terça-feira, 13 jan. 2026

Clareza precisa-se

A Direita populista é tão insidiosa como aqueles a quem aponta criticamente o dedo. O populismo fácil, à esquerda, também não convence. O Bloco de Esquerda tem vindo a mirrar, a pouco e pouco, incapaz de perceber que, desde que aceitou o abraço de urso de António Costa, se condenou à irrelevância.

Concordo com a tese daqueles que dizem que André Ventura e, consequentemente, o Chega cresceram da forma que se conhece por acção dos media e dos próprios adversários políticos. Uns e outros, com a importantização atribuída às palavras e teses de Ventura, amplificaram a dimensão do fenómeno, dando-lhe o oxigénio de que carecia, numa sociedade cansada de promessas e frustrada por adiamentos sucessivos de expectativas.

Não vou contribuir para isso, adicionando interpretações ao desfile de ensaios e explicações que dezenas de analistas se esforçam por escrever, semana após semana, numa lógica que os torna cúmplices, ainda que involuntariamente, da difusão de um discurso que qualquer democracia civilizada não pode deixar de rejeitar.

Aquilo que entendo ser útil, neste caso, restringe-se a recomendar a atitude mais óbvia: ‘obrigar’ Ventura a esclarecer os portugueses, sem gritarias nem fanfarronices, sobre aquilo que, afinal, quer para Portugal.

Já se percebeu, em boa medida, aquilo que o líder do Chega não quer.

O presente e o futuro do País não se definem, no entanto, por exclusão de partes. É fundamental perceber-se que visão possui para esta terra, que planos transformadores o inspiram, que fará de diferente em questões centrais para a vida dos portugueses, como sejam a sustentabilidade da Segurança Social, o funcionamento do Serviço Nacional de Saúde, a revitalização da nossa indústria e da nossa agricultura, a criação de emprego, a adequação do sistema educativo a novos tempos e desafios, o papel do Estado versus a iniciativa privada e o crescimento económico, para mencionar apenas algumas magnas preocupações que condicionam o presente e que serão determinantes para as gerações actuais e futuras. Não basta deitar abaixo. É preciso dizer-se corajosa e desassombradamente o que se tenciona fazer e como. Até agora, o País vem aceitando a ignorância conveniente quanto ao que pretende construir o líder do partido mais à direita do espectro político.

Que propostas se dispõe a apresentar ?

Pouco, ou melhor nada, se sabe, de substantivo, até agora. Apenas se propagandeia o que se acha mal, se potenciam os erros de terceiros e se usa - magistralmente, reconheça-se – a demagogia como ferramenta oportunística para descredibilizar e desconsiderar Governos, ministros, adversários e instituições. Estou curioso para ver como reagirá o eleitorado, no momento em que, por força das circunstâncias, se fizer finalmente luz quanto ao que prepara o Chega para a eventualidade de um dia ter acesso ao Poder. Javier Milei, na Argentina, por exemplo, apresentou-se aos eleitores com um programa claro de transformação do país, com fortes repercussões nos planos económico e social. Não enganou ninguém, nem andou num jogo do gato e do rato, escondendo as suas intenções. Quando foram votar, os argentinos sabiam ao que iam. Por cá, André Ventura não se atreve. Provavelmente considera que manter na ignorância os eleitores constitui uma vantagem, à semelhança, aliás, do que acontece, com frequência, cá dentro e lá fora, com candidatos a lugares de relevo que se conservam o mais possível silenciosos sobre os seus objectivos e ideias. Enquanto ficam de boca fechada, o seu potencial é um. Quando começam a falar e se dão a conhecer, o edifício desmorona-se.

A Direita populista é tão insidiosa como aqueles a quem aponta criticamente o dedo.

O populismo fácil, à esquerda, também não convence. O Bloco de Esquerda tem vindo a mirrar, a pouco e pouco, incapaz de perceber que, desde que aceitou o abraço de urso de António Costa, se condenou à irrelevância. Com Mariana Mortágua o plano inclinado acentuou-se. A saída da liderança tornou-se inevitável, num partido que tem dificuldade em encontrar razões para existir e cuja voz se finou, na exacta medida da fragilizada capacidade de mobilização de que hoje dá mostras. Não perceber os sinais dos tempos, em política, já se provou que é fatal. Ser apenas “protesto” não chega. l

P.S. – O Benfica provou, no último fim de semana, ser realmente muito grande. Pena é que mentes pequenas e candidatos medrosos tenham feito o clube recuar vários anos nos procedimentos que transformavam os actos eleitorais em demonstrações de modernidade.