sábado, 24 jan. 2026

Recentrar o sistema político

Os resultados revelaram imunidade eleitoral absoluta às fugas informativas que chegam à media especialmente interessada, sobre problemas de justiça que afetam grandes figuras.

As eleições de 12 de outubro, apenas autárquicas, tiveram vastos efeitos nacionais. Entre os mais importantes contam-se: confirmar a estabilidade eleitoral do partido mais votado, denunciar o desagrado de periferias com o desinteresse do Estado central, dissuadir manobras de gente próxima do judiciário da prática de plantar notícias em véspera de eleições e fazer ressurgir o PS, recentrando o sistema político nacional.

Os resultados foram uma clara vitória autárquica do PSD, estabilizando a sua capacidade governativa. As soluções alternativas, impossibilitadas constitucionalmente durante os próximos dez meses, pensarão duas vezes antes de se decidirem à tarefa fácil, mas perturbadora de derrubar mais um governo antes do termo do mandato. Ao mesmo tempo aumentam a responsabilidade do partido do governo pois, se ganhou alguns bastiões, perdeu na classe média das cidades de média dimensão, termómetros estáveis e essenciais para prever o futuro.

Os resultados demonstram quão longe da satisfação plena está o país fora da faixa litoral (Bragança, Viseu, Castelo Branco, Évora) ou fora do centro de decisão (Faro, Coimbra e Braga a rasar a trave). O Estado central tem ficado cada vez mais cêntrico, à espera das ferrovias prometidas, esgotado ou interrompido o esforço das tão difamadas rodovias. E sobretudo ficaram frustradas as periferias destituídas de recursos e legitimidade própria para exercerem com rigor os deveres da subsidiariedade.

Os resultados revelaram imunidade eleitoral absoluta às fugas informativas que chegam à media especialmente interessada, sobre problemas de justiça que afetam grandes figuras. Se alguém contava com isso desiludiu-se; mesmo os potenciais beneficiários do malefício saíram a terreiro, protestando contra a manobra.

Finalmente, os resultados reergueram o PS como grande partido autárquico nacional, em disputa taco a taco com o partido do Governo. Ou seja, o espetro político recentrou-se, diluindo fantasias de adventícios que julgaram repetir em Portugal a Alemanha dos anos trinta, quando a cada eleição, marcada ou provocada, uma maré de propaganda submergia espíritos e brigadas paramilitares queimavam livros e parlamentos e faziam fugir ou desaparecer pessoas, pelo só facto da diferente etnia.

Claro que quem perdeu gostaria de ter ganho e quem ganhou arrecadou vitória e responsabilidades. Os discursos dos vencedores foram em geral contidos e os dos vencidos cooperantes. Nessa noite tivemos uma aula prática de democracia. Alguns sinais de arrogância tornaram-se depois visíveis. Sobretudo na media de direita que legitimamente rejubila. O Governo terá vida descansada pelo menos um ano. Depois se verá: as projeções macroeconómicas podem virar-se, como alguns assinalam, a guerra na Ucrânia pode não ter fim à vista, o homem das tarifas pode não as abater, não vai ser possível dar sempre novos bónus pré-eleitorais a pensionistas e até a imigração se pode deslocar para países onde lhe seja oferecida casa e melhor trabalho, deteriorando o saldo das nossas contas públicas. Em política, nada está garantido para sempre.

Antigo ministro da saúde