sexta-feira, 06 fev. 2026

Rei Juan Carlos I. ‘Reconciliação’ possível?

Parece seguro afirmar que a vida do Rei Juan Carlos I dá para um livro. Ou dois. E o rei emérito assim o fez. ‘Reconciliação’, um volume de memórias, já foi publicado em França e promete agitar as águas.
Rei Juan Carlos I. ‘Reconciliação’ possível?

A vida de Juan Carlos de Borbón, da juventude à abdicação, passando pela transição democrática espanhola na década de 1970, foi marcada por momentos de importância superior. Não sendo objeto das primeiras páginas sempre por motivos particularmente felizes, a verdade é que o Rei Juan Carlos é uma figura inevitável da Espanha do último século. O desgaste da monarquia espanhola era visível no início da última década, e alguns escândalos, juntamente com o definhar do estado de saúde do Rei, levaram o monarca, então com 76 anos, a passar o testemunho ao filho.

Tendo passado os últimos cinco anos nos Emirados Árabes Unidos, com regressos pontuais ao território espanhol, e claramente afastado da família, o Rei emérito – como é amplamente conhecido em Espanha – decidiu publicar uma autobiografia. “Reconciliação” é o título do volume de memórias do monarca e a escolha não podia deixar mais clara a intenção principal do livro. Foi escrito em conjunto com a jornalista e escritora francesa Laurence Debray e conta com mais de 500 páginas que, de acordo com a La Sexta, «misturam biografia pessoal e história recente da Espanha: a ditadura franquista, a transição democrática, a tentativa de golpe de 23 de fevereiro e os escândalos financeiros que o levaram a se retirar da vida pública». Mas, continua a notícia do canal espanhol, «[o] livro não se limita à história oficial» porque «Juan Carlos I também fala de si mesmo com uma mistura de franqueza, culpa e nostalgia».

De Franco à Princesa Diana

Os temas abordados são vários, como não podia deixar de ser. Francisco Franco, Princesa Diana, Rei Felipe VI, Princesa Leonor, Corinna Laresen, caça, reforma e funeral – para além da vertente política, naturalmente – são alguns dos destaques de um livro que será publicado primeiro em França_e só depois em Espanha.

E se o livro promete ser controverso – nem que seja pelo facto de não ser comum que um monarca escreva um livro de memórias, algo muito mais comum entre políticos e ex-políticos – a polémica começou logo no primeiro passo: a escolha da data de publicação. A autobiografia ficou disponível na passada quarta-feira (5 de novembro) em França, sendo que em Espanha será lançada apenas no dia 3 de dezembro. Numa entrevista exclusiva ao jornal francês Le Figaro, o rei emérito confessou que o filho, atual monarca espanhol, tinha «medo do seu lado sem filtros» e que a decisão de adiar a publicação em território nacional foi tomada em parte também para evitar coincidir com o quinquagésimo aniversário da morte de Franco.

O_desejo de voltar a casa

Nos parágrafos que contextualizam o encontro do periódico francês com o ex-monarca espanhol, o jornalista Charles Jaigu, descreve a localização (ilha de Nurai) – «Do centro de Abu Dhabi até a pequena ilha de Nuraï, leva-se meia hora, incluindo dez minutos de barco. Uma lancha corta as águas calmas, afastando-se das margens habitadas. Atracamos numa marina discreta. Uma quietude repleta de sol envolve esta paisagem de areia fina, onde juncos altos e arbustos exuberantes protegem da vista as vilas novinhas em folha. Um veículo elétrico leva-nos até à casa do rei, disponibilizada pelo chefe dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed Ben Zayed» – e relata que «Juan Carlos I tem no rosto as marcas do tempo, mas os olhos risonhos e a bonomia de um príncipe dos acampamentos, acostumado à errância e às mudanças repentinas».

Assim, a expectativa quanto ao conteúdo total vai-se acumulando. Os franceses, ou quem domine a língua, mais curiosos já conseguem, por esta altura, dissecar as memórias de Juan Carlos I. Resta saber se estes escritos, para além de nos permitirem mergulhar na vida de uma das personagens mais marcantes da Espanha recente, conseguem atingir o seu objetivo principal: a reconciliação, como deixa clara uma das frases já publicadas: «Enquanto for vivo, o quem mais desejo é ter uma reforma tranquila, restabelecer uma ligação harmoniosa com o meu filho e, acima de tudo, regressar a Espanha, a casa». Nas páginas seguintes pode ver outras frases marcantes que vão ser encontradas na obra que promete ser, de resto, um dos principais lançamentos literários da temporada.