quarta-feira, 14 jan. 2026

Radioterapia dirigida: um potencial em desenvolvimento no tratamento oncológico

Avanços da Medicina Nuclear impulsionam terapias cada vez mais personalizadas.

A Medicina Nuclear viveu, na última década, profundas transformações com o desenvolvimento da abordagem de radioteranóstica. Se no início do século XX a radioatividade era associada sobretudo ao risco percepcionado pelas populações, hoje surge como uma alternativa promissora no desenvolvimento de novas terapias para o cancro. A radioterapia dirigida com radionuclídeos (Targeted Radionuclide Therapy) tornou-se uma das abordagens terapêuticas mais inovadoras na área da oncologia, permitindo tratar tumores resistentes à quimioterapia e metastizados com elevada eficácia.

Novas terapias que levam a radiação até aos tumores

Enquanto a radioterapia convencional utiliza feixes de radiação externos para atingir e destruir o tumor, a terapia com radionuclídeos atua de forma sistémica. O radiofármaco é administrado por via endovenosa e distribui-se pelo organismo até se ligar às células cancerígenas, depositando aí a radiação. Além disso, a radiação ionizante pode também alcançar células tumorais vizinhas que não expressam o alvo molecular de interesse, respondendo a uma das grandes preocupações da oncologia: a heterogeneidade tumoral.

Terapias de precisão à escala molecular

Na minha atividade enquanto investigador no Grupo de Ciências Radiofarmacêuticas (GCR) do Centro de Ciências e Tecnologias Nucleares (C2TN) do Instituto Superior Técnico, trabalho nesta área emergente, dedicada ao desenvolvimento de novos radiofármacos que se ligam especificamente a marcadores tumorais. O objetivo consiste em transportar a radiação de forma seletiva até ao tumor. O GCR recorre a técnicas de química seletiva e bioortogonal (entre grupos mutuamente reativos) que permitem modificar biomoléculas com radionuclídeos sem alterar a sua função biológica. As estratégias aplicadas aumentam a estabilidade da ligação radionuclídeo/biomolécula, resultando numa maior captação tumoral e menor toxicidade. Os resultados obtidos evidenciam o potencial destas biomoléculas radiomarcadas, que levaram à remissão total de tumores em modelos pré-clínicos.

Um futuro de terapias personalizadas

As terapias com lutécio-177 já revelaram resultados notáveis em tumores neuroendócrinos e da próstata, mas prevê-se que, no futuro, as suas aplicações se tornem mais amplas. A próxima etapa passa pelo desenvolvimento de novos radiofármacos direcionados a outros recetores tumorais, de modo a permitir o tratamento de diferentes tipos de cancro. Outra vertente relevante é o conceito de (radio)teranóstica, que combina, numa mesma biomolécula, a capacidade de diagnóstico e/ou terapia. Através do mesmo fármaco, é possível primeiro identificar se o tumor capta a radiação, utilizando um radionuclídeo adequado para diagnóstico, e, em seguida, utilizar o mesmo fármaco, contendo um radionuclídeo emissor de radiação ionizante para tratamento. Esta abordagem representa o início da medicina verdadeiramente personalizada, em que se vê o tumor que se pretende tratar e se trata exatamente o que se observa. Paralelamente, estão a ser desenvolvidos radiofármacos com radionuclídeos emissores alfa, de energia mais elevada e alcance mais curto, capazes de eliminar células tumorais mais eficazmente, incluindo micrometástases.

Desafios científicos e clínicos

Apesar do seu enorme potencial clínico, a radioterapia dirigida enfrenta ainda diversos desafios. Do ponto de vista científico, continua a ser necessário compreender como maximizar a dose de radiação depositada no tumor, minimizando ao mesmo tempo a exposição dos órgãos saudáveis. Por outro lado, a produção e administração de radiofármacos e radionuclídeos, bem como o acompanhamento dos doentes após o início do tratamento, requerem instalações com segurança radiológica, infraestruturas especializadas e equipas multidisciplinares. Em Portugal, apesar do talento e da competência existentes, estas condições ainda são escassas.

DeNovoTherapies - métodos de IA no desenvolvimento de radioligandos para novos alvos

No C2TN, o GCR explora pequenas proteínas desenhadas in silico, isto é, criadas por computador para reconhecer novos marcadores tumorais. Estas biomoléculas combinam o melhor de dois vetores: a seletividade dos anticorpos e a rápida penetração tumoral dos péptidos (pequenas sequências de amino-ácidos). O seu pequeno tamanho, aliado à elevada afinidade para o alvo, permite direcionar a radiação com maior precisão para o tumor. Através do financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), a equipa está a melhorar o perfil farmacocinético das proteínas radiomarcadas de forma a reduzir a sua elevada retenção renal, um problema frequente observado para pequenas biomoléculas.

O papel do Campus Tecnológico e Nuclear

O Campus Tecnológico e Nuclear (CTN) do Técnico, em Loures, tem um papel essencial na preparação do país para esta nova era da Medicina Nuclear. Para além da investigação, o centro dedica-se também à formação de especialistas e à criação de conhecimento aplicável à prática clínica. Dispõe do único equipamento de imagem PET/SPECT/CT para estudos pré-clínicos existente a nível nacional, uma infraestrutura que tem sido fundamental para o desenvolvimento e validação de novas moléculas com potencial translacional. À medida que mais terapias são aprovadas e chegam aos hospitais, torna-se indispensável reforçar a capacidade de produção, distribuição e infraestruturas clínicas necessárias à sua administração, um desafio que o CTN está já a enfrentar para preparar o futuro de Portugal nesta área.


Investigador no Centro de Ciências e Tecnologias Nucleares (C2TN) do Instituto Superior Técnico