Não vou falar de eleições, nem mesmo daquele Macbeth de plástico perdido no seu labirinto do Eliseu ou de um famoso governante dúbio rodeado de uma clique de ladrões barricado em Moncloa e menos ainda de outros tantos governantes medíocres que transformaram os seus países em jangadas da medusa à deriva no mar morto da história contemporânea. Vou falar de nós, de todos nós, europeus. Como ponto de partida teremos: França, 2024: 251.270 abortos, um recorde dos últimos 30 anos. No mesmo ano de 2024, 663.000 nascimentos, o nível mais baixo desde 1945. Um abismo demográfico e uma ruína moral. Os outros países europeus andarão perto. A Europa desistiu de viver.
Desistiu de viver porque desistiu de si própria.
Desistiu de si própria porque cortada das raízes profundas que a mergulhavam numa terra milenar onde ia buscar a sua seiva, a força, o seu génio e a sua singularidade. A Grécia de Ésquilo, de Platão e de Píndaro; a Roma de Cícero, de Júlio César e de Adriano e a figura viva do Cristo redentor, de braços abertos em todas as encruzilhadas, para uns são sombras de sombras de um sonho que se dissipa; para outros, tantos outros, motivo de escárnio, de vergonha ou de contrição. As ilhas gregas, perdidas no azul matricial do mediterrânio transformadas em resorts de pechisbeque tudo-incluído com luzes que piscam dia e noite são o símbolo absoluto de uma Europa que se esqueceu de quem era, perdida a sua pedra angular e a sua dignidade fundadora.
Desistiu de si própria porque desistiu da sua história e de se reconhecer num vasto legado. Só nomes vazios: O Anel dos Nibelungos. Miguel Ângelo, Homero, Hergé. As Memórias de Adriano, o Deserto dos Tártaros, O Leopardo. Para quase todos poderão ser nomes de restaurantes na moda, de iates no porto do Mónaco, de jogadores de polo ou de futebol. Poderão ser tudo, menos o que são: marcos identitários numa história milenar.
Desistiu de si própria porque desistiu de construir catedrais e castelos e palácios e pontes. De tosquiar as ovelhas, de tecer a lã, de soprar o vidro e de fiar o linho. Desistiu de semear a horta, de lavrar os campos, de pisar as uvas, de fermentar o vinho. Desistiu de construir as casas, de alimentar o fogo, de viver nos filhos e de reviver nos netos. Desistiu de deixar um legado, um testemunho, uma linhagem que pudesse atravessar a floresta desconhecida dos séculos a vir. Desistiu de rezar e de lutar. Desistiu de ser criadora e actora de História. Desistiu de criar para a eternidade. Desistiu até mesmo de desistir, para sempre imóvel entre ser ou não ser.
Desistiu de si própria, porque desistiu do seu passado, do seu presente e do seu futuro. Embalsamada num tempo sem tempo de onde todas as referências foram apagadas, resta-lhe o pão do Estado social e o circo das televisões iluminadas 24 horas sobre 24 que lhe repetem que a realidade está ali, que o lá fora é sonho e que a dúvida é sacrilégio.
Quanto às legiões que defendiam as fronteiras são, também elas, memórias do passado e pelas portas escancaradas das muralhas serpenteiam, em ondas sucessivas, estranhas multidões que vão ocupando as casas, as praças e os torreões. Quando acabar o pão e se apagarem as luzes do circo, irão perceber, mas tarde, demasiado tarde, que todas as outras luzes se apagaram e que a Europa também se apagou. Para eles. Ou seja, para todos nós.
Vice-presidente da Assembleia da República