Ana Gomes, Duarte Cordeiro, José Miguel Júdice e Vasco Lourenço entram na mesma sala... e são todos apoiantes da candidatura de António José Seguro à Presidência da República? Não. José Miguel Júdice fez questão de nos esclarecer que, quando for altura - e ainda não é -, dirá quem é o candidato presidencial que merece o seu apoio. Pode ser Seguro, mas não é seguro.
A apresentação do livro biográfico de António José Seguro, Um de Nós – Sonhar Portugal, Fazer Acontecer, que resulta da síntese de 70 testemunhos, entrecortados com perguntas ao candidato presidencial, encheu a sala de um hotel em Lisboa, nesta terça-feira, 21 de outubro, e contou com a presença de três ex-candidatos à Presidência da República - Manuel Alegre, Maria de Belém Roseira e Ana Gomes -, nenhum deles vencedor.
Não contou com a presença dos atuais dirigentes do Partido Socialista, ainda a norte, onde decorriam as jornadas parlamentares, mas, e não por acaso, mereceu destaque na breve intervenção de Seguro a presença de Duarte Cordeiro. Estiveram também Carlos Zorrinho, Maria de Lurdes Rodrigues, João Soares, Ana Jorge, José Lamego, Álvaro Beleza, Jamila Madeira, Alberto Martins, Adalberto Campos Fernandes, Basílio Horta, entre muitos outros.
A jornalista Fátima Campos Ferreira apresentou o livro e falou do homem. Francisco Assis apresentou o livro e falou do político, a quem deixou alguns recados.
Para Assis, Seguro é mais do que “um de nós”, é alguém capaz de devolver ao palco político a “ética e a esperança”, num tempo em que “os demagogos estão em todo o lado”. Seguro é, no seu entender, um homem decente no plano pessoal, político e cívico. Tem uma identidade construída ao longo de anos, não está a construí-la ao longo da campanha para as eleições presidenciais. E este recado não foi para Seguro.
Mas outros foram. E se é certo que um político “tem de ter pudor”, não tem de optar entre “a moderação” e o “radicalismo”, disse Assis, que propõe o moderantismo, no conceito italiano, admitindo que “há um radicalismo político nas sociedades contemporâneas”, sem que isso signifique que “estamos condenados à vitória dos extremismos”.
“No exercício da liberdade que o PS concede aos seus dirigentes”, ironizou Assis - que, há cerca de um ano, lhe declarou o seu apoio -, Seguro “é, de entre todos nós, aquele que está em melhores condições para chegar a Belém”.
Assis falou ainda do que os separou - Seguro e Assis disputaram a liderança do Partido Socialista em 2011, após a saída de José Sócrates; Seguro venceu com 68% dos votos - e da forma digna como o adversário se comportou ao convidá-lo, um ano depois, para ser cabeça de lista do PS às eleições europeias. Em 2014, Assis foi para Bruxelas, mas o PS obteve apenas 31% dos votos. Soube a pouco. Logo a seguir, o derrotado foi Seguro, quando perdeu as primárias internas do partido para António Costa - uma vitória igualmente clara, com 68,9% dos votos. Para Assis, Seguro “transformou uma derrota do passado numa vitória de hoje, quando ganhou o estatuto que o trouxe até aqui”.
Perguntámos a Assis o que é que Seguro tem de fazer para passar à segunda volta das eleições presidenciais, quando as sondagens indicam que não há um candidato capaz de vencer à primeira volta. Assis não hesitou: “Tem de ser o candidato da esquerda democrática”.
Mas, para isso, e muito provavelmente, Seguro tem de assumir o legado do pai fundador da democracia portuguesa - o legado de Mário Soares, e do Partido Socialista. Seguro não vai por aí, e outro candidato, neste caso Gouveia e Melo, tomou conta do legado soarista. Seguro apresenta-se como um candidato “acima dos partidos”, capaz de encher salas com pessoas de esquerda e de direita, um catch all arriscado.
“Não se fazem contas nem ajustes”
“Não procuro o futuro no avesso do passado”, afirma Seguro, entre os testemunhos recolhidos por Rui Gomes, o autor do livro, em que se pode ler que é uma obra onde “não se fazem contas nem ajustes”. Seguro optou por não responder quando lhe perguntámos se esta candidatura não é uma forma de virar o passado do avesso. Diz que não, e insiste no futuro. Não deixa transparecer qualquer ressentimento ou incómodo - talvez porque saiba que ao apoio expresso dos socialistas não corresponde o apoio implícito, a começar por José Luís Carneiro, ou porque reconheça que o PS do Rato nem sempre faz match com o PS do país.
Seja como for, Seguro não deve repetir o que aconteceu com Maria de Belém Roseira, partilhou com o Nascer do Sol um outro dirigente socialista. Recorde-se que Roseira foi militante do PS, ministra de governos socialistas e presidente do partido. Candidata à Presidência da República em 2016, não contou com o apoio oficial nem financeiro do PS, liderado então por António Costa, quando os socialistas se dividiam entre a sua candidatura e a de António Sampaio da Nóvoa.
Maria de Belém Roseira optou por alavancar a sua candidatura através do movimento cívico Portugal Melhor e assumiu-se como candidata independente, centrada nas pessoas e na melhoria das condições de vida dos portugueses. Ficou em quarto lugar, com 4% dos votos, um resultado aquém das expectativas. Sampaio da Nóvoa ficou em segundo, com 23%, e Marcelo Rebelo de Sousa conquistou a presidência à primeira volta, com 52% dos votos. Roseira apoia agora Seguro e pode ser exemplo de que as candidaturas acima ou apesar dos partidos têm prós e contras.
“Sou uma pessoa agregadora, de compromissos e de consensos, por vezes atacada - mal atacada - por essa razão”, disse Seguro em entrevista à SIC/SIC Notícias, na véspera da apresentação do livro. Insiste no seu percurso de vida pública e privada, útil, ou mesmo indispensável, “numa sociedade a deslaçar” e numa “democracia com uma camada muito fina”, mas insiste que “acima dos partidos políticos”. Saiu da política quando podia dividir e regressa quando pode unir. Disse ainda que a sua candidatura não nasceu de nenhuma “combinata” entre ele e qualquer líder partidário, com quem, aliás, nunca reuniu.
Decidiu ser candidato presidencial em outubro do ano passado e, se for eleito, promete ser fiel à Constituição e não será “um primeiro-ministro sombra em Belém”. Onde também “não serei o notário” e “colocarei exigências”. Lembrou que o Presidente reúne todas as quintas-feiras com o primeiro-ministro. De facto, o primeiro-ministro do Reino Unido também se reúne semanalmente com o rei Carlos III.
Entre o tom e o poder, Seguro parece o rei de Inglaterra. Revela falta de autocrítica em relação ao seu passado político, numa campanha pouco enérgica. O conteúdo de Um de Nós – Sonhar Portugal, Fazer Acontecer em nada contraria essa ideia: é uma obra entre o elogio, a justificação afetuosa e a complacência. Parece “poucochinho”. E “poucochinho” pode ser também a diferença que separa Seguro da segunda volta - onde tem tudo para ser, obviamente, “o candidato da esquerda democrática”.