É verdade que sábado a depressão Benjamim deixou o país em alerta amarelo e provocou imensos estragos na ilha de São Miguel, estragos esses que, tivessem ocorrido em Lisboa, teriam tido direito a longos directos nas nossas televisões, com responsáveis políticos que prometem aplicações para terremotos ou coisas parecidas mas depois não se responsabilizam por nada.
Adiante: sábado foi dia de eleições no Benfica, e o “alerta vermelho” estendeu-se a todo o país e todos os canais, com horas seguidas de emissões em directo na rua ou em estúdio dos canais de informação e intermináveis aberturas de telejornais nos canais abertos. Tudo isto poderia ter sido um sinal da grandeza do Benfica como instituição, mas acabou por revelar-se um sinal da pequenez das nossas televisões, com a habitual síntese de informação a ser substituída por um enche-chouriços sem escala.
“O Benfica nunca perde, os outros às vezes é que ganham”, arrogou-se um sócio do Benfica entrevistado no dia de eleições do clube, pela, salvo erro, RTP Notícias. É tudo uma questão de perspectiva ou, se preferirmos, negacionismo. Logo a seguir, um outro sócio flagrado pelo directo na Casa do Benfica em Paredes, não conseguiu fugir ao óbvio: “Não sei se isto está a ser transmitido em directo ou não, se estiver em directo é um problema, é que eu disse à minha mulher e aos meus filhos que tinha um compromisso familiar, se me estiverem a ver que me desculpem mas o Benfica está acima de tudo”. Ainda hoje estamos a tentar saber se a mulher nesse dia lhe mudou a fechadura da porta de casa ou não.
No pluvioso dia das eleições do Benfica, uns intrépidos cidadãos cometeram o despautério de se ir manifestar para as ruas de Lisboa e chamar a atenção dos canais de televisão para “outras preocupações” do mundo real. Não estou a brincar, uns canais referiram que era uma “manifestação contra a lei da burka”, outros informaram que “a manifestação em Lisboa junta outras preocupações”, como se estes indignados liderados pela Raquel Varela estivessem a manifestar-se contra a bola de Berlim com queijo da serra e louro prensado que nos impingem nas esquinas da Baixa de Lisboa. Como a manif tinha sido organizada por Raquel Varela, recém-saneada pela RTP Notícias, os repórteres foram magnânimos e deram voz à ilustre cidadã. Um frete.
O saneamento de Raquel Varela pela RTP já foi esquecido pela espuma dos dias, mas não ficou esquecida a embrulhada que foi a apresentação do novo programa de Alberta Marques Fernandes na RTP Notícias, Estado da Arte, apresentação essa que nos permitiu perceber que a arte do canal do Estado seria em dar continuidade a personagens sinistras como Rodrigo Moita de Deus e descontinuar incómodos como Raquel Varela.
O problema nem teve a ver com esse critério editorial, que teremos sempre respeitar, mas com o facto de a saída de Raquel Varela coincidir com a entrada de Gonçalo Sousa, um influencer colado aos ideais fascistas do Chega, com um sem-fim de publicações sexistas, ofensivas e perturbadoras nas redes sociais.
Por muito que me custe, é evidente que eu também teria de respeitar a opção da RTP em incluir uma personagem questionável como Gonçalo Sousa para comentador, mas depois de uma forte reação na opinião pública contra Gonçalo Sousa, a RTP enfiou o rabo entre as pernas e cancelou a colaboração, “após ter tomado conhecimento de alguns comentários feitos no passado pelo próprio”. Portanto cancelaram depois do backlash nas redes sociais, não foram capazes de ver antes aquilo que o auto-intitulado “macho tóxico” tinha publicado nas redes sociais estes anos todos?
Para que conste, Estado da Arte já estreou na RTP Notícias, o painel inclui Rodrigo Moita de Deus, Joana Marques Brás, Henrique Pinto de Mesquita e Susana Peralta. Passa às quintas.
A morte de Pinto Balsemão na noite de 21 de Outubro marcou profundamente os alinhamentos dos noticiários das nossas televisões, e, de forma concreta, a programação genérica da SIC durante os dias que se seguiram. A SIC, por razões empresariais compreensíveis, liderou uma emissão hagiográfica que, por ser excessiva e histérica, acabou a roçar o fanatismo, como foi o Jornal da Noite da noite de 22 de Outubro, um longo lamento de quase duas horas de emissão inteiramente dedicadas a Balsemão. Impecável na forma, insuportável no conteúdo.
Os outros canais, para não destoarem do luto ou deixarem fugir as audiências (este país adora funerais), foram acompanhando como possível numa emissão com o pezinho a atirar para o chinelo, para todos os efeitos tinha morrido o patrão da concorrência que também era um ex-primeiro-ministro, mas era como se tivesse morrido um Papa e esse Papa fosse português.
O momento mais constrangedor e sombrio do dia do funeral foi o desvio feito pelo circuito do carro funerário da Servilusa pelas instalações da SIC e os dez-quinze-vinte minutos que durou a salva de palmas orquestrada pelos honrosos trabalhadores da empresa em directo com imagens de drone e planos fechados sobre o caixão de Balsemão, compondo um quadro miserável que era uma espécie de menino da lágrima mas pintado pelo Marquês de Sade.
O Governo decretou dois dias de luto nacional pela morte de Pinto Balsemão, um antigo primeiro-ministro da nossa República. Como alguém por aí assinalou, quando em 2004 morreu Maria de Lurdes Pintasilgo, a única mulher primeiro-ministro em 50 anos de democracia em Portugal, nem um dia de luto o Governo na altura assinalou. Quem era Presidente da República na altura? Um tal de Cavaco Silva. Foi uma semana depois de Portugal perder o Euro 2004 com a Grécia, de certa forma ainda estávamos todos de luto…
Na semana em que morreu Balsemão, Vítor Gonçalves ia entrevistar André Ventura na RTP, tratava-se apenas da trigésima-quarta entrevista do líder do Chega a uma televisão este ano. Com a morte de Balsemão, a RTP revelou algum bom senso e cancelou a entrevista a Ventura, convidando Maria João Avillez para falar sobre a memória de Balsemão. Um dia depois do funeral de Balsemão, a SIC aproveitou e entrevistou quem? André Ventura! Foi a tal entrevista, e mais uma que não vi, em que Ventura referiu que o país precisa de “três Salazares” para ser posto na ordem. Três Salazares ainda não temos, para já temos de nos contentar apenas com as quatro televisões e os quatro canais de informação que todas as semanas chamam Ventura para comentar o estado da arte neste país.
Dois especialistas foram chamados pela CNN Portugal para falar sobre a mudança de hora de Verão para Inverno, o tal dilema que aflige as nossas televisões uma vez ao ano, mas que a maioria dos portugueses afinal não tem, uma vez que diz preferir sempre o horário de Verão no Inverno, porque “assim ganhamos mais uma hora de sol ao final do dia”, dizem, hora de sol extra que infelizmente os portugueses terão de passar obrigatoriamente no emprego, pois chegaram tardíssimo ao trabalho de manhã, porque, com o horário de Verão no Inverno, às nove da manhã ainda será noite cerrada…
Tudo isto para dizer que o debate na CNN estava a começar a aquecer no preciso momento em que os dois pivots o decidiram interromper, com muita pena nossa, porque a intensa energia gerada pelo debate teria decerto dado muito jeito para aquecer as nossas humildes casinhas frias no Inverno que aí vem.