terça-feira, 13 jan. 2026

Gritar para desbloquear

‘Dessensibilização’: a técnica consiste em avançar em passos pequeninos na direção do que o assusta, de modo a perceber que pode lidar com a situação sem precisar de fugir.

Gostava de convidar o leitor a recuar ao seu terceiro ano de escolaridade. Calhou-lhe a sorte de ir ao quadro fazer uma conta de dividir, até já sabe fazer estas contas quando está calmamente a estudar em casa mas ainda não está confiante nos passos a dar. Está em pé, de costas para todos os seus colegas que estão a olhar para si no lugar de privilégio que é não serem a pessoa que está no quadro. Olha para o quadro e a informação não faz tanto sentido como quando está sozinho a olhar para o seu caderno. A professora pergunta: «E agora, por quanto é que podes dividir?» (silêncio) Está a ter aquilo a que se chama “uma branca”, o que noutra situação lhe parecia óbvio agora não parece nada. Balbucia qualquer coisa sem grande sentido e a professora começa a gritar: «Por quanto é que tens de dividir? É assim tão difícil?!»; «Como é que é possível não saberes??!!». A partir daqui será muito menos provável que consiga chegar ao resultado. O medo ou a vergonha começarão a subir e o seu único objetivo será fugir dali para fora e nunca mais correr o risco de ir ao quadro. Como as crianças não têm poder para fazer escolhas destas é possível que antes da escola comece a ficar ansioso com a hipótese de ir ao quadro. Esta ideia vai passar a ser uma fonte de angústia e em nada este episódio ajudará à melhoria das competências da divisão numérica. Uma professora adepta deste estilo uma vez explicou-me que fazia isto para «Eles desbloquearem, fazerem o clique!». Não há nenhum clique. Amy Edmonson, a autora que propôs o conceito de Segurança Psicológica diz: «O medo consome recursos fisiológicos. O que prejudica o pensamento analítico, a visão criativa e a capacidade de resolução de problemas». Outro modo de o dizer é que as pessoas ficam menos capazes de pensar, aprender e tomar decisões quando estão com medo ou vergonha. E é mais provável que desenvolvam trauma do que ganhem curiosidade em relação à matemática. Um outro grande clássico desta pedagogia é atirar as crianças ao mar para “não ficarem mariquinhas”. Os adeptos desta abordagem costumam dizer com um sorriso triunfante: «E a verdade é que nadou!». Sim, as crias de mamíferos costumam nadar, mais raro é desenvolverem um à vontade e satisfação dentro de água. A regra é simples: quando a situação é sentida como ameaçadora, a reação humana mais comum (e sensata) é evitá-la no futuro. A maneira de melhorar chama-se em psicologia “Dessensibilização”, é um avançar em passinhos pequeninos na direção do que o assusta, de modo a ir-se apercebendo que consegue lidar com a situação em causa sem precisar de fugir. Neste processo a nossa noção de auto eficácia, a ideia de que somos capazes, vai-se desenvolvendo. Na conta de dividir seria pedir ao aluno para pensar em voz alta no último passo da divisão que soube fazer, e ajudar a partir daí. Só que fazer desta maneira implica que o adulto consiga controlar a frustração, autorregular-se. Gritar e humilhar porque estamos frustrados é muito mais apetecível, e dá péssimos resultados.