terça-feira, 20 jan. 2026

Por fim, ‘adiós’?

A ajuda dos EUA para fazer cair Maduro, que mereceria a gratidão do povo venezuelano e que acabaria por fazer cair outros regimes, poderá ficar conhecida como ‘efeito Caracas’

Há alguns dias, o 60 Minutes dedicou parte do programa à situação na Venezuela. É uma peça jornalística bastante recomendável. E dos cerca de 15 minutos, algumas partes merecem especial destaque:

1. O ambiente inquisitório nas ruas de Caracas tornou-se normal, salvo raras (e corajosas) exceções que acabam por confessar o descontentamento perante o regime. Uma comerciante, quando questionada sobre a crescente atividade militar americana na costa da Venezuela, diz à jornalista que o povo não é culpado pelas ações do seu presidente, mas é prontamente acusada por um concidadão de ingratidão para com quem lhe permite levar a cabo a sua atividade profissional. O cidadão prossegue e declara que a Venezuela é um país soberano e que os EUA não têm nada que ver com os seus assuntos internos. É uma tese com alguns anos, mas que, ao que parece, continua bem viva na América Latina (e em boa parte da intelligentsia ocidental). 

2. O testemunho de James Story, último embaixador dos EUA em Caracas, que declarou inteligentemente que «há um péssimo ator sentado em cima das maiores reservas conhecidas de petróleo do mundo, além dos minerais essenciais que irão alimentar a economia do século XXI, e ele está aliado aos nossos concorrentes estratégicos».

3. As fortes declarações de Rick Scott, senador republicano pela Florida, que começa por dizer que, se fosse Maduro, apanharia rapidamente um voo para a Rússia ou para a China porque «algo vai acontecer». Este ‘algo’, apesar da inerente abstração da palavra, não é de subestimar: «Os Estados Unidos vão tratar do hemisfério sul», e a queda do regime de Maduro pode ser a primeira peça do dominó a cair na América Latina.

Mas a história das intervenções americanas para salvar um povo de regimes tirânicos exige uma análise prudencial. Rick Scott reconhece aquilo que se tem tornado cada vez mais evidente entre o eleitorado americano: a perda de paciência em relação às chamadas ‘forever wars’, o que torna o destacamento de tropas americanas improvável. Mas neste ponto é importante não perder de vista as circunstâncias que hoje pautam a questão venezuelana. E as palavras do embaixador Story demonstram precisamente isso. Quando o presidente Reagan enviou soldados americanos para Granada em 1983, a mensagem foi clara: os EUA não iam tolerar mais um satélite de Moscovo no seu próprio hemisfério.

Mas existe outro fator determinante para este tipo de intervenções: o esforço exigido para fazer avançar a liberdade num determinado território. Bill Buckley cristalizou este ponto no ensaio An Agenda for Conservatives, publicado em 1990: «Devemos continuar a distinguir entre as nações que podem ser ajudadas pelo exercício de músculo diplomático (...) e aquelas que só podem ser ajudadas com o derramamento de sangue e o uso da força. Em geral, os nossos esforços no Panamá foram aprovados (...). E embora enfrentemos uma reação adversa da América Latina, refletindo a tradicional oposição à intervenção externa, provavelmente somos justificados no sentimento hemisférico pela gratidão entusiástica do povo panamenho, o que se poderia chamar de ‘efeito Granada’». Ora, na Venezuela existe um povo saturado do chavismo, como mostraram as últimas eleições, e existe também um movimento sério para substituir Maduro, com o último prémio Nobel da Paz a funcionar como alavanca para todo o processo de substituição e regeneração. E esta situação, que mereceria a gratidão da maioria do povo venezuelano, poderá ficar conhecida como “efeito Caracas”.

Por tudo isto, a prudência deve ser rainha. Todavia, e em última instância, o mundo livre só tem a ganhar se, por fim, conseguirmos dizer adiós a todas as ditaduras marxistas que ainda se mantêm de pé e que têm destruído, juntamente com o potencial dos seus países, as vidas de muitos povos em todo o mundo e em especial na América Latina.