E como tal completará o destino que lhe interromperam há dez anos com uma oportunista ‘geringonça’. Para outros (menos), é só alguém desinteressado, preocupado, um pouco tímido até, que alerta para a perdição, sem interesse em regressar. Fora dos admiradores não falta quem o veja como inspirador maquiavélico de políticas neoliberais que acabarão com o estado social, criando um aterrador sistema de exploração dos mais frágeis. Seja lá o que ele for, uma espécie de Dalai Lama ou um político-partidário à espera do momento para regressar quando tudo falhar, Passos usa a sua influência ascética, que alguns até comparam à do homem de Santa Comba, dadas a austeridade e a reserva da sua vida pessoal. Paira sempre sobre esta suposta sebastiânica figura uma enorme atenção mediática que usa quando quer. Tudo sem que alguém possa dizer que conhece os desígnios de quem remete para lendários monges budistas dos mosteiros dos confins himalaicos, que tanto podem passar anos em meditação, como virarem poderosos guerreiros, mestres em artes marciais. Os passos que Passos dá ou deixa de dar são sempre motivo de especulações políticas e ele sabe-o. Mas uma coisa é certa: não é dos que escolhe o caminho da facilidade para atingir objetivos políticos ou pessoais. O poder pelo poder, por ambição e sem propósito, os lugares honoríficos pagos a peso de ouro não são claramente a sua ambição. Se fossem, era só escolher, o que o torna num caso singular, em Portugal e não só.
2. ‘Back to Basic’. A greve geral que a CGTP e a UGT convocaram para 11 de dezembro tem uma vantagem. Volta a colocar a esquerda no seu terreno histórico: a luta de quem trabalha contra os abusos patronais. Antes isso do que agendas fraturantes de tipo woke ou campanhas a favor de ditaduras de toda a espécie ou de grupos terroristas a pretexto de serem vítimas do capitalismo ocidental.
3. O ministro da Reforma do Estado foi abrir a Web Summit. Garantiu que Portugal é um paraíso para a implantação de grandes unidades ligadas ao desenvolvimento da Inteligência Artificial. Levou palmas de gente que não lê português e não entendeu manchetes de dois jornais de referência do burgo, assegurando que «criar empresa na hora dura afinal dez meses» e que «helicópteros de socorro só aterram num único heliporto hospitalar». Manifestamente menos otimista do que Gonçalo Matias, Paddy Cosgrave, pai da Summit, assegurou que o domínio tecnológico do Ocidente está a chegar ao fim. Má notícia para o país mais ocidental da Europa.
4. Passaram 50 anos sobre a independência de Angola. Por mais pessimista que se pudesse ser na altura, nunca ninguém poderia imaginar o sofrimento prolongado e constante de negros e brancos daquele país, o drama da saída, a guerra civil, a violência, a corrupção, as oportunidades perdidas e o desmoronar de uma nação hoje mais dependente do que nunca, a quem fundamentalmente valem a língua e a estrutura organizacional do Estado herdada de Portugal como fatores de identidade. A independência de Angola foi consequência direta do 25 de Abril e de uma descolonização desastrada pró-soviética, chegada com dez anos de atraso por causa da cegueira de um regime que tanto oprimia os metropolitanos como os que viviam nas colónias. O mais notável depois de tudo isto é que, realmente, os laços de afeto entre portugueses e angolanos existem mesmo e não esmorecem. Valha-nos isso…