quinta-feira, 22 jan. 2026

PS castiga rebelde mas perdoa suspeito de violência doméstica

Socialista Daniel Adrião disputou autárquicas como independente e levou processo disciplinar. Victor Hugo Salgado ganhou Vizela sob suspeita e à revelia do PS, nada lhe aconteceu.
PS castiga rebelde mas perdoa suspeito de violência doméstica

Esta é a história de dois socialistas que se candidataram às autárquicas de 12 de outubro e cujo destino político foi totalmente oposto. O primeiro chama-se Daniel Adrião e é um conhecido crítico de sucessivas lideranças socialistas. Concorreu à presidência da Junta de Freguesia de São Vicente, em Lisboa, através de um movimento independente — contra o PS, que também tinha candidato. Foi o nono lugar na Junta, mas duas semanas antes das eleições viu o seu partido mover-lhe um processo disciplinar, com suspensão imediata como militante e pena de expulsão do PS.

O outro protagonista da história é Victor Hugo Salgado. É também socialista e igualmente se candidatou como independente nas últimas autárquicas — à presidência da Câmara de Vizela, distrito de Braga. As semelhanças com Daniel Adrião acabam aqui.

O PS prescindiu de apresentar candidato próprio em Vizela, assim entendendo o tapete à terceira vitória consecutiva de Salgado. Processo disciplinar não teve, pena de expulsão muito menos.

Apenas um detalhe perturbou a caminhada de Salgado rumo à vitória: seis meses antes das autárquicas foi acusado de violência doméstica e investigado pelo Ministério Público, que num primeiro momento arquivou ­o caso, reabrindo-o logo depois. À data de hoje a investigação prossegue e está sob segredo de justiça, confirmou o Nascer do SOL junto da Procuradoria-Geral da República.

Por causa do alegado crime, logo em abril Victor Hugo Salgado demitiu-se de líder do PS Braga e o partido decidiu, ainda ao tempo de Pedro Nuno Santos como secretário-geral, que não o apoiaria na recandidatura a Vizela, um concelho de 24 mil habitantes.

O presidente do PS, Carlos César, admitiu a hipótese de expulsão de Salgado por causa da investigação judicial, ainda antes de um possível julgamento. César declarou em junho que uma eventual expulsão seria «equacionada» pela nova liderança prestes a ser eleita.

Mas até hoje, quatro meses volvidos desde que José Luís Carneiro subiu a secretário-geral, nada aconteceu. Salgado continua militante e não tem nenhum processo disciplinar. Contactado pelo nosso jornal, não quis falar.

Expulso ou ainda não?

Adrião sustenta que a diferença de tratamento entre si e Salgado só tem um motivo: «Perseguição política». Ao nosso jornal, alegou que o processo disciplinar se deve «ao facto de quererem livrar-se de vez de uma voz incómoda» que liderou «uma minoria interna dentro do PS durante estes anos todos».

Na sua versão, comunicou em março do ano passado, à Comissão Política Nacional do PS, a decisão de se candidatar como independente à Junta de São Vicente e o então líder, Pedro Nuno Santos, «anuiu». Disse-nos ainda que está a «pagar o preço» por se ter apresentado várias vezes como candidato a secretário-geral do PS, contra António Costa.

O órgão disciplinar do PS, designado Comissão Nacional de Jurisdição (CNJ), não aceita a ideia de duplicidade de critérios e muito menos de perseguição a Adrião. «A sua candidatura contra uma lista apresentada pela coligação que o PS integrou é um facto público e notório e constitui objetivamente razão para expulsão nos termos dos estatutos do PS», comentou esta semana fonte oficial da CNJ.

Segundo a mesma fonte, numa reunião da Comissão Nacional do PS em 9 de março de 2019, Adrião «votou favoravelmente» o regulamento que permite a expulsão liminar de militantes.

Quanto a Victor Hugo Salgado, a CNJ alegou que não é alvo de processo disciplinar por dois motivos: «Não concorreu contra nenhuma lista do PS, que é o facto que pode motivar a pena de expulsãos» e além disso «a CNJ não recebeu participação sobre o assunto».

É incerto se Adrião está ou não efetivamente expulso do PS. O visado disse-nos que ainda não foi notificado de qualquer despacho de expulsão. Questionada, a CNJ dá a suspensão como certa, mas prefere não confirmar a expulsão.