terça-feira, 13 jan. 2026

Presidenciais: o que querem os passistas

A resistência de alguns passistas a Marques Mendes tem mais a ver com uma estratégia futura mais do que com uma oposição à pessoa.

Nota prévia: Com a morte de Francisco Pinto Balsemão, Portugal perde um dos homens que mais contribuiu, antes e depois do 25 de Abril, para o estabelecimento da democracia. Fundou o Expresso e a SIC, instrumentos fundamentais de liberdade de expressão. Na política, foi primeiro-ministro e líder do PSD, tendo sido fundamental para a complexa transição do regime de tutela militar para uma democracia civil. Internacionalmente, foi uma rara referência portuguesa, que conviveu e conheceu muitos dos maiores dirigentes políticos e comunicadores mundiais. Nascido em berço de ouro, Balsemão não se acomodou. Preferiu correr os riscos inerentes a um negócio difícil onde foi inovador e que deixa à família num período crítico. Apesar de ter tido muitos adversários, a generalidade da sociedade portuguesa considerava-o com respeito e presta-lhe merecida homenagem.

1. É curioso o comportamento de certos notáveis passistas próximos do Chega e da direita conservadora relativamente às presidenciais. Sabem que Passos nunca almejou a presidência. Em contrapartida, conhecem a sua inconfessada ambição de voltar a S. Bento, desde que o país não esteja novamente em rutura financeira. Na perspetiva de um regresso do ex-primeiro-ministro, os passistas julgam preferível não ter Marques Mendes em Belém. Esta posição não resulta de uma especial aversão a Mendes, embora possa suceder num ou noutro caso. As causas substanciais prendem-se com a possibilidade (ou desejo?) de ocorrer uma crise política, em 2026, quando deixar de haver limitações constitucionais aos poderes do próximo presidente, os quais ficam limitados no início do mandato, tal como sucede no semestre final do Chefe de Estado cessante. Com um governo reforçado, mas mesmo assim minoritário, e o caso ‘Spinumviva’ a pairar, Montenegro, apesar de ter ganho as autárquicas sem espinhas, corre o risco de ter um dissabor político ou judicial que confronte o próximo presidente com a eventualidade de convocar eleições. Essa difícil decisão seria mesmo inevitável se o Ministério Público avançasse com uma investigação complexa ou acusasse o primeiro-ministro. Se assim fosse, Montenegro não teria condições de recandidatura. Exatamente como António Costa. E é aí que um Marques Mendes Presidente poderia ficar menos dependente, uma vez que tem experiência, influência, conhecimentos e pontes em todo o quadro partidário moderado, sendo capaz de gerar uma solução não eleitoral. Isto para não falar da suposta tática dos portugueses não porem os ovos todos na mesma cesta. Uma solução sem eleições seria sempre rejeitada por Passos, como os seus apaniguados bem sabem, mesmo que o Chega o apoiasse e entrasse para o governo. Para os passistas, o caminho do regresso é único e estreito: implica legislativas. E aí não têm dúvidas: dos três candidatos com hipóteses de suceder a Marcelo (Ventura e Cotrim não contam para este efeito), aquele que mais poderia resistir a esse desiderato, ter menos limitações de movimentos e mais autonomia decisória seria Marques Mendes. Na política, deve sempre ter-se em conta que certas posições de hoje têm mais a ver com estratégias a prazo e menos com realidades imediatas.

2. Está confirmado. Temos um milhão e meio de imigrantes e uma balbúrdia total no processo de legalização de centenas de milhares de vítimas do SEF, da AIMA e da inacreditável incompetência do governo de António Costa, durante o qual se escancararam as fronteiras, facilitando negócios repugnantes de tráfico de pessoas.

3. Vai para oito anos, um exuberante António Costa anunciou que o edifício do Ministério da Educação, em Lisboa, ia ser transformado em residência para estudantes. Hoje, o prédio está devoluto e serve de poiso a um sem abrigo. Terá havido problemas entre a câmara e o governo, independentemente de terem mudado os protagonistas de ambos os lados, e o mono lá está. Nesta rédea solta o tema é recorrente. Em teoria, ilustra a incúria, incompetência e preguiça do governo e da câmara. Mas não só. Por isso, vale a pena voltar a pegar nele noutra ótica. E referir que, enquanto o prédio se desfaz sozinho, há quem pense noutro uso. Preferencialmente deitar abaixo e construir outro hotel ou apartamentos de luxo. Se assim não fosse, já teriam contratado as empresas privadas que, em poucos meses, construíram, em vários pontos de Lisboa e arredores, esplêndidas residências para estudantes. Há coisas que dão jeito. Uma é quando o manto da burocracia atrasa um projeto, até ele deixar de fazer sentido. Aí nasce outra coisa mais aliciante. Há atrasos decisivos para estratégias e negócios.

4. Fala-se abundantemente da TAP e pouco ou nada da SATA, a companhia dos Açores, que também pertence ao Estado através do governo regional, o qual avaliza sucessivos empréstimos. E tudo com um custo monstruoso, até porque há carência de pagamento de juros durante dois anos. Neste verão foram autorizados mais 40 milhões de empréstimos, que irão perfazer os 75 milhões autorizados como teto máximo. Máximo até que se esgotem e venham mais. O que se pergunta é porque é que, havendo a TAP, não se junta tudo e se negoceia a venda global? Afinal quem paga são os contribuintes portugueses, continentais e insulares.