sexta-feira, 17 abr. 2026

Paz em Gaza. Perspetiva de futuro

.
Paz em Gaza. Perspetiva de futuro

O acordo foi assinado, o Hamas libertou os reféns vivos e as FDI recuaram. Mas a dúvida continua a ser rainha quando se pensa no ‘dia seguinte’. Conseguirá o Hamas cumprir a devolução dos reféns mortos? Quem vai governar o enclave? Como desmilitarizar o Hamas, que tem levado a cabo execuções sumárias? São as grandes questões que permanecem em aberto.

A primeira fase do plano de paz forjado pela administração de Donald Trump está em curso e a esperança de um futuro pacífico - e, consequentemente, mais próspero - para uma região historicamente marcada por conflitos é alta. Os primeiros resultados positivos do plano estão à vista: primeiro, um cessar das hostilidades; depois, na segunda-feira, os vinte reféns vivos que estiveram 737 dias nas mãos do Hamas regressaram ao conforto das suas famílias em Israel numa troca que envolveu também 1968 prisioneiros palestinianos - 250 dos quais enfrentavam penas de prisão perpétua ou de longa duração - e cerca de uma centena de corpos que estavam nas mãos dos israelitas. É importante recordar que Israel assumiu o compromisso de devolver os corpos de 360 «terroristas de Gaza» ao enclave.

No entanto, há uma questão que está a criar tensões neste primeiro passo rumo à paz: a devolução dos corpos dos reféns israelitas. Este é um dos pontos-chave do acordo e um compromisso que o Hamas teve de assumir. O prazo de 72 horas expirou na segunda-feira e ainda só foram devolvidos 9 de um total de 28. De acordo com a CNN, a «ala militar do Hamas afirmou que são necessários ‘esforços significativos e equipamento especial’ para recuperar os corpos dos reféns israelitas que ainda se encontram em Gaza». Segundo a mesma fonte, a incapacidade de o Hamas libertar todos os corpos no prazo estipulado era algo de que o governo israelita estava ciente. Contudo, a CNN avançou ainda, recorrendo a uma fonte não identificada, que «a liderança israelita está frustrada com o ritmo lento» e «está a considerar várias opções caso os atrasos continuem».

«De acordo com autoridades israelitas», escreveram Tal Shalev, Eugenia Yosef e Dana Karni num artigo para a CNN, «as forças de segurança recomendaram aos líderes políticos que não abram a passagem de Rafah e não enviem ajuda humanitária completa para Gaza até que mais corpos retidos pelo Hamas sejam devolvidos». «Uma fonte disse que Israel também está a ponderar a redistribuição das forças das IDF para alguns dos territórios de onde se retirou dentro de Gaza», continuam os jornalistas, «mas ainda não foi tomada nenhuma decisão». «A CNN informou anteriormente que Israel e o Hamas concordaram com um mecanismo para procurar os restos mortais dos reféns mortos em Gaza, mas tal mecanismo ainda não foi criado».

Perspetivas de futuro
A paz num conflito histórico como este não é, de todo, tarefa fácil. Mas, independentemente das inerentes fragilidades do plano, foi atingido um patamar diferente e a paz está significativamente mais perto. Como escreveu, na quarta-feira, o historiador escocês Niall Ferguson num artigo publicado no The Free Press, intitulado ‘Como o ‘imobiliarismo’ conseguiu fechar o acordo em Gaza’ (How Real Estate-ism Got the Deal Done in Gaza) «os críticos de Trump anseiam pela diplomacia à moda antiga. Mas Jared Kushner e Steve Witkoff triunfaram onde os profissionais de segurança nacional de Joe Biden falharam».

E foi na condição de grande arquiteto da paz que o Presidente dos Estados Unidos foi recebido no parlamento israelita (Knesset). Também o The Jerusalem Post, um dos principais jornais israelitas, colocou Trump em destaque na capa, fazendo acompanhar a fotografia do Presidente da frase «que Deus abençoe o construtor da paz».

Mas, como foi já mencionado, uma paz sólida não será tarefa fácil. Jorge Marrão, presidente do Movimento Europa e Liberdade, diz ao Nascer do SOL, a título pessoal, que «os processos de cessar-fogo de conflitos históricos levam tempo». «Não é por se assinar um acordo», continua, «que depois a realidade se concretiza. É um processo lento».

Além disto, as questões do futuro governo de Gaza e da desmilitarização do Hamas continuam a ser grandes pontos de interrogação. Marrão acredita que «a ideia de uma espécie de protetorado é para permitir um processo de estabilização das elites palestinianas de forma a ser possível encontrar um governo credível internamente e para a comunidade internacional». Mas a escolha de Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico e um dos rostos principais da guerra do Iraque há sensivelmente duas décadas, tem causado controvérsia. Como escreve João Marques de Almeida na página 47 presente edição do Nascer do SOL, isso «seria um disparate» porque «Gaza não precisa de uma espécie de ‘governador colonialista’».

Quanto ao desarmamento, o problema parece ser ainda mais bicudo. Marques de Almeida acredita que os membros do Hamas «irão resistir e não será possível desarmá-los sem violência», chamando a atenção para as execuções sumárias perpetradas pelo Hamas contra palestinianos já depois do cessar-fogo ter entrado em vigor. Jorge Marrão diz que «a desmilitarização significa que os financiadores da militarização vão ter de parar» e que será «um processo lento de construção de confiança recíproca». Por isto, «a comunidade internacional vai ter de ter paciência».

De forma resumida, o ponto de situação é o seguinte: o acordo foi assinado, o Hamas libertou todos os reféns vivos e alguns mortos, e as Forças de Defesa de Israel recuaram. Mas a dúvida continua a ser rainha quando se pensa no ‘dia seguinte’. Conseguirá o Hamas cumprir a devolução dos mortos de forma a evitar alguma reação mais forte por parte de Israel? Quem vai governar o enclave? Qual a forma mais eficaz de desmilitarizar o Hamas, que tem levado a cabo execuções sumárias contra o seu próprio povo?

São as grandes questões que hoje se levantam. As respostas que forem encontradas serão a chave do sucesso ou do fracasso de um plano que, cumprido na sua totalidade, será um marco fundamental na história da região.